Chega às livrarias de França três semanas antes das de Espanha. De acordo com o que disse numa entrevista ao Le Figaro, na sua casa em Abu Dhabi, tentou dois escritores espanhóis antes da franco-venezuelana Laurence Debray, que é autora da biografia Mi Rey Caido, de 2022, aceitar transcrever as memórias do agora Rei emérito para o papel. “Hesitei em escrever este livro, mas aos poucos percebi que os filhos e netos dos meus amigos não tinham a menor ideia sobre Franco ou sobre a transição democrática que se seguiu. E, no entanto, a década de 1970 não foi assim há tanto tempo! Achei necessário prestar um testemunho direto do que vivi durante 39 anos de serviço ao meu país.”, diz Juan Carlos sobre o seu Reconciliação, que tem a versão francesa lançada a 5 de novembro e a espanhola a coincidir com as comemorações do 50º aniversário de morte de Franco, a 20 de novembro de 1975. “Tenho a sensação de que a história da minha vida me está a ser roubada”, justifica ao francês Le Point, que revela ainda que Juan Carlos “detesta” o título de Rei emérito e preferia o de “Rei pai”. “Houve muitas mentiras e exageros no que foi dito sobre mim, então quis contar a minha história, a minha versão, de coração. E falar sobre todos os assuntos com sinceridade.”
Nos trechos publicados pelos dois jornais franceses e pelo Le Monde uma semana antes das memórias chegarem ao público, Juan Carlos fala da infância em Portugal, da relação familiar com Francisco Franco, que inclui um sentimento “paternal” do ditador. Também revela as suas opiniões controversas sobre figuras como o antigo Presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, que considera arrogante, ou a princesa Diana, que chama “fria e taciturna”. Justifica as caçadas no Botswana, reconhecendo a viagem como “distante e dispendiosa” em comparação com a crise que a Espanha enfrentava, assume o envolvimento com Corinna Larsen como um “erro”, e explica a “doação” do Rei da Arábia Saudita de 100 milhões de dólares como um “ato de generosidade de uma monarquia para outra”. Fala da mulher Sofia como, entre outras coisas, a “personificação da nobreza de espírito”. E ainda desvenda os motivos que o levaram a abdicar e tomar a decisão de se exilar nos Emirados Árabes Unidos, assumindo a vontade de regressar à Espanha e retomar o contacto com o filho, sem deixar de fora a polémica do próprio túmulo — ou literalmente a ausência de planos para a sua morte. É um dos únicos Reis que efetivamente reinaram a escrever um livro de memórias dirigido aos súbditos. “Vou ser atacado, preciso comprar um escudo”, assume ao Le Figaro, explicando que espera com a obra ver exorcizados os “nossos demónios, que estão a regressar”.
▲ O casamento de Juan Carlos e Sofia, em 1962
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De Lisboa a Madrid e a relação de pai e filho com Franco
O Rei emérito nasceu em 1938 em Roma, mas mudou-se para a Vila Giralda, no alto do Monte Estoril, quando tinha oito anos. Viveu em Portugal até os 10, quando regressou a Madrid de comboio. “Os meus pais acompanharam-me até a estação em Lisboa. Já estava escuro a 8 de novembro de 1948, e eu tentava não demonstrar o meu medo ou a minha dor. Na plataforma, o meu pai disse à minha mãe: “Maria, diga adeus ao Juanito, porque não sabemos quando o veremos novamente”. Ao ouvir as suas palavras, senti um nó no estômago, já tão preocupado por ir para aquele país que era meu, mas que não conhecia, cuja língua falava mal, sem nenhum familiar por perto, para uma escola nova que me assustava”, assume Juan Carlos no livro. “O conselheiro e tesoureiro do meu pai, e amigo da minha avó, o duque de Sotomayor, e o seu secretário, o visconde de Rocamora, acompanhavam-me. ‘Avisem-me quando cruzarmos a fronteira e, principalmente, quando chegarmos a Espanha’, pedi-lhes. Estava tão nervoso que não conseguia dormir”, escreve ainda o Rei emérito, ansioso pelo primeiro encontro com Francisco Franco.
