A Carris fez um contrato com um fornecedor externo para a avaliação dos trambolhos (peça especial fixada à estrutura inferior da cabina onde o cabo é amarrado) dos elevadores do Lavra e da Bica. A entidade escolhida é o Catim — Centro de Apoio Tecnológico à Indústria Metalomecânica com sede no Porto, de acordo com a publicação feita no portal base.

O contrato no valor de 34 mil euros foi adjudicado a 12 de novembro com um prazo de execução de 90 dias e é uma consequência do acidente no elevador da Glória do passado dia 3 de setembro que provocou 16 mortos e vários feridos graves. O relatório preliminar da investigação a este acidente, elaborado pelo GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Ferroviários), indicava que o cabo cedeu no ponto de fixação à cabina, numa localização que está fechada dentro do trambolho e que não era suscetível de inspeção visual sem abrir o dispositivo.

Elevador da Glória. Quatro momentos que levaram ao acidente e porque o mesmo resultou em tragédia

Desde o acidente da Glória que a Carris suspendeu a operação em todos os funiculares e elevadores sob sua responsabilidade e surgiram informações a apontar para a existência de um vazio legal ao nível da supervisão externa técnica e de segurança destes equipamentos.

A avaliação que foi contratada para a Bica e o Lavra incide sobre um vasto conjunto de componentes dos trambolhos que, para o efeito, serão transportados para as instalações do Catim no Porto. Entre as operações a efetuar por estes técnicos externos estão o acompanhamento da desmontagem dos trambolhos dos veículos (a ser feita pela Carris) e respetivo posicionamento do corte dos cabos e o transporte.

Caberá ao Catim a concretização de um exaustivo plano de inspeção e ensaio que envolva:

  • Inspeções visuais;
  • Abertura dos trambolhos (metodologia, preparação e concretização);
  • Identificação de partes/método do fabrico e comparação com as práticas recomendáveis;
  • Ensaios de tração a um exemplar do trambolho mais a ponta do cabo por cada instalação;
  • Ensaios de composição da liga de enchimento (usada na fundição que fixa o cabo ao dispositivo) e do aço dos trambolhos;
  • Caracterização geométrica e dimensional de partes dos trambolhos e cabos e comparação com especificações do projeto;
  • Outros ensaios considerados necessários;
  • Elaboração de procedimentos necessários para ensaios, validação, registo e análise de resultados para permitir rastrear e e tornar este processo objetivo.

Esta adjudicação foi aprovada pela administração da Carris a 29 de setembro quando ainda estava em plenas funções a equipa liderada por Pedro Bogas que se demitiu depois de ser conhecido o relatório do GPIAAF que apontava várias falhas à Carris que terão contribuído para o descarrilamento do elevador com consequências trágicas.

De acordo com informação avançada ao Observador por fonte oficial da Câmara Municipal de Lisboa, o Catim Projetos foi também escolhido para realizar a auditoria externa independente, na sequência da acidente no elevador da Glória. A mesma fonte não indicou valores nem datas para este trabalho estar concluído.

Questionada sobre estes dois contratos com o Catim (o referente à auditoria não consta do portal Base), a Carris não deu qualquer resposta.

Além da auditoria independente, houve um inquérito interno conduzido dentro da própria Carris, cujos resultados finais estarão a aguardar a nomeação de uma nova administração que ainda não foi anunciada. O pelouro da Carris e da mobilidade foram entregues a Gonçalo Reis no novo executivo camarário presidido por Carlos Moedas.

Na terça-feira, no âmbito da apresentação da proposta de orçamento municipal de Lisboa para 2026, o vice-presidente da câmara, Gonçalo Reis (PSD), que tem também o pelouro das Finanças, afirmou que a nova administração desta empresa municipal de transporte público na cidade vai ser formalizada nas próximas semanas. “A atual administração está em funções até ao final de dezembro e, portanto, vamos encontrar uma solução de transição”, referiu.

Nas respostas dadas ao Observador, a Câmara de Lisboa refere ainda que a comissão técnica independente, que nomeou após o acidente, ainda tem em curso, desde 26 de setembro, a avaliação das condições de funcionamento de todos os ascensores e funiculares da cidade.

À Agência Lusa, a autarquia de Lisboa acrescenta que “as vistorias técnicas e o estudo das condições do seu funcionamento em segurança estão em curso, pelo que após a conclusão dos relatórios técnicos será definido o calendário para a sua entrada em operação”. A Câmara de Lisboa não respondeu a parte das questões, inclusive sobre a criação de um fundo municipal de apoio às vítimas e sobre a avaliação quanto à externalização dos serviços de manutenção dos ascensores.

Já a Fidelidade, seguradora da Carris, afirmou, em resposta à Lusa, que “está, desde o primeiro momento, empenhada no apoio às vítimas e às suas famílias, assegurando o cumprimento de todo o processo de forma justa e humana”.

Seguro da Fidelidade com a Carris com capital de 50 milhões

“O capital do seguro da Fidelidade com a Carris é de 50 milhões de euros e, independentemente do tempo que o processo possa demorar, a Fidelidade vai continuar a apoiar as vítimas e as suas famílias durante todo o tempo que for necessário”, revelou fonte oficial da companhia de seguros, indicando que “continua a ser prematuro a identificação de um valor global” quanto à atribuição de apoios, inclusive indemnizações.

A Fidelidade apoiou o transporte de familiares, transladações e organização de serviços fúnebres, alojamentos e viagens de familiares das vítimas, tendo-se também disponibilizado para assumir os custos dos procedimentos que foram tratados diretamente pelas famílias, assim como outros tipos de despesas.

“Nos casos em que existam outros seguros contratualizados pelas vítimas, a Fidelidade tem asseguradas despesas que não estejam cobertas pelos mesmos”, referiu.

Em relação às 16 vítimas mortais, portuguesas e estrangeiras, a companhia de seguros garantiu que está em contacto com todos os familiares ou com os seus representantes legais, tendo solicitado os documentos necessários para o cálculo das indemnizações. Relativamente aos feridos identificados, “a Fidelidade está em contacto com 19 pessoas”, seja diretamente ou através de familiares e representantes legais, assegurando despesas de variada ordem.

A demora na conclusão do processo de indemnização das vítimas também está relacionada com o facto de ainda ser “necessário que a situação clínica dos feridos esteja estabilizada”, garantindo a Fidelidade o pagamento dos tratamentos necessários, para que depois seja possível calcular o valor a atribuir.

A seguradora explicou ainda que os valores de indemnização para as vítimas mortais são calculados de forma individual e tendo em conta fatores como a idade da vítima, os seus rendimentos ou situação familiar.