Jorge Pinto e António Filipe começaram por concordar num ponto: as suas candidaturas presidenciais justificam-se porque não existe um candidato da convergência à esquerda. Depois, demonstraram porque é que essa convergência não existe. O comunista começava por defender que a ideia de uma união à esquerda se “tornou imaginária” com a candidatura de António José Seguro, enquanto o deputado do Livre assegurava que esse “barco já zarpou”, afirmando que faz um “enormíssimo favor à esquerda” por se apresentar na corrida a Belém.

O comentário levou António Filipe a sublinhar as linhas que separam a sua esquerda da esquerda do adversário. O comunista afirmou-se da “esquerda sem mas nem meios mas”, no sentido contrário do seu adversário, que se definiu como vindo da “moderada e europeísta”. O antigo vice-presidente do Parlamento nem se mostrou certo de que Jorge Pinto se demarca daquilo que chama o “consenso neoliberal”, onde tem colocado Seguro, Gouveia e Melo e os candidatos de direita. “Tem dias”, atirou. Numa alfinetada à proximidade do seu adversário aos ideais europeus, António Filipe mostrou-se contra as “imposições do exterior”, dizendo não ser um “eurodependente”.

Abriu-se a porta para Jorge Pinto explorar o anti-europeísmo do comunista — que este rejeitou, assegurando ser contra a saída da UE. O deputado assinalou que, ao definir-se da “esquerda patriótica”, António Filipe estava a recorrer a um dos “mas” que tinha dito ser contra. E quis questionar o patriotismo do adversário: “Ser patriota em 2025 é ter uma voz no projeto europeu. Como vamos ser patriotas perante Vladimir Putin de um lado e Donald Trump do outro?” Jorge Pinto defendeu que os portugueses têm demonstrado que “acreditam” nesse projeto e que uma “voz autónoma” de Portugal no panorama internacional só existirá via UE.

No rebate, António Filipe criticou a união por ter uma política de “dois pesos e duas medidas” sobre as guerras na Ucrânia e na Palestina. Disse não ter “nada a ver” com Putin, Trump ou com Ursula Von der Leyen, assinalando que a família europeia do Livre se congratulou com a eleição da Presidente da Comissão Europeia para um segundo mandato. O comunista acusou ainda Jorge Pinto de não se demarcar do processo europeu de militarização e de ter ficado “muito tempo à espera de que a UE se decidisse” sobre o reconhecimento do Estado da Palestina.

Por sua vez, Jorge Pinto defendeu que “não estamos condenados” a ter uma UE que não possa evoluir nas suas posições e respondia à Palestina com a Ucrânia, encontrando uma “clivagem profunda” entre as posições dos dois sobre esta guerra. “Não faria piadas, como António Filipe fez, sobre levar Vladimir Putin ao Tribunal Penal Internacional”, disse numa referência a uma publicação do comunista nas redes sociais, denunciando que este se escudava atrás da ideia que a guerra é um assunto “complexo”. Para António Filipe, “existem mil e um responsáveis pela guerra na Ucrânia, menos a Rússia”, atirou.

O deputado continuou afirmando-se como um “pacifista”, mas o comunista interrompeu: “Não tem uma posição de pacifista.” Aliás, afirmou que Jorge Pinto “estendeu a passadeira vermelha” a Volodymyr Zelensky. “Talvez se arrependa daqui a uns tempos”, notou António Filipe. O candidato presidencial apoiado pelo PCP disse então ser “tão crítico de Putin como de Zelensky, claramente” e invocou o Papa Francisco e Lula da Silva para pedir à UE esforços para a paz na Ucrânia.

Questionado sobre a utilização de ativos russos de ativos russos congelados, António Filipe começava a demonstrar que queria deixar o tema da política internacional. “A UE não se entende, eu é que tenho de estar agora a ter uma posição sobre isso? Ora essa!”. Acabaria por poder falar sobre a reforma laboral proposta pelo Governo, mostrando-se confiante de que a “luta dos trabalhadores” vai derrotá-la antes de chegar a Belém. Ainda assim, não deixa de antecipar uma posição como Presidente da República. “Usaria o meu peso político para impedir procurar normas lesivas dos direitos dos trabalhadores”, através do veto político, explicou.

Além disso, António Filipe voltou a levantar dúvidas sobre se Jorge Pinto pertence, ou não, ao tal “consenso neoliberal”. O deputado do Livre considerou essa posição “estranha”, visto ter sido “das primeiríssimas pessoas a falar” da anteproposta laboral do Governo, disse. Jorge Pinto recuperava a discussão sobre a UE para dizer que o seu adversário “só olha para as coisas más” na aliança europeia e afirmou querer, num esforço europeu comum, uma “mudança no modelo económico” com uma maior aposta em ciência, inovação para promover maiores salários. “Eu não sou euro-seguidista”, declarou Jorge Pinto. “Olhe que parece”, respondeu António Filipe.

O diálogo mais revelador

António Filipe — Eu não sou eurodependente. Não tenho nada a ver com Vladimir Putin, nem com Donald Trump, nem com Ursula Von der Leyen. Não segui a posição do Livre de se congratular com a eleição de Von der Leyen.

Jorge Pinto — Leu a declaração de voto, imagino.

AF — Que valores são esses da UE? São dois pesos e duas medidas em relação à Ucrânia e à Palestina? A UE que no seu todo se recusa a reconhecer o Estado da Palestina?

JP — E quando é que Portugal o fez?

AF — Muito tarde.

JP — Aí está. Não foi pela posição de Bruxelas, certamente.

AF — O senhor ficou muito tempo à espera de que a UE se decidisse, dizendo que era preciso haver uma posição europeia…

JP — Ai não fiquei não. Eram outros países europeus, estava a confundir.

AF — A UE tem tido uma duplicidade de critérios e alinhado com o Estado de Israel. São esses os valores europeus que defende. A UE foi a posição da troika… (…). Considera que a UE deve militar-se e defende um exército europeu.

JP — Duplicidade de critérios? Vamos a isso. Eu falo por mim. Não acho que estejamos condenados a viver num projeto que não pode ser alterado. Não sou derrotista. Ontem passaram 50 anos da invasão de Timor-Leste, até sei que estará ao meu lado. Na Gaza, no Saara Ocidental. O que me surpreende é que não esteja ao meu lado na Ucrânia, onde também há um agressor e um invadido. (…)

AF — Há uma diferença grande entre nós: a minha posição é nem Putin nem Zelensky. Se não quisermos compreender a complexidade, fazemos uma narrativa. (…) Estende uma passadeira vermelha a Zelensky, talvez se arrependa daqui a uns tempos.