“No caminho, lembrei-me do conselho do meu pai: ‘Quando encontrar Franco, ouça-o com atenção, mas fale o mínimo possível. Seja cortês e responda às suas perguntas brevemente’. Cerca de vinte anos depois, Franco dar-me-ia o mesmo conselho: ‘Moscas não entram em boca fechada’. E também: ‘É dono daquilo que mantém em silêncio e é escravo daquilo que diz’. Passei anos enclausurado em silêncio, para me proteger e me preservar, até a minha ascensão ao poder em 1975. Sei que muitos espanhóis interpretaram esse silêncio como estupidez. Eu ri-me muito disso”, diz Juan Carlos, sobre os anos de juventude, em que assume ter desenvolvido uma relação muito próxima, quase familiar, com o ditador espanhol. “Tinha uma relação filial com Franco? Havia uma diferença de 46 anos entre nós. Ele não tinha filhos. Talvez projetasse em mim um sentimento paternal. Não escondia a compaixão que sentia por mim. Talvez até mesmo uma certa ternura e gentileza. Reservava um tempo para me ver regularmente e manter um diálogo constante.”
Juan Carlos chegou a Espanha para estudar e terminou o bacharelato no Instituto San Isidro, em Madrid, em 1954. No ano seguinte ingressou na academia militar e depois licenciou-se em Direito Político e Internacional, Economia e Tesouro Público, na Universidade Complutense. Preparava-se para regressar ao trono, como conta a já conhecida história de que Franco o terá escolhido como sucessor. “Em outubro de 1975, no trigésimo nono aniversário de sua ascensão ao poder, fez sua última aparição pública, na varanda do Palácio Real. Gaguejou inaudivelmente diante de uma enorme multidão que respondeu com a saudação fascista. Eu estava atrás dele, impassível. Tentei conter o meu desconforto. Sentia-me como se estivesse num baile de máscaras dos anos 1930. Pensei: ‘Vou ter que mudar a mentalidade de todas essas pessoas...'”, confessa o Rei, que nas memórias diz ter recebido “carta branca” do general no leito de morte. “Pegou na minha mão e disse, como se fosse o seu último suspiro: ‘Vossa Alteza, peço-lhe apenas uma coisa: mantenha a unidade do país.’ Este foi o seu último desejo. Não me pediu para preservar o regime como estava ou os princípios do Movimento Nacional. Portanto, eu tinha carta branca para iniciar reformas, contanto que a unidade da Espanha não fosse posta em questão. Tive a impressão de que estava a dar-me liberdade para agir.”
▲ Franco e Juan Carlos numa aparição pública em 1975
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No livro também revela os seus sentimentos para com o ditador espanhol, que esteve no poder durante 36 anos.”Respeitava-o enormemente; apreciava a sua inteligência e a sua perspicácia política. (…) Nunca permiti que ninguém o criticasse na minha presença”, assume Juan Carlos. Se em Espanha a figura de Franco é associada a nomes como Hitler ou Mussolini, o Rei emérito traz um retrato muito mais próximo do antigo ditador. Quando questionado pelo Le Figaro sobre o impacto que esta história pode gerar nos espanhóis, é direto: “Por que mentir se foi alguém que me fez Rei, e na realidade, fez-me Rei para criar um regime mais aberto?“.
Santiago Carrillo, Giscard e Sarkozy
A mudança de regime da qual Juan Carlos fala terá começado a ser costurada muitos anos antes. Nas suas memórias descreve, por exemplo, os contactos com Santiago Carrillo, o líder do Partido Comunista espanhol exilado durante o domínio de Franco. “Conheci Ceausescu (então Presidente da Roménia) durante as comemorações do 2.500º aniversário da fundação do Império Persa, em 1971. Tivemos uma conversa de quase três horas porque eu queria entender o que estava a acontecer do outro lado do muro. Confidenciou-me que Carrillo estava a passar as férias de verão na Roménia. Pensei novamente nesse detalhe e achei que Ceausescu poderia ajudar-me a enviar uma mensagem ao líder comunista“, escreve o Rei emérito. A mensagem era: ‘Não comece uma guerra civil após a morte de Franco, dê-me tempo para o legalizar’.”
