O Museu do Louvre tinha acabado de abrir quando, pelas 9h30 deste domingo (menos uma hora em Portugal), soou o alerta: um grupo de assaltantes entrou no espaço, roubou joias valiosas da coleção da última imperatriz francesa, mulher de Napoleão III, e conseguiu escapar, de scooter, do museu mais movimentado do mundo — que foi, entretanto, encerrado.

Segundo o Ministério da Cultura francês, “oito objetos de inestimável valor patrimonial” foram roubados. Tratam-se de uma tiara, um colar de safiras e um par de brincos safiras de um conjunto que pertencia às rainhas Maria Amélia e Hortênsia. Ainda um conjunto de colar e par de brincos de esmeraldas de Maria Luísa. Um broche conhecido como “broche relicário”, uma tiara da Imperatriz Eugénia e um grande laço de corpete (broche) da mesma imperatriz.

Os primeiros dados da investigação, revelados pelo Le Parisien, indicam que o grupo terá entrado para o primeiro piso do museu por um dos lados, colado ao rio Sena. Os assaltantes terão utilizado um elevador de carga diretamente para a Galeria Apollo, onde ocorreu o roubo e fizeram-se passar por trabalhadores das obras que estavam a decorrer nessa parte do edifício. Terão ameaçado os vigilantes que evacuaram o local.

Depois de partirem janelas, detalha o jornal francês, dois homens entraram no edifício com coletes amarelos — enquanto outros dois permaneceram de guarda no lado de fora, cada um numa mota  — e pegaram em nove peças da coleção de joias de Napoleão III e da imperatriz Eugénia de Montijo que têm um valor “incalculável” e que estavam em vitrines de vidro que foram partidas. O assalto durou poucos minutos e foi feito alegadamente por profissionais.

Os alarmes do museu dispararam e os empregados seguiram o protocolo, contactando as forças de segurança e protegendo os visitantes, segundo o comunicado do Ministério da Cultura.

Pouco tempo após o assalto, a polícia encontrou no chão fora do museu uma das joias roubadas. O jornal Le Parisien indicou ser a coroa da Imperatriz Eugénia que estará partida. Segundo o site do Louvre, a coroa é composta por 1.354 diamantes e 55 esmeraldas.

Musée du Louvre / Stéphane Maréchalle

O alerta inicial foi dado pela ministra da cultura francesa. Rachida Dati fez uma publicação na rede X a dar conta do roubo que terá envolvido vários assaltantes que entraram no museu quando chegaram os primeiros visitantes. “Não houve feridos”, indicou.

O Louvre anunciou o encerramento de portas por razões excecionais e assim deverá permaneceu até ao final do dia. As autoridades estão mobilizadas para investigar o assalto. A investigação está a ser conduzida pelo departamento que combate o tráfico ilegal de bens culturais. O Louvre é o maior museu do mundo com 73 mil metros quadrados.

Napoleão III reinou entre 1852 e 1870 como imperador e é considerado o primeiro presidente da II República francesa. A coleção de joias da imperatriz Eugénia era famosa pela quantidade e valor das peças. Grande parte foi vendida em leilão pelo Estado francês, mas o espólio que restou estava no Louvre. A coleção visada pelos assaltantes estava na galeria Apollo onde estariam expostas mais de 20 peças. Entre elas estavam vários diamantes, como o Le Régent, considerado um dos mais puros do mundo, e o Sancy.

A Galeria de Apollo, onde ocorreu o assalto de sete minutos

Assalto “em sete minutos” levou joias com “valor inestimável”. Ladrões terão usado pequenas rebarbadoras elétricas

O ministro do Interior (Administração Interna) francês explicou que o “grande assalto” foi realizado “em sete minutos” e levou “joias que têm um valor inestimável”. Os ladrões terão levado pequenas rebarbadoras elétricas para cortar os vidros.

“Tudo está a ser feito para que possamos encontrar os autores o mais rápido possível e tenho boas esperanças”, acrescentou o Laurent Núñez, que admite que há “uma grande vulnerabilidade nos museus franceses”. Os vídeos entretanto partilhados nas redes sociais mostram um grande aparato dos visitantes dentro do museu, no momento em que foi anunciado que as salas teriam de ser evacuadas para a polícia poder investigar o crime.

“Foi necessário evacuar (…) especialmente para preservar as pistas para que os investigadores consigam trabalhar com serenidade. A evacuação ocorreu sem incidentes”, disse o ministro.

Além da coroa roubada, suspeitos deixaram para trás vários materiais usados no assalto

A polícia já conseguiu recuperar, nas imediações do local por onde os assaltantes entraram no museu, vários objetos utilizados no assalto: duas rebarbadoras elétricas, um maçarico, gasolina, luvas, um walkie-talkie, um cobertor e a tal coroa partida, revelou o Le Parisien.

