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Kim Cattrall já não quer falar de "O Sexo e a Cidade": "A vida de qualquer mulher pode ser transformada num filme fantástico"

Este artigo tem mais de 6 meses

No Tribeca Lisboa, e perante uma plateia que ficou pela metade, a atriz evitou referir-se à série de sucesso da HBO, destacou outros papéis e falou do renovado propósito que encontrou como produtora.

“Espero que, com o meu nome, a minha experiência e as minhas conexões, possa realizar projetos que abordem as mulheres em situações difíceis em todo o mundo"
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▲“Espero que, com o meu nome, a minha experiência e as minhas conexões, possa realizar projetos que abordem as mulheres em situações difíceis em todo o mundo"

▲“Espero que, com o meu nome, a minha experiência e as minhas conexões, possa realizar projetos que abordem as mulheres em situações difíceis em todo o mundo"

Foi Honeydew, Emmy e Gracie Law no cinema, foi Cleópatra e Célimène no teatro e, talvez acima de tudo o resto (pelo menos segundo a métrica mediática), foi Samantha Jones na televisão. Ao longo da sua extensa carreira, não foi difícil para Kim Cattrall encarnar personagens icónicas — pelo menos até há 15 anos, quando constatou que estava a chegar a uma fase da vida em que necessitava de reformular que lugar queria ter na indústria.

“Olhei à minha volta e pensei que simplesmente não havia papéis maravilhosos suficientes para mulheres na minha idade, na casa dos 50 anos. Então, tomei essa decisão ousada e disse ‘quero ser produtora, quero ter voz ativa nos projetos que vou fazer, com quem e onde’”, revelou a atriz canadiana, hoje com 69 anos, numa conferência de imprensa dada aos jornalistas no segundo dia do Tribeca Lisboa.

O primeiro passo nesse sentido foi dado ao querer adaptar uma série britânica, Sensitive Skin, para a televisão canadiana. “Era protagonizado por Joanna Lumley e um elenco maravilhoso e era sobre uma mulher a questionar as suas escolhas de vida. Agora, conseguem imaginar como é difícil lançar um projeto no nosso ramo sobre uma mulher a passar por uma crise de meia-idade! Não é nada fácil de vender”, desabafa. Mas conseguiu fazê-lo, garantindo-lhe um lugar na HBO Canada.

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A série, que protagonizou durante duas temporadas entre 2014 e 2016, foi nomeada a um Emmy Internacional e venceu vários prémios da televisão canadiana. No entanto, o que carrega dessa experiência não é o sucesso, mas ter sentido “um tipo de satisfação diferente”. “Foi porque criei algo que não existia e não era o sonho de outra pessoa, era o meu. Foi como um afrodisíaco, sentia-me realmente poderosa e também muito feliz todas as manhãs”, conta.

Desde então, as suas outras experiências de produção não têm sido tão bem sucedidas. Por exemplo, Glamorous, outra série que produziu e protagonizou, foi cancelada pela Netflix ao fim da primeira temporada, em 2023. E se encararmos apenas a sua ocupação principal, a sua mais recente passagem no cinema, About My Father, de 2023, valeu-lhe uma nomeação como pior atriz secundária dos infames prémios Razzie. Tudo isso, porém, é relativizado por Cattrall.

“Não se começa por olhar para um guião e pensar ‘oh, isto vai receber críticas terríveis, ou isto vai ser aclamado’. Nunca se sabe, é uma incógnita. Mas escolhe-se, penso eu, de certa forma, pensando ‘esta é uma boa história, isto é algo que eu gostaria de ver, isto é algo que me levaria ao cinema’”, afirma. A atriz, inclusive, admitiu que fez escolhas no passado que preferia ter guiado pela sua “consciência”, frisando logo a seguir “mas precisava de comer!”

É também, por isso, acrescenta, que quis começar a ser produtora, revelando que esse novo propósito revitalizou-a. “Podes acordar de manhã e pensar ‘ah, é só um trabalho’, ou então pensar ‘é este o trabalho, é por isso que entrei nesta indústria’. É para contar histórias, especialmente sobre mulheres. E agora, à medida que vou envelhecendo, essas histórias são muito mais gratificantes e ricas de partilhar”, declara. Mais à frente, acrescentará que essas histórias que quer trazer à tela ou ao ecrã “não são tão comerciais quanto algumas pessoas gostariam”, mas “devem ser contadas e ouvidas”.

Cerca de uma hora e meia depois, Kim Cattrall voltaria a este tema no painel “Sem morada fixa: uma vida dedicada a contar histórias globais”, ao lado de Daniela Ruah e perante meia casa no Lisbon Stage — a este respeito, o Observador questionou a organização do Tribeca se a afluência tinha diminuído face à chuva que se fez sentir em Lisboa; a resposta foi de que aumentou.

