Depois da pressão pública para que André deixasse o Royal Lodge, a mansão em que vive há duas décadas dentro da propriedade da realeza em Windsor que é um edifício da coroa financiado pelos contribuintes britânicos, o Rei Carlos III anunciou na passada quinta-feira que já deu a notificação formal para a rescisão do contrato de arrendamento. Apesar do comunicado do Palácio de Buckingham especificar apenas que o filho de Isabel II deve mudar-se para uma “acomodação privada alternativa”, a imprensa britânica, incluindo a BBC, avançam que a decisão foi por Sandringham, a propriedade privada da realeza em Norfolk, a 190 quilómetros de Windsor. Sarah Ferguson não vai morar com o ex-marido e terá recusado ajuda financeira da realeza.
Os detalhes sobre os próximos passos ainda permanecem pouco claros, mas especialistas em realeza dizem à imprensa britânica que a escolha tem um motivo e que a mudança deve demorar pelo menos três meses para evitar a presença polémica de André no tradicional Natal em família na propriedade, que é o refúgio privado da realeza há mais de 160 anos.
Porquê Sandringham?
Antes do anúncio do Palácio de Buckingham, a imprensa britânica especulava que André poderia deixar o Royal Lodge rumo a Frogmore Cottage, que é uma casa menor e dentro da área de segurança da realeza em Windsor. Porém, esta opção continuaria a ser uma propriedade do Estado, financiada pelos contribuintes, além de permanecer muito perto do núcleo central da família real. Por isso, levar o antigo príncipe para Sandringham significa retirá-lo das atenções públicas e de um edifício público, explicam especialistas em realeza, como o correspondente da BBC Sean Coughlan.
As novas acomodações de André em Sandringham devem ser financiadas pelo Rei, mas ainda não se sabe exatamente onde o irmão de Carlos vai viver. A propriedade privada em Norfolk tem aproximadamente 6.500 hectares de terras agrícolas e 1.400 de floresta, com cerca de 150 residências familiares. O The Guardian avança com quatro possibilidades: a York Cottage, uma casa que terá sido atribuída aos duques de Sussex antes destes deixarem a realeza em 2020; a Gardens House ou a The Folly, que já estiveram anunciadas como casas de férias; ou ainda a Park House, onde Diana nasceu e viveu os seus primeiros anos, que foi uma casa de repouso durante anos e está atualmente desocupada.
▲ A Rainha em fevereiro de 2022, quando assinalou o início das celebrações do jubileu de platina em Sandringham
Buckingham Palace via Getty Imag
Quando será a mudança?
Carlos III afirma já ter denunciado o contrato firmado em 2003 que tinha validade até 2078, e que permitiu que André e a ex-mulher, Sarah Ferguson, vivessem na propriedade sob o valor simbólico anual de “um grão de pimenta”, o que significa que não pagavam renda há duas décadas. Na altura o então príncipe pagou pelas obras de remodelação cerca de 8,6 milhões de euros e ainda um valor de 1,1 milhão em rendas adiantadas. O contrato tinha também uma cláusula com uma espécie de “garantia” válida até 2028, pelo que se saísse antes André teria mais de 500 mil euros a receber. Ainda não ficou claro se a “indemnização” será paga.
Já a mudança, entretanto, deve ficar para o final de janeiro, de acordo com fontes ouvidas pela imprensa britânica, incluindo o Independent. André deve sair do Royal Lodge “o mais breve possível e praticável”, dizem as fontes, mas o processo de rescisão do contrato ainda leva tempo. Os correspondentes de realeza acreditam que o atraso também ajude a evitar um encontro indesejado do antigo duque de Iorque com a família, que costuma reunir-se em Sandringham para o Natal. Em 2024 André já não participou nas celebrações, na altura devido ao seu alegado envolvimento com um espião chinês. De acordo com a correspondente Adina Campbell, da BBC, a “família real provavelmente vai evitar que André esteja nas fotografias de família”, apesar de, por ser irmão do Rei, “ainda ser possível” que venha a estar presente. “Acho que o Rei vai querer criar alguma distância”, remata.
▲ A família real no Natal de 2024 à saída da Igreja St Mary Magdalene. É onde os membros da realeza costumam cumprimentar os locais e ser fotografados durante a quadra festiva
AFP via Getty Images
O que a propriedade representa para a realeza britânica?
Sandringham foi comprada pela família em 1862 como uma propriedade rural para Eduardo VII, então príncipe de Gales, e a sua noiva, Alexandra da Dinamarca. A casa passou de geração em geração dentro da família, primeiro para o pai de Isabel II, George VI, depois para a Rainha e em 2022 foi herdada por Carlos III. Apesar de nenhum membro da realeza atualmente viver na propriedade, Sandringham tornou-se a residência preferida da família para o período do Natal.
Uma das tradições da quadra festiva é a transmissão da mensagem de Natal do monarca, iniciada em 1932 por George V. Em 1957 Isabel II fez a sua primeira emissão televisiva diretamente de Sandringham — a partir de 1959 a mensagem passou a ser gravada do Palácio de Buckingham e, posteriormente, a partir do Castelo de Windsor. Também foi nesta propriedade rural que o príncipe Philip passou a maior parte do seu tempo depois de se reformar do seu trabalho como membro sénior da realeza, em 2017. O então duque de Edimburgo ocupava com frequência uma casa chamada Wood Farm.
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Já a casa principal, está listada como um edifício de especial interesse e proteção estatal, uma classificação chamada Grade II. As características exatas da mansão nunca foram reveladas, mas acredita-se que possa ter pelo menos 29 quartos. De acordo com o site oficial de Sandringham, um salão de baile foi adicionado em 1880 e em 1975 uma grande reforma demoliu mais de 100 aposentos de serviço para eliminar mofo, economizar em aquecimento e aproximar a cozinha da sala de jantar. O Rei Eduardo VII abriu pela primeira vez os jardins de Sandringham para o público em 1908, e a partir de 1977, no jubileu de prata, Isabel II passou a permitir a visitação a oito divisões da casa. Entretanto, os espaços só estão abertos entre a primavera e o verão, fechando entre outubro e março, que é quando a família real costuma usar a propriedade para celebrar as festas de Natal.
▲ Algumas das divisões visitáveis da residência real em Sandringham incluem salas de estar e jantar
Simon Broadhead / sandringhamestate.co.uk
Mas a propriedade não se resume a uma mansão — é na verdade uma grande área com mais de 8 mil hectares onde vivem cerca de 200 famílias distribuídas em 13 pequenas vilas, compostas por diversos edifícios comerciais, agrícolas e residenciais, além de igrejas e locais de culto. As casas são destinadas, de preferência, a pessoas que trabalham na região, como jardineiros, agricultores e pessoal da manutenção. Há ainda oito agricultores a arrendar cerca de 4 mil hectares, enquanto várias empresas arrendam outras instalações e terrenos. A realeza também tem residências listadas como casas de férias — é o caso da Gardens House, que entrou no mercado em julho por um valor de 4.600 euros por semana, ou da The Folly, uma cabana de três quartos e duas casas de banho que foi anunciada no Airbnb em 2022. De acordo com o The Sun, Sandringham poderá valer mais de 68 milhões de euros.