Do papel importante na política, passando pelos bastidores das cortes, os romances e os escândalos, a realeza sempre atraiu grande curiosidade. E 2025 foi um ano em cheio para se publicar um livro sobre este tema. Que o diga Andrew Lownie, que parecia antecipar a queda do ex-príncipe André quando em agosto, dois meses antes do irmão de Carlos III perder os seus títulos, publicou Entitled: The Rise and Fall of the House of York, que vai ao detalhe de cada polémica que o fez cair em desgraça. Foi também o ano certo para o rei emérito Juan Carlos I publicar as suas memórias, com as suas opiniões controversas sobre Francisco Franco, enquanto em Espanha comemoravam-se 50 anos do regresso da monarquia e do fim do regime ditatorial.
Para os que preferem uma leitura mais leve, sugerimos dois romances históricos que retratam Pedro V e Estefânia, os Reis que ocuparam por pouco tempo o trono de Portugal e morreram jovens, com uma história cheia de mistérios. Isabel Stilwell dá o lado da Rainha Virgem, enquanto Isabel Machado explora o sucesso do Bem Amado. A lista ainda tem as biografias de Amélia de Leuchtenberg, que foi Imperatriz do Brasil e duquesa de Bragança; Luís Filipe de Bragança, o príncipe criado para ser rei, mas que morreu no regicídio aos 20 anos; e do Rei José I, cujo reinado foi ofuscado por Marquês de Pombal. Incluímos também opções de leitura que desvendam o contexto de uma época, como As Cleópatras, que explora a história não contada sobre as rainhas do Egito, ou A Corte das Mulheres, um mergulho nos bastidores de um mundo pouco conhecido. E se preferir imagens, será lançada brevemente uma fotobiografia do duque de Bragança. Veja a lista a seguir.
A Corte das Mulheres
André Canhoto Costa
Quetzal, 17,91 euros
O historiador e romancista aborda a história da corte portuguesa entre finais do século XV e boa parte do século XVI, centrada no papel de mulheres leitoras, poetisas e intelectuais na vida da monarquia, como o de Francisca de Aragão, Joana Vaz ou Luísa Sigeia, que representavam a nata de uma nova cultura portuguesa vanguardista, constituída à volta de figuras como Leonor de Áustria — a mulher de D. Manuel I —, a sua filha Infanta D. Maria ou Joana de Áustria, mãe de D. Sebastião. “Há claramente um interesse de emancipação feminina que é distintivo”, disse André Canhoto Costa ao Observador, na altura do lançamento da obra, em junho.
As Cleópatras – As Rainhas esquecidas do Egito
Lloyd Llewellyn-Jones
Betrtand, 17,76 euros
O professor de História Antiga na Universidade de Cardiff traz a história das sete mulheres que assumiram o nome e o título de Cleópatra, governando o Egito helenístico antes da conquista romana. Movidas pela força da dinastia ptolemaica, a família macedónia que governou o Egito depois de Alexandre, o Grande, e imitando as práticas dos deuses, as Cleópatras casaram-se com os seus irmãos e dominaram o mundo habitualmente masculino da política e da guerra, mostrando que a figura mais famosa é apenas a última de uma longa linhagem.
D. José – Na Sombra do Marquês de Pombal
Nuno Gonçalo Monteiro
Temas e Debates, 21,96 euros
A biografia de José I, recentemente revista por Nuno Gonçalo Monteiro, recorda o monarca português cujo reinado, entre 1750 e 1777, ficou muitas vezes ofuscado pelo poder do seu ministro, Marquês de Pombal. Embora associado a acontecimentos decisivos como o terramoto de 1755 e a posterior reconstrução de Lisboa, ou a expulsão dos Jesuítas e a repressão após o atentado à sua carruagem, José permaneceu uma figura reservada, permitindo que o ministro assumisse o protagonismo político. A obra traça um retrato do Rei e da complexa relação entre os dois, revelando ainda correspondências com a rainha consorte Mariana Vitória, pela primeira vez publicadas.
O Rei que não reinou – A breve vida de D. Luís Filipe de Bragança
Isabel Lencastre
Oficina do Livro, 15,92 euros
Outra biografia de uma figura da monarquia portuguesa pouco lembrada, Isabel Lencastre traça um perfil completo de D. Luís Filipe de Bragança, herdeiro ao trono português que nunca chegou a governar. O filho mais velho do rei D. Carlos foi assassinado com o pai em 1908, aos 20 anos, e viveu poucos minutos para além do então monarca, o que fez dele rei por aqueles breves momentos. “De D. Luís Filipe pouco ou nada se sabe. É uma figura apagada ou esquecida da história de Portugal”, disse a autora ao Observador, na altura do lançamento do livro, em setembro. A obra detalha as duas décadas de vida do príncipe, desde traços de personalidade, gostos e preferências, o contexto político e histórico até episódios do dia-a-dia da realeza, com base em correspondência, relatos de diários e registos da imprensa da época.