A resposta de Carrillo foi que concordava em esperar. O partido foi legalizado a 9 de abril de 1977. “Senhor, o senhor enganou-nos a todos: para se fazer de tolo por tantos anos, o senhor deve ser muito esperto!”, terá dito Carrillo no primeiro encontro com o então Rei. Morreu em 2012 e Juan Carlos diz ter ido à casa da viúva prestar homenagens. “Era uma época em que a esquerda, e especialmente o Partido Comunista, respeitava as instituições estatais… Lamento que um certo espírito político, que é chamado de ‘espírito da Transição’, se tenha perdido em detrimento da Espanha e dos seus interesses”, escreveu o Rei. Em entrevista ao Le Figaro, Juan Carlos parece orgulhar-se da capacidade de diálogo com todos os lados. “Fidel Castro disse de mim à imprensa espanhola: ‘Têm o melhor rei do mundo!’ O meu caráter faz-me ver as pessoas humanamente, não apenas do ponto de vista político. Fui útil para o meu país por ser sempre um canal de comunicação e intercâmbio.”
Contudo, o Rei emérito não guarda boas lembranças de todas as figuras políticas com quem interagiu. Ao descrever o Presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, chefe de Estado entre 1974 e 1981, Juan Carlos destaca “a sua arrogância, que beirava a condescendência, podia obscurecer a sua inteligência. Precisava do seu apoio nesses momentos, e ele fazia-me sentir que o tinha”, assume no livro. A antipatia com Giscard estará relacionada com a forma como a França tornou-se, naquela altura, um refúgio para membros do ETA. “Não nos ajudou muito”, diz o Rei emérito ao Le Figaro. “Era tão arrogante! Um dia, veio à minha casa na Zarzuela. Viu as pinturas do meu avô e do meu tio, a usar o colarinho da ordem do Tosão de Ouro, a mais alta condecoração espanhola. Disse: ‘Também tenho direito a isso, sou descendente de Luís XV.’ Prefiro entregá-la, muito mais tarde, a Nicolas Sarkozy, em agradecimento pela ajuda decisiva que prestou à Espanha na luta contra os terroristas do ETA”, disse sobre o antigo Presidente que, entretanto, cumpre pena de prisão pelo financiamento ilegal da campanha de 2007, com fundos da Líbia de Gaddafi.
Ainda sobre a “transição” de regime da qual se orgulha, Juan Carlos recorda outro momento decisivo da política espanhola: o dia 23 de fevereiro de 1981, a tentativa de golpe que deu por terminada. “Finalmente gravei a minha mensagem à nação. As câmaras chegaram e um estúdio foi montado às pressas no meu escritório. Vesti o meu casaco de general. Para agilizar as coisas, nem sequer coloquei as calças. O meu discurso foi sóbrio e eficaz, durou noventa segundos. Ainda me lembro do que disse: ‘A Coroa, símbolo da permanência e da unidade da pátria, não pode tolerar de forma alguma as ações ou atitudes de pessoas que pretendem interromper o processo democrático pela força.’ Entre o momento em que os dois carros partiram, um dos quais carregava um rolo de filme vazio como isco, caso fosse parado, e a transmissão do meu pronunciamento na televisão, o tempo pareceu eterno, como se estivesse congelado. Marchas militares ecoavam em loop na televisão e no rádio. Esperei e esperei, impaciente.”
▲ Juan Carlos e Sofia com Isabel II e o príncipe Philip
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A caçada na Botswana e o “erro” com Corinna
No livro, também refere a polémica caçada de elegantes no Botswana em 2012, onde fraturou a anca, o que o obrigou a regressar mais cedo para ser operado em Madrid. A viagem havia sido mantida em segredo dos espanhóis até então. “Peço desculpas, errei. Não voltará a acontecer”, disse apenas, na altura. “O chefe da Casa Real e o chefe de comunicações insistiram para que eu me desculpasse assim que saísse do quarto do hospital. Sabia que precisava reparar o erro. Talvez não tivesse escolhido as palavras certas ou as circunstâncias certas. Em tempos de crise, é difícil agradar a todos. Alguns achavam que um rei não deveria se desculpar. Outros, que não tinha feito o suficiente. Precisava provar aos espanhóis que estava ciente da gravidade da situação. Seria eu capaz de reparar o vínculo que me unia a eles há mais de trinta e cinco anos?”, escreve, apesar de assumir que a expedição foi “uma viagem distante e dispendiosa que pode parecer completamente incompatível com a situação do país”.
