“As greves de natal podem ser a peça de jenga que falta para a torre colapsar” — foi assim que esta sexta-feira o secretário de Estado da Saúde do Reino Unido, Wes Streeting, apelou aos médicos para que aceitassem uma última proposta de salário feita pelo governo britânico, a fim de travar uma greve agendada para 17 a 22 de dezembro. A Associação Médica Britânica (British Medical Association) anunciou que continua a analisar as últimas propostas do governo para decidir se recua ou não na sua decisão de parar durante cinco dias. “Toda a equipa do NHS está a trabalhar sem parar para manter tudo a funcionar. Mas é uma situação incrivelmente precária”, acrescentou.

As preocupações de Streeting para um sistema de saúde em risco de colapso têm origem na atual vaga de gripe. O vírus está a causar impacto no Reino Unido, tal como em outros países europeus, causando constrangimentos no atendimento de doentes urgentes no Sistema Nacional de Saúde britânico (NHS – National Health Service). Por esta altura, já se bateu o recorde de casos e doentes acamados para esta altura do ano, contam os números do NHS England.

Os dados adiantados pela NHS em novembro —mês em que o pico de casos está, tendencialmente, longe de ser alcançado —, mostram atrasos nos tempos de espera de ambulâncias, face à meta de tempo de atendimento estabelecido pela instituição.

Em urgências de categoria 1 (mais urgente), cuja meta de tempo de espera está nos sete minutos, o tempo ultrapassa os oito minutos. Em urgências como AVC ou ataques cardíacos (categoria 2), em que a meta se fixa nos 18 minutos, o atraso é de quase 15 minutos. Para urgências menos prioritárias, a média de tempos é de cerca de 2 horas e 2 minutos.

No que toca à disponibilidade de camas na primeira semana de dezembro, citada pelo mesmo meio, apesar da subida em relação a 2022, 2023 e 2024, a média deste ano de 5,7% de camas disponíveis diariamente fica aquém da meta de cerca de 8% estabelecida pelo NHS, que não é batida desde 2020, em que a disponibilidade diária de camas no período homólogo fixou-se nos 12,7%. Tem sido, ainda assim, suficiente para acautelar as necessidades dos últimos anos. Mas será suficiente para uma subida abrupta de casos e para um “inverno recorde”?

“Mais uma vez, este inverno os enfermeiros estão destinados a falhar e os doentes estão destinados a sofrer”, disse à Sky News Nicola Ranger, diretora da Escola Real de Enfermeiros. “Com o pico ainda por chegar e os cuidados prestados nos corredores já a serem uma prática comum em todo o Serviço Nacional de Saúde, os profissionais de enfermagem estão profundamente preocupados com a forma como irão manter a segurança e a dignidade dos doentes. É evidente que tratar as pessoas em áreas inseguras e não clínicas, como corredores, armários de arrumação e escritórios, não é uma resposta aceitável. Os ministros têm de agir para proteger os doentes neste inverno”, acrescentou.

Igualmente à Sky News, a diretora nacional do NHS, Meghana Pandit, alertou que “o staff está a ser levado ao limite” para conseguir continuar a providenciar cuidados e tratamentos aos doentes e assumiu que o número de casos para esta altura do ano está “extremamente alto”. Uma opinião secundada pelo diretor médico nacional para urgências e tratamentos emergentes, Julian Redhead, que conta que este ano o número de casos está “incrivelmente alto, com o NHS a enfrentar uma onda gripal sem precedentes”. O responsável deixa também um alerta: “Ainda não há um pico [de casos] à vista”.

Os números da NHS England confirmam o alerta de Redhead e sugerem o cenário de “inverno recorde”: a 7 de dezembro deste ano, o número registado de doentes com gripe hospitalizados foi de 2.889. No mesmo dia do ano anterior, foi de 2.127 — à data, o valor mais alto dos últimos 4 anos no período homólogo. Em 2023, 446 — o valor mais baixo dos últimos quatro anos, nesta altura do ano.

Citado pela mesma fonte, Chris Streather, diretor médico regional do NHS em Londres, diz que esta onda gripal é a pior que a capital britânica já viu desde o Covid-19. Streather alerta ainda para quase o triplo de pessoas hospitalizadas em Londres e para a necessidade de um “regresso aos dias” da pandemia no que toca a desinfeção das mãos.

De acordo com a Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido, morreram 7.757 pessoas no último inverno no Reino Unido, devido à gripe — mais do dobro do que no inverno anterior (3.555).