Depois dos vários casos de suspeitas de corrupção que abalaram nos últimos anos a estabilidade do Governo do PSOE liderado por Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol enfrenta agora um ‘MeToo’ dentro do próprio partido pela falta de resposta num caso de assédio sexual que envolveu o antigo ‘braço direito’ Francisco Salazar. Numa conferência de imprensa realizada esta segunda-feira, destinada a fazer o balanço deste ano de governação, o líder do Governo espanhol afastou o cenário de eleições antecipadas e reiterou o seu compromisso contra qualquer assédio ou abuso.
“A firmeza contra o assédio e o abuso tem as iniciais do PSOE“, atirou Sánchez, logo no arranque da sua intervenção, na Moncloa, em Madrid, continuando: “O compromisso do Governo de coligação e, em particular, do PSOE com o feminismo é absoluto”. Em causa estão as notícias reveladas este mês sobre uma polémica nascida… em julho. No verão, o jornal Diario.es divulgou as denúncias de um clima de assédio sexual criado por Francisco Salazar sobre funcionárias que trabalharam consigo num período em que Salazar era adjunto do chefe de gabinete do primeiro-ministro.
El compromiso del Gobierno de España y del @PSOE con el feminismo es absoluto.
Somos la primera organización política que ha decidido afrontar el problema del acoso y los abusos con toda transparencia y contundencia, animando y protegiendo toda denuncia. pic.twitter.com/mAJ1ZqsNba
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) December 15, 2025
Segundo uma funcionária que falou com o jornal, o antigo colaborador de Pedro Sánchez efetuava comentários obscenos sobre a roupa e o corpo, enviava mensagens com convites para jantares a sós fora do horário de trabalho acompanhados da sugestão para passarem a noite e usava uma linguagem sexualizada em contexto profissional. Juntou-lhe ainda um relato semelhante de outra funcionária, por via indireta.
O caso então divulgado travou a nomeação de Salazar para um alto cargo na estrutura do PSOE, por indicação de Sánchez, mas foi a falta de ação perante as denúncias que veio agitar a atualidade política. Passado quase meio ano, soube-se que o PSOE não tinha contactado as vítimas, apesar de terem sido usados os canais internos de denúncia.
O primeiro-ministro quebrou o silêncio na semana passada para lamentar a situação, mas sem deixar de negar qualquer “conivência” ou encobrimento da situação. Hoje, assumiu erros, porém também frisou que aceita “zero lições” da direita e da extrema-direita na defesa das mulheres.
“Cometemos erros, como todos”, declarou, defendendo, porém, que “todos os avanços” que tem havido em Espanha na luta pela igualdade e contra a violência contra as mulheres ocorreram quando os socialistas estiveram no poder. “Somos a primeira organização política que decidiu enfrentar o problema do assédio e dos abusos com firmeza absoluta, incentivando e protegendo todas as denúncias”, continuou.
Cero lecciones de quienes sueltan proclamas de ejemplaridad desde una sede pagada con dinero negro.
La corrupción sistémica acabó con la salida del PP del Gobierno de España.
Hoy, se actúa con contundencia mientras que el Partido Popular convive con esa corrupción. pic.twitter.com/1NL5wbSUyp
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) December 15, 2025
Entre o ataque da oposição e as fissuras entre os aliados políticos
Ao longo das últimas duas semanas, a oposição ao Governo liderado por Pedro Sánchez tem endurecido o discurso e o tom das críticas do PP e do Vox assinala uma aparente “hipocrisia” entre as palavras do primeiro-ministro e a sua prática política, já que Salazar esteve seis anos no Palácio da Moncloa ao serviço de Sánchez e foi sempre um colaborador próximo no seio do partido.