Questionada por Carlos Moedas, a servir de moderador, quanto a que tipo de histórias faz falta contar, a atriz foi lacónica: “A vida de qualquer mulher pode ser transformada num filme fantástico. E essas são histórias das quais não temos o suficiente”. Para realçar esse ponto, inclusive, colocou na sua mira um dos mais celebrados cineastas da história.

“Sou uma grande fã de Martin Scorsese, mas, caramba, gostaria que ele escrevesse mais papéis para mulheres! Adoro-o, porque ele é brilhante. Mas o que é que ele poderia fazer? Como seria a sua Cleópatra num filme? Às vezes não temos essas oportunidades de trabalhar com um realizador como ele porque somos mulheres. É por isso que é tão importante criarmos o nosso próprio mundo e fazê-lo juntas. Não somos fortes separadamente, mas juntas. E podemos fazer a diferença e contar essas histórias de que todas precisamos. Elas são como um alimento quando são boas. Para mim, são como comida, saio do cinema e sinto-me tão saciada. Mas é uma longa jornada para chegar lá”, apontou.

Será possível afirmar que essa “longa jornada” já foi iniciada, mesmo que de forma titubeante? Recordando o que tinha afirmado quanto à seca de papéis que atrizes passam a dispor a partir dos 50 anos, o Observador perguntou a Kim Cattrall o que pensava do reconhecimento crítico que várias atrizes mais velhas têm vindo granjear nos últimos anos, de Demi Moore a Jamie Lee Curtis, passando por Pamela Anderson ou Michelle Yeoh. “Veio com atraso, já não era sem tempo!”, respondeu.

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“Hollywood foi construída com base em mulheres incríveis como Bette Davis e Marlene Dietrich, e o que elas realmente representavam era poder. Entretanto perdemos isso e tentámos recuperá-lo nos anos 60 e 70. E agora estamos a lutar por isso novamente. Então, assim continua. Mas há uma coisa sobre a história que é reconfortante: já passámos por isto antes, talvez não exatamente nas mesmas circunstâncias, e no final vamos sair por cima novamente. Pelo menos é o que espero”, completou.

A esse respeito, Cattrall foi também questionada quanto ao que podia fazer pelas mulheres na indústria num momento de ascensão do antifeminismo a nível global. “Espero que, com o meu nome, a minha experiência e as minhas conexões, possa realizar projetos que abordem as mulheres em situações difíceis em todo o mundo. Eu protestei pelo caso Roe versus Wade, isso fez parte do meu despertar como jovem mulher na cidade de Nova Iorque no início dos anos 70 e agora estamos a fazê-lo novamente. Então, sim, precisamos de histórias sobre mulheres, para lhes dar a tranquilidade de saber que não estão sozinhas. Acho que o lugar mais difícil para uma mulher estar é sentir-se sozinha no que está a passar”, advertiu.

No que toca ao futuro, Cattrall considera a ascensão da inteligência artificial algo “aterrador” para os atores. “Ainda nem começámos a entender o que está por vir. Infelizmente, parece que isso vai deixar muitos de nós sem emprego”, lamenta. A atriz, no entanto, tem para já assegurados dois papéis para o futuro próximo, como adiantou numa entrevista à revista People. Em Lisboa, no entanto, nada revelou sobre os mesmos.

Cattrall lembra Carpenter e Manequim, mas não Samantha

Não foi apenas do presente e do futuro que Cattrall quis falar no Tribeca. Dada a longevidade da sua carreira, havia muita curiosidade quanto ao que podia partilhar em relação à sua experiência e ao seu percurso de vida. No painel, por exemplo, contou como foi dar os primeiros passos como atriz no Canadá.

“Não tinha nenhuma ligação com o mundo do espetáculo na minha família, por isso, nos anos 70, ao crescer na ilha de Vancouver, que tinha uma população muito pequena, dizer que queria ser atriz era como dizer que queria ser astronauta. Era uma coisa extraordinária de querer ou fazer, mas tive muita sorte porque tive muito apoio”, revelou. Também por isso, e porque a conversa estava centrada na ideia de como uma identidade migrante influência o trabalho dos atores e a forma como se conta histórias, ressalvou o choque cultural que foi mudar-se para Nova Iorque para entrar na famosa American Academy of Dramatic Arts.

“Uma pessoa sente-se separada do que conhece. Mas, para mim, achei fascinante. Eu não sabia quem era o Johnny Carson [apresentador televisivo] quando me mudei para Nova Iorque. E adorava fazer palavras cruzadas, mas nunca conseguia acertar nenhuma das respostas fora do Canadá, porque era essa a sociedade em que eu passava mais tempo. São essas pequenas pistas que se tem de aprender ou reaprender, mas achei fascinante que éramos todos tão semelhantes, mas tão diferentes”, lembrou.

