O caso remonta ao verão de 2024, mas volta agora a agitar Israel. No final de julho desse ano, dez soldados do Exército israelita foram detidos, suspeitos de terem torturado e abusado sexualmente de um prisioneiro palestiniano na base militar de Sde Teiman, deixando-o em estado crítico. O caso gerou uma onda de indignação entre a extrema-direita israelita que acusou as autoridades judiciais de “perseguição” aos soldados e chegou a invadir a prisão em protesto.
Porém, dias depois de o caso ter sido tornado público, o canal israelita Channel 12 divulgou imagens, gravadas pelas câmaras de videovigilância de Sde Teiman, que parecem confirmar as acusações. Nas imagens, alguns soldados podem ser vistos a ocultar, com recurso a escudos, colegas que abusam em grupo de um prisioneiro. Esta sexta-feira, passado mais de um ano do caso, a advogada principal do Exército israelita apresentou a demissão. Na carta de demissão, admitiu ter sido ela a autorizar a divulgação das imagens à imprensa.
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“Eu aprovei a divulgação do material numa tentativa de contrariar a propaganda falsa contra os agentes de autoridade no Exército”, escreveu Yifat Tomer-Yerushalmi, citada pelos meios de comunicação israelitas. Em causa estava a oposição da extrema-direita à investigação judicial contra os soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF). Uma investigação publicada pelo jornal Haaretz na sequência da demissão revela que, ao longo dos dois anos de ofensiva militar na Faixa de Gaza, Tomer-Yerushalmi cedeu em várias ocasiões à opinião destes grupos mais extremistas, evitando investigar abusos de poder e acusações de crimes de guerra contra o Exército.
A sua demissão foi aceite pelo ministro da Defesa, que declarou que “qualquer pessoa que espalhe calúnias de sangue contra as tropas das IDF não é digna de usar o uniforme do Exército”. Porém, a procuradora-geral Gali Baharav-Miara procurou avançar com uma investigação à divulgação do vídeo. O objetivo recebeu a oposição do ministro da Justiça israelita, Yariv Levin, que, no sábado, enviou uma carta “com palavras fortes” à procuradora, procurando impedi-la de avançar com a investigação.
Levin deu a entender que Baharav-Miara tinha sido cúmplice de Tomer-Yerushalm na divulgação do vídeo e que impedira investigações para tentar perceber quem enviara as imagens de videovigilância à imprensa, relata o Times of Israel. Mais: o ministro disse ainda que a procuradora poderia vir a ser questionada no âmbito de um inquérito independente ao caso e que, por esse motivo, não poderia ser ela a conduzir a investigação. Este domingo, a procuradora acusou o ministro de tentar impedir “ilegalmente” os procedimentos do Ministério Público, acrescentando que não tinha autoridade para tomar essas medidas.
No seguimento da troca de acusações, o primeiro-ministro israelita também se pronunciou sobre o caso. O vídeo, disse Benjamin Netanyahu, causou “enormes danos na imagem pública do Estado de Israel e das IDF” e constituiu “o ataque de propaganda mais severo” na História do país. Nesse sentido, apoiou a ideia de uma investigação independente à forma como as imagens foram divulgadas. A procuradora já tinha entrado em confronto com o Governo anteriormente devido à sua ação em relação aos casos de corrupção em que Netanyahu está envolvido — o Executivo tentou mesmo, sem sucesso, a sua destituição.
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Depois da detenção dos dez soldados, em janeiro cinco foram acusados de terem abusado do prisioneiro palestiniano. Com os novos desenvolvimentos no caso, exigem agora que o julgamento, que classificam como um “julgamento-espetáculo”, seja anulado. Já o líder da oposição, Yair Lapid, considerou que a divulgação do vídeo é um “assunto sério que precisa de uma resposta”, mas condenou as ações alegadamente perpetradas pelos soldados. “Israel não se comporta assim. Somos um Estado de Direito e essa é a diferença entre nós e os nossos inimigos”, declarou à televisão estatal. Na verdade, esta não é a primeira vez que Sde Teiman é alvo de uma investigação — múltiplas organizações internacionais denunciaram, noutras ocasiões, violações de Direitos Humanos levadas a cabo na prisão.