“Dizer que alguém é feminista porque é socialista é sarcasmo“, afirmou o presidente do PP, Alberto Núñez Feijóo, considerando que a permanência de Salazar em Moncloa atesta “o duplo padrão na defesa das mulheres por parte do PSOE”. Por sua vez, Pepa Millán, porta-voz do partido de extrema-direita Vox (liderado por Santiago Abascal), criticou a existência no governo espanhol de “pessoas que desprezam as mulheres” e reiterou a ideia de ‘fim da linha’ para o PSOE e Sánchez: “Se não são capazes de colocar ordem no seu próprio partido, também não serão capazes de colocá-la em Espanha”.
No entanto, a tensão pela sucessão de casos já abriu fissuras no seio dos seus aliados políticos, como o Sumar, liderado por Yolanda Diaz, a atual segunda vice-primeira-ministra e ministra do Trabalho e da Economia Social, que reclamou uma remodelação profunda do Governo. “Chega de reflexões, mudanças e reformas cosméticas. Há um ponto e uma nova etapa, e é hora de agir”, disse Yolanda Diaz na última sexta-feira, reforçando: “O que está a acontecer é muito grave, não estamos no mês de julho. O Governo precisa ser reformulado”.
Já esta segunda-feira, depois das declarações de Sánchez na conferência de imprensa, o porta-voz do Sumar e ministro da Cultura, Ernest Urtasun, rotulou como “insuficientes” as explicações de Sánchez e avisou para o risco de agravarem a situação política. “A imobilidade perante esta situação não é uma opção, é o principal aliado do PP e do Vox para chegar ao Governo“, salientou Urtasun.
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Em paralelo, também o ERC (Esquerda Republicana da Catalunha) exigiu “factos e compromissos claros” — estando prevista uma reunião do líder Oriol Junqueras com o primeiro-ministro —, enquanto os nacionalistas bascos do PNV foram mais contundentes e sinalizaram que ou Sánchez trava a “hemorragia de escândalos” ou então deve dar-se o passo para novas eleições.
A pressão sobre o primeiro-ministro agudizou-se ainda mais nos últimos dias quando surgiram notícias de que outro colaborador próximo — neste caso, Antonio Hernández — teria tido uma atitude de encobrimento deste caso de Francisco Salazar, de 57 anos, e que também estaria implicado nas denúncias. A todos os recados, Pedro Sánchez deixou uma só mensagem de força e de continuidade da legislatura até 2027.
“Sentimo-nos cheios de energia e daremos o nosso melhor na segunda parte da legislatura. Devemos continuar a avançar para uma economia mais justa, mais produtiva e mais humana, neutralizando a emergência climática e defendendo o Estado de bem-estar social daqueles que querem vendê-lo ou cortá-lo, como vemos nas comunidades autónomas governadas pelo PP com o apoio do Vox, e proteger a democracia e a ordem multilateral dos xenófobos, isolacionistas e autocratas”, disse, finalizando: “Se tivermos de aturar lama para o fazer, fá-lo-emos“.
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Em relação às suspeitas de corrupção que envolvem diversos ex-dirigentes do PSOE — como os casos em torno de José Luis Abalos, Santos Cerdán ou Koldo Garcia, entre outros — reiterou que o partido agiu “com contundência e não com conivência”, afastando de imediato os visados, ao contrário do que aconteceu no passado com governos do Partido Popular (PP, direita).
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Pedro Sánchez sublinhou que, também ao contrário do que aconteceu nos governos do PP, não estão agora em causa suspeitas de “corrupção sistémica” nas estruturas do Estado ou para financiamento ilegal de um partido.
O primeiro-ministro espanhol reconheceu a dificuldade de governar com um parlamento muito fragmentado – foi reinvestido por uma ‘geringonça’ de oito partidos e ainda não conseguiu aprovar um Orçamento do Estado na atual legislatura – mas sublinhou que foi essa a vontade expressa democraticamente pelos espanhóis nas eleições de 2023 e que aquilo que o executivo tem de fazer é negociar e dialogar permanentemente para aprovar as medidas que propõe.
Para Sánchez, os resultados “não são maus”, pelo contrário, “dão aval a esta política de diálogo”, referindo, entre outros, os dados positivos da economia e do mercado de trabalho em Espanha.