O pedido de desculpas não tinha apenas relação com a viagem milionária secreta enquanto a Espanha recebia ajuda internacional para se recompor da crise, ou pelo facto de ter ido caçar uma espécie de animal ameaçada. O acidente durante o safari também expôs a relação extraconjugal com Corinna Larsen, que Juan Carlos conhecia desde 2004, e que tinha viajado com o monarca. “Este relacionamento foi um erro que lamento profundamente. Pode parecer trivial; muitos homens e mulheres ficam cegos ao ponto de não verem o óbvio. Para mim, teve um impacto prejudicial no meu reinado e na minha vida familiar. Corroeu a harmonia e a estabilidade desses dois aspetos essenciais da minha existência, levando-me, em última instância, a tomar a difícil decisão de deixar a Espanha. Manchou a minha reputação aos olhos do povo espanhol. Nessa caçada humana, tornei-me presa fácil. Mas essa fraqueza é própria de um homem. Nunca interferiu nas minhas responsabilidades como Rei para com o meu país”, escreve sobre o caso com Larsen.
▲ Corinna Larsen teve uma relação com Juan Carlos durante quase uma década no início dos anos 2000
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As relações entretanto foram além da paixão. Em 2008, Juan Carlos terá recebido 100 milhões de dólares, o equivalente a cerca de 65 milhões de euros (à taxa de câmbio da altura) do Ministério das Finanças saudita. Um “agradecimento” na sequência do possível favorecimento de um consórcio de empresas espanholas no concurso para a construção da linha de alta velocidade que liga as cidades de Meca e Medina. O valor em questão nunca foi declarado ao fisco espanhol. Em 2012, os cerca de 65 milhões de euros deixaram a conta do banco suíço Mirabaud onde tinham sido depositados em 2008 — em nome da Fundação Lucum, criada a 31 de julho desse mesmo ano, com sede no Panamá e da qual o beneficiário era o próprio monarca, na altura ainda no trono — com destino a uma conta em nome da Solare, empresa associada a Larsen, nas Bahamas.
O dinheiro, Juan Carlos explica no livro, representa a “generosa doação do falecido Rei Abdullah da Arábia Saudita, um irmão (…) . Um ato de generosidade de uma monarquia para outra.” O antigo monarca espanhol reconhece que “100 milhões de dólares é uma quantia considerável”, mas classifica o valor como uma forma de “garantir a minha reforma, longe da vida oficial espanhola”. Foi, de acordo com Juan Carlos, “uma doação que não pude recusar. Um grave erro”. De recordar que a investigação aberta na Suíça em 2018 por lavagem de dinheiro agravada foi encerrada em dezembro de 2021. Em 2022 o Rei foi absolvido de todas as acusações em Espanha.
A crise iniciada em 2012 com a viagem ao Botswana e agravada com as suspeitas de corrupção com a “doação” do Rei da Arábia Saudita, somada à polémica com a amante que foi para os tribunais em Londres, resultaram na abdicação em 2014 e no exílio em 2020.
O exílio e as saudades de Espanha
“A Rainha da Inglaterra dizia-me: “Um rei nunca abdica”. E, segundo o meu pai, ‘el rey se muere con las botas puestas’. Se ainda estivesse entre nós, teria sido contra a decisão que eu estava prestes a tomar”, assume Juan Carlos, sobre a abdicação a favor do filho, Felipe VI, em 2014. “Desde 2008, o país vinha sofrendo as consequências de uma crise económica sem precedentes. E também de uma crise moral. Durante esse período, lutava comigo mesmo e com este corpo que me traía. Não havia a menor possibilidade de eu aparecer em público de uniforme militar, numa cadeira de rodas, ou mesmo de muletas, para inspecionar as tropas”, diz ainda, sobre a sua condição física resultante das várias cirurgias no joelho e ancas, que ainda hoje o fazem ter dificuldade para caminhar. Seis anos depois, deixaria a Espanha.
