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O Governo sul-africano considerou esta segunda-feira a chegada de um avião à África do Sul de 153 palestinianos, na quinta-feira passada, “suspeita” e reveladora de “uma intenção manifesta de expulsar os palestinianos de Gaza e da Cisjordânia”, noticiou o New York Times.

Entre os passageiros estava Ahmed Shehada, médico de 37 anos, que desembarcou em Joanesburgo com a mulher e dois filhos pequenos, no final de uma viagem de 24 horas marcada por incerteza, checkpoints militares e instruções pouco claras. Antes de embarcar, o contacto surgiu através de uma chamada telefónica: um homem que se apresentou como membro de uma organização humanitária afirmou garantir a saída da família de Gaza, desde que fosse feito um pagamento antecipado de 1.600 dólares por pessoa (cerca de 1.300 euros) para uma conta de criptomoedas.

Desconfiado, Shehada recusou inicialmente. Mas depois de saber que um amigo tinha conseguido escapar através do mesmo grupo num voo anterior, decidiu arriscar. “A situação em Gaza é tão terrível que seria arriscado demais” continuar lá, disse o médico.

A família passou por vários controlos israelitas antes de ser colocada num avião cujo destino final nunca lhes foi revelado. Só ao aterrar descobriram que tinham chegado, juntamente com mais de uma centena de palestinianos à África do Sul — um país onde nenhum deles tinha estado antes.

O grupo chegou ao país a bordo de um voo charter proveniente de Nairobi, Quénia, e os seus passaportes não exibiam qualquer carimbo de saída de Israel. “O Governo sul-africano suspeita das circunstâncias que envolvem a chegada deste avião”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ronald Lamola.

Segundo os passageiros palestinianos, o voo foi organizado por uma organização obscura chamada Al-Majd Europe. “Não queremos mais nenhum voo com destino ao nosso território, porque se tratará de um plano manifesto para expulsar os palestinianos de Gaza, da Cisjordânia e das zonas circundantes, ao que a África do Sul se opõe firmemente“, sublinhou Lamola, acrescentando que isto “parece fazer parte de um plano maior para deslocar os palestinianos da Palestina para diferentes regiões do mundo e é claramente uma operação coordenada”.

O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, anunciou, também, que o seu país pretende investigar as circunstâncias que envolvem a “chegada misteriosa” dos palestinianos ao aeroporto de Joanesburgo.

Os 153 homens, mulheres e crianças foram retidos pela polícia fronteiriça dentro da aeronave durante mais de 12 horas, porque os seus passaportes não tinham carimbo de saída de Israel. No entanto, o Ministério do Interior sul-africano (equivalente ao da Administração Interna português) acabou por autorizar a entrada dos passageiros no território, depois de receber garantias da organização não-governamental (ONG) sul-africana Gift of the Givers de que cuidaria deles e os alojaria.

A ONG indicou que os palestinianos que está a ajudar disseram que tinham pagado à Al-Majd cerca de 2.000 dólares por pessoa (cerca de 1.700 euros) pela viagem e que não sabiam que iriam para a África do Sul. “O que nos disseram foi que lhes foi prometida uma viagem para fora de Gaza, rumo a um local seguro num país que os acolheria”, afirmou Sarah Oosthuizen, representante da Gift of the Givers, citada pela agência de notícias francesa AFP. Alguns deles pensavam que iriam para a Indonésia, Malásia ou Índia.

Na sexta-feira, o Presidente sul-africano declarou que o seu país os acolheu “por compaixão” e que vai investigar “os motivos” deste voo. Dos 153 palestinianos que chegaram ao país, 130 entraram na África do Sul com um visto temporário de 90 dias, e os outros 23 decidiram apanhar voos de ligação para os destinos escolhidos.

O fundador da ONG Gift of the Givers, Imtiaz Sooliman, afirmou não saber quem tinha fretado a aeronave e revelou que um primeiro avião, transportando 176 palestinianos, aterrou em Joanesburgo a 28 de outubro em circunstâncias semelhantes, tendo alguns deles já deixado a África do Sul com destino a um país terceiro. Os viajantes do primeiro grupo “não tinham absolutamente nenhuma ideia de que vinham para a África do Sul”, indicou Oosthuizen. O segundo avião descolou do aeroporto de Eilat, no sul de Israel, em direção a Nairobi, onde os passageiros embarcaram então num voo fretado para Joanesburgo, acrescentou.

Verificou-se que o alojamento que lhes tinha sido prometido à chegada só estava reservado por uma semana e, “assim que se instalaram, o contacto com a Al-Majd foi interrompido”, segundo a representante da ONG. Quando a AFP em Jerusalém tentou contactar a Al-Majd, nenhum dos números listados no seu site da internet estava ativo.

As autoridades israelitas declararam este fim de semana que os 153 palestinianos foram autorizados a abandonar a Faixa de Gaza após terem recebido “aprovação de um país terceiro para os receber”, sem nomear o país em questão.

Ministra palestiniana adverte para o envolvimento de organização Al-Majd em voos “ilegais” que saem de Gaza

A ministra dos Negócios Estrangeiros palestiniana, Varsen Aghabekian Shahin, afirmou que os controversos voos que transportam palestinianos desde Gaza para a África do Sul, organizados pela organização Al-Majd, fazem parte de um processo ilegal de limpeza étnica.

Segundo a Al Jazeera, a ministra alertou os palestinianos para que não se envolvam com a organização ou outros grupos que procura removê-los da Faixa de Gaza. “Não se sabe o suficiente sobre esta organização, mas estamos a investigar e a obter várias fontes de informação sobre a ilegalidade do que estão a fazer”, disse.

“O que estão a fazer é, na verdade, deslocamento e parte do processo de limpeza étnica”, acusou, apelando ao envio de “mensagens muito fortes” para o povo da Faixa de Gaza “para que não tenham qualquer tipo de relação com a Al-Majd ou qualquer outra empresa que faça o mesmo tipo de trabalho”.