O encenador Pedro Penim espera que o conselho de administração do Centro Cultural de Belém “se posicione” por ter acolhido, na sexta-feira, um encontro da Fundação Patriots, da extrema-direita europeia, em que participou o presidente do Chega.
O conselho de administração do CCB, por seu lado, disse à agência Lusa que “o evento em referência ocorreu na sequência de um aluguer de sala no Centro de Congressos e Reuniões do CCB, para realização de um evento privado, cujo conteúdo concreto não era conhecido”.
“O Centro de Congressos e Reuniões do CCB realiza mensalmente dezenas de eventos privados promovidos por entidades terceiras e atua no mercado dos eventos desde a sua fundação em 1993, motivado pela realização da primeira Presidência Portuguesa da União Europeia, gozando de grande prestígio como prestador de serviços nesta área, e regendo a sua política comercial por princípios de respeito pela legalidade, liberdade e tolerância”, acrescenta a nota da administração do CCB.
Pedro Zegre Penim, num comentário publicado no sábado nas suas páginas das redes sociais Facebook e Instagram, “distanciou-se publicamente” do CCB, alegando motivos de “coerência institucional, mas também de integridade pessoal e política”.
“A realização, esta sexta-feira, naquele espaço, de um evento promovido pela chamada Fundação Patriots, publicitado pelo Chega e com a presença de figuras de extrema-direita, transforma um espaço cultural público numa plataforma de legitimação institucional de discursos que negam os valores da liberdade e da igualdade”, escreveu Pedro Penim, numa alusão à primeira conferência promovida pela Fundação Patriots, subordinada ao tema “The Great Pushback — Freedom First”, realizada naquele espaço cultural, em Lisboa.
A conferência foi igualmente publicitada pelo eurodeputado do Chega António Tanger Corrêa, que em diferentes publicações, nas redes sociais X e Instagram elogiou “a primeira conferência em Portugal da Fundação dos Patriots”, com a afirmação de que “o green deal é para suspender”: “O Great Pushback começa agora! Fiquem atentos — isto é só o começo!”
A Fundação Patriots, que congrega eurodeputados do grupo Patriotas pela Europa do Parlamento Europeu, em que o Chega está integrado, apresenta-se na sua página, na Internet, como “uma fundação política europeia registada na Autoridade para os Partidos Políticos Europeus e as Fundações Políticas Europeias”, “composta por membros individuais que a representam em vários Estados-Membros, incluindo França, Bélgica (Flandres), Áustria, Itália, Eslováquia, Bulgária, Estónia e República Checa”, afirmando-se baseada “em princípios democráticos” e em oposição “a qualquer transferência de soberania nacional para organismos supranacionais e/ou instituições europeias”.
No seu site, tem publicações sobre o que chama “neo-feminismo” como ameaça à segurança das mulheres, o controlo da imigração como “grande desafio a vencer pela Europa” e, como exemplo de que a liberdade de imprensa está em risco nos países ocidentais, a prevalência de críticas ao governo de Viktor Orbán e ao seu autoritarismo, no poder na Hungria desde 2010.
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Pedro Penim, que também é diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, disse esta segunda-feira à agência Lusa que a sua posição “é uma coisa muito pessoal, mas tem as implicações que tem”. Questionado pela Lusa sobre se a sua opinião pessoal implicava não levar espetáculos do TNDM àquele centro cultural, Pedro Penim disse que “não há nenhuma previsão de o TNDM fazer espetáculos no CCB”.
O que Pedro Penim “na verdade estava à espera” era que, “de alguma forma, o conselho de administração [do CCB] se posicionasse relativamente a esta questão”, porque, “até ao momento”, não tem “nenhum dado, nenhuma explicação oficial para aquilo que aconteceu”.
Depois também “para poder, eventualmente, avaliar que implicações mais institucionais é que poderia ter”, sublinhou.
“No meu caso, e como diretor artístico, o que digo no ‘post’ mantenho, por uma questão também de coerência pessoal, de coerência política, de coerência artística até e cultural”, indicou.
Para Pedro Penim, “é necessário, de alguma forma, alguma justificação (…) minimamanete aceitável para aquilo que aconteceu”.
“Por isso, para já não há mais nenhuma implicação além desta implicação pessoal de, como digo no ‘post’, me distanciar publicamente daquilo que são as atividades do CCB, e acho que isso é a tal coerência que mencionava”, frisou.
Como diretor artístico do TNDM, acrescentou estar “ainda expectante àquilo que poderão ser as justificações por parte do conselho de administração, uma vez que, neste momento, também não há direção artística e, obviamente, também se trata de um aluguer de sala”, frisou.
Para Penim, porém o CCB “não é um espaço que não tenha um escrutínio, que não tenha depois uma consequência relativamente àquilo que é conteúdo mesmo quando são alugueres”, defendeu.
“O CCB desenvolve a sua atividade regendo-se por princípios de pluralismo e tolerância, valores espelhados na sua programação própria, seja ao nível dos espetáculos ou da atividade do Museu”, sublinha a administração do CCB, na nota enviada à agência Lusa.
Sem falar em nome do teatro que dirige a nível artístico, Pedro Penim admitu que os comentários que publicou nas redes sociais são “também uma forma de criar alguma pressão para que se perceba o que aconteceu”.
“E, mais uma vez, vincando esta ideia de que as instituições culturais não podem, não devem ser veículos de mensagens autoritárias, mensagens excludentes e mensagens que possam de alguma forma ferir suscetibilidades de comunidades”.
No caso da conferência realizada no CCB, Pedro Penim disse que “parecia até” ter havido “alguma tentativa” de lhe dar “invisibilidade”. Não é, contudo, por isso “que deixa de ter uma relação muito direta com a posição da instituição perante os públicos e perante a sociedade portuguesa”.
Sem pedir que o conselho de administração do CCB tenha uma posição com a mesma “dimensão” da sua “responsabilidade individual”, que pauta os princípios por que se rege, e não apenas a sua ‘persona pública’, Pedro Penim deefndeu que “definitivamente, há linhas vermelhas”.
“E acho que aqui se ultrapassou de forma muito taxativa essa linha vermelha”, concluiu.
Na nota do CCB, o conselho de administração sublinha ainda que “importa referir que, no mesmo dia e à mesma hora [da conferência], no Grande Auditório apresentava uma peça que assinala os 50 anos do Teatro O Bando, homenageando Agustina Bessa-Luís e João Brites, programada pelo CCB e com lotação esgotada — um exemplo do compromisso constante do Centro Cultural de Belém com a criação artística e a valorização da cultura portuguesa”.