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Mesmo sem o Óscar, Demi Moore recomeça

Era uma das favoritas ao Óscar de Melhor Atriz, mas a avalanche de "Anora" não deixou. Ainda assim, o filme "A Substância" deu-lhe o espaço que até agora não tinha encontrado e um recomeço.

É mencionado com frequência que Hollywood adora os seus “comebacks”. Mas em que consiste verdadeiramente um regresso em contexto de Óscares? É fazer como Marlon Brando ou Renée Zellweger, que retornaram aos píncaros da indústria ao voltar a vencer estatuetas anos depois de já terem sentido na cara o ar rarefeito da glória, sendo necessária uma travessia no deserto para lá chegar? Ou seguir os exemplos recentes de Brendan Fraser, Ke Huy Quan ou Michelle Yeoh, cujos triunfos projetaram-nos para um patamar até então inaudito nas suas carreiras? Tais conquistas sugerem, aliás, a pergunta: é sequer possível haver um “regresso” a um lugar onde nunca se esteve?

Como se pode ver, o conceito é plástico o suficiente para ter várias leituras, e se corrida ao Óscar de Melhor Atriz (ganha por Mikey Madison e Anora) pela prestação em A Substância pôde inscrever Demi Moore no cânone dos “comebacks” da história do cinema, é igualmente verdade que a palavra peca por falha porque a atriz de 62 anos nunca nos abandonou — quando muito, foi o contrário o que aconteceu.

“Já faço isto há muito tempo, há mais de 45 anos, e esta é a primeira vez que ganho alguma coisa como atriz”, lembrou Moore ao receber o Globo de Ouro no início do ano pelo mesmo papel, num discurso apontado pelos insiders da indústria como uma das mais notáveis cartas de candidatura aos Óscares de que há memória. Seguiram-se conquistas nos Critics’ Choice Awards e nos Screen Actors Guild Awards, fazendo assim um percurso quase incólume até aos prémios da Academia, não tivesse o BAFTA escapado para Mikey Madison (Anora) — tal como o Óscar.

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▲ Demi Moore, após vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical pela performance em "A Substância"

Penske Media via Getty Images

Regressando à natureza do que consiste um “regresso”, um dos casos mais próximos ao de Moore talvez seja mesmo o de Michael Keaton com Birdman, em 2014, sendo que, tal como Moore, conseguiu apenas a nomeação e não o troféu de Melhor Ator. A proximidade entre os dois não se deve apenas à questão de, no seu apogeu, terem sido estrelas lucrativas nos anos 80 e 90, nem ao facto de nunca terem deixado de trabalhar — numa entrevista à GQ 10 anos após a nomeação, o ator classificou essa narrativa de retorno como “uma treta”. Nesse sentido, ambos podiam ter feito os seus discursos recorrendo às célebres palavras com que LL Cool J inicia uma das suas mais famosas canções, Mama Said Knock You Out: “Don’t call it a comeback, I’ve been here for years” (“Não lhe chames um regresso, estou aqui há anos”).

O que os une verdadeiramente, no entanto, é que os papéis que os devolveram à ribalta misturam perceções de ficção com realidade, criando meta-narrativas em que tanto Keaton como Moore encarnam personagens que mimetizam aspetos da sua vida: em Birdman, Keaton — que conquistou o mainstream ao tornar-se o primeiro Batman de Tim Burton no cinema — faz de um ator em decadência que está a tentar um regresso de prestígio na Broadway, assombrado pelo papel de um super-herói pelo qual se notabilizou; 10 anos depois, Moore assume em A Substância a pele de Elizabeth Sparkle, uma atriz antes consagrada e que, ao aproximar-se da meia-idade, é descartada do seu programa televisivo de fitness. É então que lhe é oferecido um estranho tratamento que lhe permite criar uma versão de si mesma mais nova e recorrer a esse novo corpo para recuperar o espaço que o tempo e o preconceito da indústria lhe roubaram, tornando-se a luta de poder entre estas duas facetas uma orgia de terror grotesco.

