Uma revelação que já está a causar ondas de choque. Uma investigação que se prolongou durante nove anos expõe a proteção que os serviços secretos britânicos asseguraram a um agente de topo do IRA — o grupo separatista Exército Revolucionário da Irlanda — e que permitiu que este pudesse cometer homicídios sem chegar depois a ser investigado por isso.

No relatório da Operação Kenova, conduzido pela polícia britânica e com resultados divulgados esta terça-feira, fica claro que Freddie Scappaticci, ou “Faca de Caça”, um informador dos serviços do MI5, foi levado para umas “férias” para fora da Irlanda do Norte por duas ocasiões, quando a polícia estava à sua procura para o questionar por suspeitas de homicídio.

Segundo o The Guardian, o MI5 ajudou o agente duplo — que terá “custado mais vidas do que as que salvou” — a fugir à justiça, graças a um “sentido perverso de lealdade”.

A BBC acrescenta que, apesar de ter dito no passado que teve um papel “periférico” nos contactos com o agente duplo, o MI5 esteve na verdade “envolvido de perto” com o agente, era informado regularmente das suas atividades e tinha acesso a toda a informação que este transmitia, tendo Scappaticci sido ligado a pelo menos 14 homicídios.

O relatório acusa também os serviços secretos britânicos de uma “séria falha organizacional” por só no ano passado terem aceitado entregar à investigação documentos que tinham a ver com o papel deste agente, possivelmente por quererem “esconder a verdade”.

A grande investigação de quase uma década custou 47 milhões de libras (quase 54 milhões de euros) e debruça-se em boa parte sobre o papel de Scappaticci, que morreu em 2023, aos 77 anos. Como também conta o Guardian, o filho de imigrantes italianos juntou-se à primeira formação do IRA em 1969 mas foi oferecer os seus serviços como “toupeira” aos serviços secretos britânicos a meio dos anos 1970.

Depois disso, foi subindo pela hierarquia do IRA e liderou uma unidade que tratava precisamente de caçar e matar elementos que fossem suspeitos de serem informadores. Em 2003, a sua identidade foi revelada mas conseguiu entrar num programa de proteção de testemunhas.

Segundo o relatório, Scappaticci era conhecido pelos agentes do MI5 que contactavam com ele como uma “galinha dos ovos de ouro” pela quantidade de informação que entregou e que ajudou a salvar vidas. Mas a Operação Kenova concluiu que esses números não chegam “nem de perto” às centenas que os serviços secretos diziam que teriam sido salvos.

Em comunicado, o diretor geral do MI5, Ken McCallum, veio garantir que pediu desculpa e revelou que pediu também uma avaliação independente à demora na entrega da documentação e que esta terá concluído que o material não foi “retido deliberadamente”, mas feito recomendações para que o MI5 melhore estes processos no futuro.