▲ Kim Cattrall, segunda a contar da esquerda, com Kristin Davis, Cynthia Nixon e Sarah Jessica Parker numa cena de "Sexo e a Cidade"

Getty Images/Paramount Pictures

Houve, porém, um tema que Cattrall não quis abordar ao longo da tarde: a sua experiência como Samantha Jones em Sexo e a Cidade, série cujas seis temporadas, emitidas entre 1998 e 2004, tornaram-se num marco cultural. É do conhecimento público como a atriz terminou a participação no franchise em circunstâncias acrimoniosas, tanto que participou nos dois filmes criados após o final da série original, mas não na sequela, And Just Like That…, aceitando apenas fazer uma aparição especial de pouco mais de um minuto.

20 anos de “O Sexo e a Cidade”: o que mudou na TV e fora dela?

Apenas se ouviram duas alusões ao tema. Uma, inusitada, ocorreu no painel, quando Daniela Ruah explicou que, quando se escolhem atores para papéis principais em séries televisivas de longa-duração, o casting faz-se tendo em conta que há algo no ator que se relaciona com a personagem, o que levou à reação bem humorada de Cattrall: “O que estás a dizer? Que sou uma maníaca sexual?”, para o riso geral do público.

A outra, na conferência, foi mencionada pela própria atriz, a reboque de uma resposta sobre Meet Monica Velour, filme de 2010 que considerou ter sido incompreendido pela crítica e cujo papel que interpretou destacou como um dos seus mais subvalorizados. “De certa forma, em O Sexo e a Cidade, a Samantha era o lado positivo de ser um ser sexual poderoso. E a Monica Velour foi o lado negativo. Era alguém que não tinha muitas opções na vida, era uma estrela pornográfica a lutar pela custódia do seu filho contra o ex-marido. Então, esse foi realmente um papel e um filme que guardo no meu coração, porque pude experienciar, creio, um mundo que a maioria de nós vê como muito duro e muito feio. E dava para ver como essa mulher e o seu espírito indomável tentam conquistar esse mundo e fazer com que funcione para ela de todas as maneiras possíveis”, argumenta.

Houve outro filme — também ele mal recebido na sua estreia, mas hoje celebrado — a ser recordado durante a tarde: Big Trouble in Little China, comédia de ação projetada em Portugal com o título As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarin. Celebrando o seu 40º aniversário em 2026, Cattrall participou neste clássico de John Carpenter ao interpretar Gracie Law, uma jovem advogada e parceira de cena do improvável herói Jack Burton, encarnado por Kurt Russell.

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▲ Kim Cattrall, à esquerda, ao lado de Kurt Russell e Suzee Pai numa cena do filme "Big Trouble in Little China"

Getty Images

“Ficou muito feliz por ter ganhado uma segunda vida como filme de culto, porque merece, é muito bem feito”, comentou a atriz. “Foi um filme muito caro, o maior que John Carpenter tinha feito até então na sua carreira, e foi um grande desastre. As pessoas não o entenderam, não perceberam que era uma paródia. Portanto, foi muito dececionante. Mas eu me diverti muito a fazê-lo!”, acrescentou, partilhando de seguida a experiência de rodagem.

“Eu tinha de ter olhos verdes. Tenho olhos avelã, mas não suficientemente verdes, e por ser um ponto tão importante da história, tive de usar umas lentes de contacto muito desconfortáveis. Então, fazíamos o aviso de 15 minutos, eles colocavam-mas e eu parava de chorar o suficiente para fazer uma cena. E então John dizia-me apenas duas palavras de orientação: “Sim, mais rápido”. Tudo o que eu tinha de fazer — porque tinha muitas explicações a dar em cena —, ele queria que fosse rápido e preciso. Então, nunca trabalhei tanto para fazer tudo em conjunto, porque o quão rápido quanto ele me pedia, era o mais rápido que eu conseguia ir”, recordou.

Outro filme que não passou despercebido foi Manequim, também ela uma comédia dos anos 80 que foi arrasada pela crítica e assumiu estatuto de culto. Cattrall, que figura como um manequim que ganha vida entra numa relação amorosa com o seu criador, descreveu a película como “filme muito doce e leve” mas com uma mensagem poderosa. “Quantos de nós queremos acreditar em nós próprios? E quantos de nós damos esse passo? É um filme encorajador de uma forma muito doce, amorosa e positiva para sermos o melhor que podemos ser. É uma ótima mensagem de se ouvir”.

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