Óscares: “Anora” foi o grande vencedor da noite e “Ainda Estou Aqui” o Melhor Filme Internacional

“O regresso perfeito de Hollywood é uma sinfonia cuidadosamente orquestrada de paralelismos narrativos e de timing no zeitgeist. Uma estrela marginalizada — como Demi Moore — deve assumir um papel que espelhe o seu arco narrativo fora do ecrã. Acrescente-se uma pitada de credibilidade autoral e arrojo suficiente para provocar conversa, e tem-se a fórmula para uma ressurreição”, comentou um especialista em relações públicas à BBC a propósito da atual campanha aos Óscares.

A “Tinseltown” é pródiga neste tipo de situações — basta apontar para a revitalização das carreiras de Gloria Swanson e Bette Davis ao protagonizar mulheres mais velhas, descontinuadas pelo showbiz ao qual deram tudo, em Sunset Boulevard e All About Eve, respetivamente. Ambos os filmes são de 1950, o que mostra como Hollywood há muito que reflete sobre este tema — e o facto de Moore e A Substância fazerem furor mais de 70 anos passados prova como não perdeu a sua importância.

Mesmo que Moore não tenha vencido a cobiçada estatueta, sai desta jornada noutro patamar, sendo que poucas pessoas mereciam dar uma chapada de luva branca a Hollywood quanto a atriz que uma vez recebeu a seguinte tirada de um crítico da New Yorker: “Para que serve a Demi Moore?”

▲ Com Patrick Swayze, no filme "Ghost", de 1990

Getty Images

Os picos e quedas de uma década

Uma das razões pelas quais a “campanha” de Demi Moore ao Óscar teve particular força foi sublinhada pela própria no já referido discurso dos Globos de Ouro, quando lembrou que um produtor dissera-lhe 30 anos antes que era uma “atriz de pipocas”, ou seja, assumindo assim que “podia fazer filmes de sucesso, que faziam muito dinheiro, mas que não seria reconhecida”. “Eu acreditei nisso”, lamentou.

Apesar de duras, tais palavras encontraram eco na forma como Moore foi sendo encarada pela crítica e pelos seus pares — até A Substância, a atriz tinha apenas logrado duas nomeações individuais — ambas nos Globos de Ouro — a prémios ao longo de toda a carreira: pelo telefilme If These Walls Could Talk, de 1997, e antes, pelo drama romântico Ghost, de 1990. Ao lado de Patrick Swayze, este foi o filme que a conduziu ao estrelato, depois de começar a levantar ondas em 1985 com outros membros do Brat Pack em St. Elmo’s Fire e na comédia romântica About Last Night, de 1986.

Moore provou desde então que conseguia fazer com que se enchessem salas. Ghost foi, à data do seu lançamento, o terceiro filme mais rentável de sempre. A Few Good Men (1992) teve boa bilheteira e melhores críticas, ao passo que Indecent Proposal (1993) e Disclosure (1994), apesar da má receção, foram altamente lucrativos. No entanto, o percurso que foi seguindo ao longo dos anos 90 cristalizou-a na tal imagem por si recordada, a de uma sex symbol cuja presença no ecrã era sinónimo de palpitações na audiência e não reconhecimento de talento.

Demi Morre na capa da Vanity Fair em agosto de 1991

No entanto, o verdadeiro falatório à volta de Moore foi decorrendo atrás das câmaras. Primeiro, casando-se com Bruce Willis — ele próprio uma estrela em ascensão —, passou a formar um dos casais mais sensacionais do seu tempo, verdadeiro íman de atenção e maledicências. Depois, foi a sua frontalidade e falta de pudor: em 1991, provocou escândalo ao posar nua, grávida da segunda filha, para a Vanity Fair, algo inédito na forma como confluía sexualidade com maternidade. Além disso, ficou conhecida pela alcunha Gimme Moore (“dá-me mais”) por exigir melhores salários, sendo que hoje, na era pós-MeToo e dado o foco posto sobre as questões de igualdade de género, tem sido reconhecida como uma precursora. E esta não é uma leitura hagiográfica, veja-se o que a atriz comentou em 1995 numa entrevista ao Independent: “A soma em si é inconsequente. O que é mais importante é a marca no tempo em que as mulheres estão a encontrar uma resposta de bilheteira equivalente à dos homens. A mudança de atitude é mais importante”.