Amélia de Leuchtenberg – Imperatriz do Brasil, duquesa de Bragança
Cláudia Thomé Witte
By the Book, 21,20 euros
É uma das únicas biografias a retratar a vida de Amélia de Leuchtenberg, segunda mulher de Pedro IV, que foi Imperatriz consorte do Brasil e duquesa de Bragança. O livro abre com o relato surpreendente da pesquisadora Cláudia Thomé Witte, que participou na exumação do corpo da Imperatriz, em 2012, para revelar um estado de conservação impressionante. “Vê-se a unha, a sobrancelha, o pelinho na mão. Os dentes que ela ainda tinha… O cabelo castanho, com um ou outro fiozinho branco. Ela tinha 60 anos, tinha bem poucos fios de cabelo brancos ainda. É uma coisa muito impressionante, porque você tem realmente a pessoa ali na sua frente”, descreve a autora, que em março abriu as portas de casa ao Observador para revelar algumas das relíquias da coleção, iniciada há mais de 25 anos.
D. Pedro V – O Bem Amado
Isabel Machado
Manuscrito, 18,32 euros
Neste romance histórico, Isabel Machado aproveita o contexto político e social do século XIX para retratar a curta vida do monarca, os seus desafios e a forma como despertou esperanças. “Entregou a vida a um povo e o coração a uma só mulher”, diz a chamada de capa. O título, “O Bem Amado” traduz o carinho popular ao Rei, que morreu aos 24 anos, dois anos depois da mulher, a Rainha Estefânia, e também a promessa de modernização que caracterizou o seu reinado.
Estefânia – A Rainha Virgem
Isabel Stilwell
Planeta, 19,71 euros
A contar a mesma história, mas sob outra perspetiva, o romance histórico de Isabel Stilwell mergulha na figura da princesa alemã que se tornou Rainha, que tem uma história marcada por tragédias. Entretanto, a curiosidade que dá nome à obra trata-se de uma questão pessoal. Mais de um ano depois do casamento, terá morrido virgem, de acordo com o artigo que o investigador Ricardo Jorge publicou na revista A Medicina Contemporânea em 1909. “À medida que as falsas membranas se espalhavam pela vulva, os médicos examinaram-na e ficaram surpreendidos por encontrar o hímen intacto”, escreve o médico. Com base em cartas e documentos da época, a autora tenta explicar o que se passou entre o jovem casal naquela altura, e deixa uma hipótese para explicar o estado casto da Rainha.
Reconciliación
Juan Carlos I de Espanha com Laurence Debray
Planeta, 20,30 euros (em espanhol)
É provavelmente um dos livros mais polémicos do ano — cuja edição portuguesa, com o selo Planeta, deverá chegar no começo do próximo ano. No verão de 2020 o rei emérito Juan Carlos I, que anos antes havia abdicado a favor do filho, decidiu deixar Madrid e mudar-se para Abu Dhabi, na tentativa de afastar os escândalos associados ao seu nome à monarquia espanhola. Agora, cinco anos depois do exílio voluntário, revela que “ninguém sabia de nada”. As suas memórias, levadas ao papel com a ajuda da jornalista franco-venezuelana Laurence Debray, passam pela infância e adolescência, com as suas visões controversas e a relação quase familiar com Francisco Franco, até as atitudes que o levaram a abrir mão do trono, como a caçada de elefantes no Botswana. Assume o “erro” da relação extraconjugal com Corinna Larsen, mas explica o recebimento de 100 milhões de euros do Rei saudita como “um ato de generosidade de uma monarquia para outra”. Publicado em francês e espanhol, ainda não há previsão para ser traduzido para o português.
Entitled: The Rise and Fall of the House of York
Andrew Lownie
Harper Collins, 27,77 euros (em inglês)
O jornalista e historiador Andrew Lownie começou a investigar a vida dos duques de Iorque há quatro anos e tentou falar com três mil pessoas para traçar o retrato do casal que coleciona polémicas. Apenas 300 aceitaram dar entrevistas, mas juntamente com documentos de processos legais, foram suficientes para revelar pormenores da relação de amizade próxima com Jeffrey Epstein, a personalidade arrogante para com os funcionários, e as interações muito suspeitas com a elite de países como o Kazaquistão. “O príncipe André é viciado em sexo, financeiramente corrupto e um embaraço para a família. E a ex-mulher igual”, disse o autor ao Observador, quando o livro foi publicado, ainda antes dos escândalos resultarem na retirada de todos os seus títulos reais, e a sua mudança forçada do Royal Lodge. Nestas páginas estão provavelmente muitos dos motivos pelos quais Carlos III terá tomado a decisão inédita.
Ao serviço dos portugueses – fotobiografia do duque de Bragança
Vasco Medeiros Rosa
By the Book, 28 euros
Com lançamento previsto para 18 de dezembro, esta fotobiografia de autoria do jornalista e investigador Vasco Medeiros Rosa explora o portefólio de grandes fotógrafos portugueses e documentos nunca antes publicados para ilustrar o percurso de vida do duque de Bragança. Desde a esfera pública, quando atua dentro e fora de Portugal em ações com caráter diplomático não oficial, até a a sua vida privada e discreta, o livro mostra também os bastidores de uma figura simbólica para a história do país. A edição é bilingue, com texto em inglês e português.