O dia foi longo, tão longo que só acabou de noite. A noite foi longa, tão longa que nem mesmo com mudança da horária impediu que só terminasse na manhã seguinte. O fim de semana foi longo, tão longo que só depois de mais de 32 horas é que se soube ao certo como tinham ficado as contas na primeira volta das eleições do Benfica – e com uns acréscimos a fazer porque os 85.422 sócios votantes anunciados eram na verdade 85.710 somando o total de todos os votantes em cada um dos candidatos à Direção e subia depois para 86.297 tendo em conta que os nulos e os brancos não estavam contabilizados nesse particular. No entanto, e pouco depois de ter acabado a primeira corrida, os dois concorrentes na pole position já preparavam a segunda volta.

O fenómeno que ficou pela bolha, o peso dos 50 votos e uma maioria silenciosa que apareceu: os vencedores e vencidos das eleições do Benfica

João Noronha Lopes fez questão de referir que agora iria começar uma “eleição nova”, não se deixando ir abaixo pela diferença de 12% percentuais com Rui Costa e recusando de forma liminar a possibilidade de não ir a jogo na segunda corrida (até pela aproximação que a votação no Pavilhão da Luz promoveu entre ambos), Rui Costa mostrou-se satisfeito com o triunfo deixando uma “bicada” a João Noronha Lopes, recordando que se 60% disseram que são contra a atual Direção, “que na verdade são 58%”, houve 70% que não quiseram o seu adversário direto. Estava dado o mote para os dias que se seguiam, que basicamente serviram para fazer uma atualização nas agendas de campanha para mais duas semanas e com essa novidade de, além do direito de antena e do debate na BTV, haver um novo debate entre RTP3, SIC Notícias, CNN/Portugal e CMTV.

“Também posso dizer que 70% não acredita no outro lado…”: Rui Costa mostra-se orgulhoso pela votação e deixa “farpa” de resposta a Noronha

Mas como estava a contagem de espingardas? Para já, apenas duas certezas: mesmo não confiando a 100% na visão que defende para o Benfica, João Diogo Manteigas assumiu o sentido de voto em Noronha Lopes, ao passo que Luís Filipe Vieira tem recusado qualquer tipo de apoio a qualquer uma das listas (Martim Mayer ainda pondera sobre um possível apoio a alguém). E foi o advogado o primeiro a explicar o porquê da decisão, que diz tomar de forma meramente individual por considerar que é o melhor para os encarnados.

“Não se desiste do Benfica e eu não desisto do Benfica.” Noronha Lopes “esperava melhor”, mas lembra que segunda volta é “uma nova eleição”

“Continuamos a acreditar, e acho que mais de 12 mil sócios provaram isso, que somos a única candidatura que tinha condições, projeto e pessoas para mudar, de forma necessária, aquilo que o Benfica representa. Não nos revemos nos projetos dos outros candidatos, incluindo os dois que vão à segunda volta. Isto não é soberba, é exatamente no que acreditamos. E há mais de 12 mil sócios que validaram esta ideia, visão e projeto. Em relação a João Noronha Lopes, continuo a dizer que o seu projeto não é a mudança que o Benfica precisa, mas é uma mudança. Não obstante não haver sentido de voto, no meu entendimento pessoal, e isto não vincula a candidatura nem ninguém vinculado à candidatura, João Noronha Lopes é o meu sentido de voto no próximo ato eleitoral. Não me revejo no projeto dele, não sei o que será o Benfica com ele, não confio a 100% no Benfica dele porque não sei simplesmente o que aí vem, mas é um primeiro passo para a mudança que quero no Benfica”, assumiu o candidato que teve cerca de 12% nas eleições.