Como tal, a atriz começou a criar uma reputação dúbia e a tornar-se um alvo fácil de misogenia mais ou menos velada, sendo frequentemente alvo de artigos a questionar as suas escolhas, como por exemplo se a nudez que exibira ao longo da década denotava “comportamentos exibicionistas” e se arriscava a sobreexposição. Até mesmo quando fez a capa da Vanity Fair, o perfil que a acompanhou veio pejado de conotações negativas e depoimentos arrasadores: “não é como se ela fosse a Geena Davis, alguém que já teve atuações maravilhosas. A Demi não fez isso — ela teve sorte e casou-se bem. E o sucesso de Ghost e o facto de ser a Sra. Bruce Willis subiram-lhe à cabeça ao mesmo tempo, inchando-a sem dó nem piedade”, afirmou um produtor sob anonimato à revista.

Havia então vontade pública e terreno fértil para que Moore fosse vilanizada e para que o grande público se virasse contra si, o que aconteceu ao protagonizar uma sequência de flops, alguns dos quais encarados ainda hoje como dos piores filmes de sempre, como The Scarlet Letter (1995) e Striptease (1996). Este segundo — uma comédia onde uma mulher é forçada a tornar-se stripper para recuperar a custódia da filha — foi particularmente danoso para a sua reputação, não só por contribuir para a perceção de que conseguia papéis através apenas do seu corpo, como por ter exigido 12,5 milhões de dólares, a maior soma de sempre paga a uma atriz àquela data, para protagonizá-lo.

A escapatória à espiral negativa que a ia consumindo pareceu ser possível com G.I. Jane, um projeto audaz realizado por Ridley Scott, onde Moore se transformou numa mulher de cabelo rapado posta à prova para tentar entrar no corpo de Marines norte-americanos. Apesar de parecer um passo na direção certa, inclusive pela mensagem feminista que transmitia, o destino estava fadado para a atriz, e o filme foi outro fracasso. Em poucos anos, passara a significar veneno de bilheteira e a merecer má vontade generalizada. “Com Striptease, foi como se eu tivesse traído as mulheres, e com G.I. Jane, foi como se eu tivesse traído os homens”, recordaria em entrevista.

A partir de então, nunca mais voltaria ao nível de sucesso dessa década, participando no ocasional blockbuster (Charlie’s Angels: Full Throttle, 2003) ou integrando elencos alargados (Bobby, em 2006, ou Margin Call, em 2011), mas, acima de tudo, participando em projetos independentes de pouca dimensão. Apesar da sua carreira ter uma ressurgência nos últimos anos — ao ser escolhida por Ryan Murphy para a minissérie Feud: Capote vs. The Swans e por Taylor Sheridan para integrar o elenco principal da série Landman — Moore, talvez marcada pela dúvida de se nunca viria a ser mais do que uma “atriz de pipocas”, começou a sentir que talvez já não tivesse mais nada para dar. “Talvez eu estivesse completa. Talvez tivesse feito o que era suposto fazer”, admitiu no discurso acima citado, para depois completar “e quando estava num ponto baixo, apareceu na minha secretária um guião mágico, arrojado, corajoso, fora do comum e absolutamente louco chamado A Substância“.

Ao sofrimento responde-se com libertação

Um dos principais temas do filme de Coralie Fargeat não é apenas a forma como a indústria cinematográfica coloca prazos de validade sobre os seus integrantes, mas sim como eles assimilam esse pensamento como máxima e punem-se por não conseguir corresponder a expectativas irrealistas. “Não se trata do que nos é feito — é o que fazemos a nós próprios. É a violência que temos contra nós próprios. É a falta de amor e de auto-aceitação, sendo que, dentro da história, temos esta perspetiva masculina da mulher idealizada que eu sinto que nós, como mulheres, aceitámos”, afirmou.

