Os impactos da greve geral já eram esperados, em escala, nos transportes, nas escolas, na saúde. Ao longo do dia, os sindicatos foram assumindo uma grande adesão. O PCP sentenciou cedo que era uma greve histórica. A CGTP e a UGT assumiram também que os trabalhadores tinham dado um cartão vermelho à proposta de alteração da lei laboral do Governo.
O dia da greve geral começou na Autoeuropa para mostrar que a grande exportadora de Portugal tinha parado. Essa foi a indicação sindical, ainda que a CIP, ao longo do dia, tenha garantido que “não há empresas paradas no país”. A associação de metalúrgicos disse ainda que “não houve qualquer adesão à paralisação em mais de 95% das empresas do Metal Portugal. Inclusivamente, pode sublinhar-se que o número de empresas sem adesões foi até superior ao habitual em greves anteriores”.
Em vários pontos de situação ao longo do dia a CGTP ia dando conta de taxas de adesão de 100% ou 90% em vários casos. Muitas escolas, serviços das câmaras municipais, transportes. Os serviços mínimos terão sido cumpridos. Tiago Oliveira, líder da CGTP, contabilizou em cerca de 3 milhões os trabalhadores que terão aderido à greve. Algo que a CIP contesta. À CNN Portugal, Armindo Monteiro indica que os trabalhadores no privado serão 4,6 milhões e nas contas da associação patronal a média de adesão terá sido de 3%. Há dois casos, disse sem identificar, de adesão a 10%, nalguns casos houve 5%, o que determina uma média de 3%. Na banca, indicou ainda, a média de adesão foi de 2,5%.
Mário Mourão, secretário-geral da UGT, indicou logo no início da manhã esperar adesões entre 55% e 80% e depois ao longo do dia foi informando sobre uma massiva adesão. À CNN Portugal indicou adesões elevadas na Auchan em Setúbal, ou na Alvorada ou nos TST. “Pela primeira vez fecharam-se balcões de instituições de crédito, do Novo Banco, BCP, Caixa Agrícola, CGD”.
Nesta guerra de números, Armindo Monteiro remete para o final do mês o veredicto final. “No privado não jogamos com números. Nós pagamos salários”. E, por isso, à declaração de que “as lojas estavam abertas, bombas de gasolina estavam abertas, não faltou gasolina”, vai dizendo que no final do mês quando processar salários saberá quantos trabalhadores aderiram à greve, uma falta justificada, sem pagamento de salário.
O Governo, das três vezes que falou — duas por Leitão Amaro, uma por Luís Montenegro (uma frase curta, ao lado da ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho) –, foi para dizer que a “esmagadora maioria do país escolheu trabalhar”. “E nós estamos a trabalhar também”, disse o primeiro-ministro. “Não vale a pena empolar números ou tentar construir realidades alternativas”, declarou Leitão Amaro, tendo referido numa intervenção anterior que há dois dados para demonstrar que não houve um impacto assim tão grande — a passagem de carros nas pontes sobre o Tejo no percurso sul-norte caiu 5% e as transações da SIBS caíram 7%. A SIBS não confirmou os valores, recusando-se a dar dados. Já a Lusoponte, segundo noticiou o Observador, revela que o tráfego rodoviário nas pontes sobre o Tejo no sentido sul-norte caiu 4,5% no período da manhã, face ao mesmo movimento registado na mesmo dia do ano passado. Quando comparado com os da quinta-feira da semana passada, o tráfego foi equivalente. As duas semanas foram marcadas por um feriado à segunda-feira, mas esta semana tem também a greve geral.
Leitão Amaro ainda considerou que “a minoria protesta, uma maioria trabalha, mas um número expressivo é perturbado”, que suscitou a contestação de sindicatos, mas também da esquerda e de vários candidatos presidenciais quando disse que a adesão era inexpressiva.
E é por isso que Mário Mourão diz que “quem começou a manipular [os números] foi o governo”.
Ainda assim várias foram as vozes ao longo do dia a apelarem ao Governo que recue no seu anteprojeto de alteração às leis laborais e que se volte a sentar à mesa das negociações na concertação social. E André Ventura, já no final do dia, no debate no qual enfrentou Jorge Pinto, acabou a traçar algumas linhas vermelhas para poder aprovar uma proposta no Parlamento. O Governo foi, em vários quadrantes, acusado de falta de humildade e de falta de bom senso. “O Governo colocou-se numa trincheira em qualquer tipo de discussão do pacote laboral”, considerou Tiago Oliveira. E, por isso, para UGT e CGTP não há outra alternativa se não voltar atrás. “É um ato de inteligência e liderança saber dar um passo atrás para depois dar dois à frente, ou seja, não será visto como uma fraqueza, mas um sinal de prudência e liderança. Os trabalhadores deram o seu sinal, o povo português já exprimiu o que pensa sobre este projeto de alteração”, diz Hélder Santinhos, do SPAC.
As duas centrais sindicais que se juntaram numa mesma greve 12 anos depois voltam a unir-se no chumbo do anteprojeto do Governo. E, contra ele, prometem lutar até ao fim. Mário Mourão sentenciou: esta greve “é um começo”, “o começo de uma nova negociação ou o começo de uma longa luta provocada por uma proposta que já hoje está a trazer conflito social no seio das empresas”.