Já Bagão Félix, líder do Conselho Fiscal da lista de Noronha Lopes que teve uma votação muito superior do que o candidato à Direção, defendeu aquilo que tem sido feito pelo gestor. “Os 50 votos são, normalmente, muito conservadores, têm mais dificuldade em mudar, em passar para outra lista. A mudança é como o sistema. A mudança que Noronha propõe é com confiança e moderação, não significa rotura, que é mais forte, que é revolucionária. É uma mutação. Houve coisas insultuosas, de que seria um novo Vale e Azevedo. É insultuoso. Noronha Lopes está para servir o Benfica e não para se servir do Benfica. Faz da verdade, transparência e rigor, e não da fraude e da batota, a sua ação. É importante, na segunda volta, que não se fale do passado, acabou. A certa altura estas eleições entraram numa espécie de maniqueísmo, num um filme a preto e branco. De um lado os puros, do outro os impuros; de um lado os que têm experiência, do outro os que não têm”, referiu na BTV, antes de destacar o papel de Mourinho: “Foi uma excelente escolha de Rui Costa, corroborada pela maior parte dos candidatos. Foi uma excelente decisão desta Direção”.

O primeiro “caso” da segunda volta, esse, não demorou a chegar. “O Benfica informa que participou à Comissão Nacional de Proteção de Dados várias denúncias enviadas por sócios referentes à recolha ilegal de dados no decurso das eleições do dia 25 de outubro. Foi reportada pelos sócios a recolha de dados pessoais como nome, apelido, número de sócio, onde votou e o número de votos no momento da votação. Foi igualmente público que vários sócios receberam mensagens de telemóvel e emails a apelar ao voto numa lista em concreto. Todos estes factos e denúncias foram reportados pelo Sport Lisboa e Benfica à entidade competente, a quem caberá agora analisar e agir em conformidade”, escreveu o clube em comunicado.

Benfica faz queixa à Comissão Nacional de Proteção de Dados por “mensagens a apelar ao voto” de Noronha Lopes

“Tomámos conhecimento há minutos pela comunicação social de uma participação do Benfica à CNPD de alegado incumprimento da legislação sobre dados pessoais. Desconhece o teor dessa participação.  A candidatura nega veementemente ter cometido qualquer ilegalidade e colaborará com a CNPD no que lhe for solicitado”, comentou a candidatura de João Noronha Lopes. Antes, ainda no sábado, perante mensagens e emails que estavam a ser enviados a sócios a apelar ao voto no gestor, a lista F falar num “não assunto”, tendo em conta que essas mensagens “foram enviadas num circuito fechado de voluntários”. “Não foi um envio indiscriminado de informação a alguém com quem nunca houve contacto”, explicaram ao Observador.

Uma coisa é certa: a segunda volta já está em marcha, tal como o pedido ao Guinness para que esse recorde mundial de votantes seja homologado e fique nos livros das maiores marcas do mundo. Um registo que, no dia 8 de novembro, pode voltar a ser superado. “É uma decisão à segunda volta, uma decisão final, e terá naturalmente mais sócios para participar. Esta é uma análise subjetiva. Depois, como vamos melhorar as condições, sabemos que os sócios do Benfica nunca dizem que não. Estudámos a situação e implementámos um processo para garantir que nada falhe e para que 100 mil sócios possam votar. 100 mil? Se não acreditássemos não diríamos. Não podemos funcionar sem metas. Somos obrigados a crer que a resposta na segunda volta será superior. 100 mil sócios é uma meta alcançável. Os sócios podem bater o recorde, errado seria não pensar o contrário”, apontou José Pereira da Costa em entrevista à BTV.

“Com essa previsão dos 100 mil sócios votantes, estamos a criar condições para os 100 mil mas não quer dizer que nos fiquemos pelos 100 mil. Não tenho expectativa para a hora dos resultados finais. Todos nós chegámos ao Estádio pelas 6h de sábado e às 17h do dia seguinte estávamos a tratar do processo eleitoral. Todos queremos diminuir o tempo. Eu conto que desta vez o tempo reduza para metade. Não vale a pena criar expectativas. Vamos imprimir milhão e meio de boletins de voto. Só nestas eleições foram contados 375 mil boletins de voto. Não podendo faltar boletins de voto, tem de ser feita a redundância. Queremos assegurar que não haja espera, como houve em algumas secções. A primeira volta correu bem mas queremos que corra ainda melhor. Contamos com um aumento de participação. Estamos a olhar para a situação das Casas que tiveram algumas filas de espera. Vamos aumentar o número de mesas e postos de identificação nas casas. Aos sócios que esperaram para votar, vão esperar muito menos. Isso é fator decisivo para um aumento da participação”, acrescentou ainda o líder da Mesa da Assembleia Geral e Eleitoral.