A crueza com que Moore demonstra essa tendência autodestrutiva é um dos grandes destaques do filme, mas, infelizmente, também é o aspeto mais próximo ao seu próprio percurso. Frisando que pouco da sua vida pessoal é semelhante ao de Elizabeth Sparkle — personagem sem família ou amigos a quem recorrer quando o seu mundo desaba —, a atriz ainda assim mostrou sofreu situações semelhantes às do papel que encarna. “Posso olhar e dizer que não há nada que outra pessoa me tenha feito que seja pior do que aquilo que eu fiz a mim própria”, reconheceu ao NYT.

É provável que Moore só tenha chegado a uma fase sendo capaz de encarar um projeto tão duro quanto este filme após expurgar demónios de toda uma vida na sua autobiografia Inside Out. Foi aí onde revelou que os pais eram alcoólicos, que teve uma infância traumática e foi vítima de uma violação aos 15 anos, tudo isto gatilhos para o abuso de substâncias iniciado ainda durante a adolescência e que a obrigou a fazer reabilitação durante as filmagens de St. Elmo’s Fire, por ordem do realizador Joel Schumacher. Alguns destes temas eram de conhecimento público, assim como os problemas conjugais que teve com Bruce Willis e, principalmente, Ashton Kutcher, a quem aponta a responsabilidade de tê-la feito ter uma recaída.

No entanto, aquilo que o livro mostrou de forma mais surpreendente e elucidativa é como Moore — não obstante a nudez, as capas de revista risqué e a forma física aparentemente invejável que sempre manteve — teve inúmeros problemas com o seu corpo, forçando-se a períodos de exercício físico extenuante e de privação alimentar. Às vezes por influência de realizadores sem escrúpulos que lhe diziam que estava demasiado gorda ou magra, mas na sua maioria causados pelos distúrbios alimentares que veio a desenvolver. Em Striptease, por exemplo, emagreceu tanto que o leite materno que continha não tinha gordura suficiente para o bebé.

“Uma das maiores ideias erradas sobre mim é que eu adorava o meu corpo. A realidade é que, em grande parte, era eu que queria certos projectos que me dessem a oportunidade de me ajudar a ultrapassar inseguranças em relação ao meu corpo. Aconteceu o mesmo com as capas da Vanity Fair; não é que eu as adorasse — tratava-se de tentar libertar-me do espaço de escravatura em que me tinha colocado”, revelou à Variety.

Foi com essa empatia pela personagem de Elizabeth Sparkle que Moore falou com Fargeat mais de seis ocasiões antes de ficar com o papel, oferecendo-lhe o seu livro para que a realizadora francesa percebesse que Moore entendia o conceito. “Dei-lhe o livro como uma forma de ela me conhecer — a minha experiência com o meu corpo e o valor que lhe dava. A tortura pessoal a que me submeti. Tudo isso pareceu-lhe muito importante. Ela sabia que eu compreendia realmente quem era a personagem”, continuou ao jornal britânico.

A sintonia entre as duas — e Margaret Qualley, com quem Moore contracena sendo a versão mais nova da sua personagem — significou que a nudez crua, em nada lisonjeira, a que foi exposta durante a gravação do filme deixou-a desconfortável, mas libertou-a de pressões. “Uma vez que pões tudo cá fora, o que mais há? Não há nada a esconder. Ser capaz de me deixar ir foi outro nível de libertação para mim”, atira.

Depois de décadas tempestuosas, chegaram os tempos de bonança, ainda que Moore não queira embandeirar em arco quanto ao que esta jornada significa. “Aconteça o que acontecer, quero concentrar-me apenas em lembrar-me de não fazer com que isto signifique demasiado, mas também de não fazer com que signifique muito pouco”, disse. “Quero, sim, desfrutar de tudo isso.”

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