Já durante a fuga, quando seguiam nas scooters, um dos suspeitos terá deixado cair um colete amarelo que também foi encontrado. Entretanto, as autoridades também removeram do local, pelas 15h30, o elevador de carga utilizado para chegarem à varanda por onde entraram para o museu. Na Galeria de Apollo, elementos da Polícia Judiciária realizaram perícias junto à janela partida, como mostram as imagens divulgadas pela imprensa francesa.

Numa nova nota partilhada nas redes sociais pela ministra da Cultura é elogiado o “compromisso exemplar dos agentes mobilizados após o roubo”. “Respeito pela sua capacidade de resposta e profissionalismo”, escreveu.

O Ministério Público de Paris já anunciou a abertura de uma investigação por roubo da parte de um grupo organizado e associação criminosa, tendo sido confiada à brigada de combate ao crime da Polícia Judiciária com o apoio do gabinete central de combate ao tráfico de bens culturais”.

O governador do Centro de Paris diz que está “em choque” com o assalto ocorrido no Louvre e comparou o caso às aventuras de Arsène Lupin — protagonista de vários policias do escritor francês Maurice Leblanc. “Parece que estamos [numa história] de Arsène Lupin. É o guião de um filme. É difícil imaginar que é aparentemente tão fácil roubar o Louvre. O encerramento inesperado levanta um grande problema de ordem pública”, disse ao Le Parisien.

Ian Brossat, senador comunista de Paris, lamenta que o Governo francês não tenha ouvido os apelos recentes dos funcionários do Louvre, que alertaram para a falta de segurança. “A 16 de junho, o museu foi encerrado por várias horas devido a uma greve dos funcionários que alertaram para a falta de pessoal para garantir a segurança. Porque motivo o ministro não ouviu os alertas?”, questionou.

Galeria de Apollo (sala 705) fica no primeiro piso do Museu do Louvre

Houve roubos em (outros) museus franceses nos últimos tempos, mas no Louvre é preciso recuar 30 anos

É preciso recuar quase 30 anos para encontrar o último assalto no movimentado Museu do Louvre. Em 1998, em plena luz do dia, foi roubada uma tela do pintor francês Jean-Baptiste Camille Corot que nunca mais foi recuperada.

O mais famoso dos roubos aconteceu em 1911, quando um italiano movido por patriotismo decidiu levar das paredes do Louvre um dos mais icónicos quadros: a Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Vincenzo Peruggia, que chegou a trabalhar no museu, entrou disfarçado de funcionário e levou a pintura, escondendo-a depois debaixo da cama — até ser apanhado, a polícia chegou a deter vários suspeitos errados, entre os quais o pintor espanhol Pablo Picasso.

Peruggia alegava que esta pintura tinha sido roubada a Itália, o que o levou a tentar “devolvê-la”, sendo reconhecido por alguns italianos como um herói nacional. Muitos peritos acreditam também que foi graças a este assalto que a pintura ganhou fama global e, ainda hoje, leva enchentes à sala onde está afixada. O quadro foi devolvido ao museu em 1913 e Peruggia passou poucos meses na prisão.

Há cerca de um mês, uma equipa de assaltantes entrou de noite no Museu de História Nacional e dirigiu-se à galeria de geologia e mineralogia. Queimaram o vidro com um maçarico e levaram “quatro pepitas de ouro, algumas dos séculos XVIII e XIX, totalizando cerca de 6kg, incluindo uma pepita do tamanho de uma bola de futebol encontrada na Austrália e comprada há cerca de vinte anos”, revelou fonte do museu ao Le Parisien.

Poucos dias antes, na noite de 3 para 4 de setembro, alguns criminosos partiram uma janela do Museu Adrien-Dubouché de Limoges. O alarme soou e os guardas atuaram, mas os ladrões tiveram tempo suficiente para, em poucos minutos, levar três peças de cerâmica no valor de pelo menos 6.5 milhões de euros — as autoridades pensam que os assaltantes tiveram tempo suficiente para roubar outras peças, pelo que acreditam que terá sido um crime encomendado por um profissional.

Na última semana, o museu Jacques-Chirac, em Corrèze, sofreu dois assaltos com apenas dois dias de intervalo. Na manhã de domingo, 12 de outubro, quatro homens encapuçados entraram armados com pelo menos uma espingarda e armas brancas no museu, ameaçaram os rececionistas e alguns turistas, tendo levado 300 euros e um relógio de coleção. O grupo era esperado por um Audi A4 com duas pessoas dentro, que fugiram e incendiaram o veículo quando perceberam que o assalto tinha corrido mal — fora detidos pouco depois. Após 48 horas, vários assaltantes entraram no museu e roubaram relógios e joias avaliados em mais de um milhão de euros.