“Em meados do verão de 2020, deixei minha residência em Madrid, o Palácio da Zarzuela, rumo a Abu Dhabi. Ninguém sabia de nada“, escreve. “O meu filho, ao saber da minha partida repentina, ligou-me. Já estava no avião. “Para onde vai, chefe? Para Londres?” As pessoas chamam-me “chefe” ou “papá”. Não acho que tenha uma natureza autoritária, mas certamente reflete a organização piramidal da Casa Real e da família. Como sinal de respeito, o meu filho chama-me assim, embora em particular eu continue a ser o “pai”, explica Juan Carlos. A carta de despedida publicada pela Casa Real terá sido deixada na mesa do filho antes da partida. “Continuo a concordar com cada palavra”.
O destino do exílio permaneceu sob especulação por alguns dias na imprensa espanhola — na altura falou-se mesmo que Juan Carlos estaria de regresso a Portugal. Contudo, a decisão por Abu Dhabi também terá relação com o escrutínio dos jornalistas. “Para ajudar o meu filho, procurei um lugar onde jornalistas do meu país não pudessem encontrar-me facilmente“, conta, em declarações ao Le Figaro. “A última vez que apareceu um jornalista espanhol, as autoridades locais enviaram-no para a prisão! Tive que intervir para o tirar de lá “.
Contudo, Juan Carlos diz que quando deixou Espanha acreditava que seria um exílio temporário. “Diante da pressão dos média e do governo, após a revelação da existência de uma conta bancária que eu possuía na Suíça e as acusações de corrupção completamente infundadas, decidi partir para não atrapalhar o bom funcionamento da Coroa nem impedir o meu filho no exercício das suas funções como soberano. Pensei que ficaria por algumas semanas, no máximo, para ficar longe dos holofotes da imprensa e permitir que os sistemas judiciários espanhol e suíço conduzissem as suas investigações com total tranquilidade. Jamais imaginei que, cinco anos depois, dois dos quais sem ter voltado ao meu país, eu ainda estaria em Abu Dhabi”, lamenta o monarca, que não esconde a falta que sente do país onde viveu a maior parte da vida. “Não consigo conter a emoção ao pensar em certos membros da minha família para quem já não importo e, sobretudo, em Espanha, de que sinto tanta saudade. Há dias de desespero, de vazio. Vivo sem perspetivas, sem qualquer certeza de poder voltar a viver no meu país. Apesar de todos os processos judiciais terem sido arquivados e de nada ter sido comprovado contra mim, continuo em pé contra todas as probabilidades. Por instinto de sobrevivência, por força de caráter”, escreve. Juan Carlos diz ainda que não regressa por respeito aos “desejos da Casa Real e do governo atual. Em última análise, a minha vida terá sido ditada pelas exigências de Espanha e do trono. Dei liberdade aos espanhóis ao estabelecer a democracia, mas nunca pude desfrutar dessa liberdade para mim. Agora que o meu filho me virou as costas por dever, e os meus supostos amigos desapareceram, percebo que nunca fui livre.”
Da vida em Espanha, recorda, por exemplo, “a caça à perdiz, que era um dos meus passatempos favoritos, em Espanha, não se compara à caça em qualquer outro país: o ambiente é jovial e alegre, o céu é límpido e brilhante. No estrangeiro, tudo é mais frio, tanto o clima quanto as relações humanas. Em Espanha, a cada tiro certeiro, congratulamo-nos, aplaudimo-nos.” “Não há um dia que passe sem que sinta nostalgia. É como se Espanha fizesse parte de mim. Deixei lá as minhas melhores lembranças e o meu maior orgulho.”
Em Espanha deixou também a mulher, a Rainha Sofia, que de acordo com a Paris Match telefona com regularidade ao marido, apesar de nunca o ter visitado nos Emirados Árabes. “Não há ninguém igual na minha vida e assim continuará a ser, mesmo que nossos caminhos tenham se separado desde a minha partida da Espanha… Permanece a mãe dos meus filhos, uma rainha notável e um vínculo emocional fundamental e insubstituível”, escreve Juan Carlos, que revela que chama a mulher de “Sofi” e descreve-a como “uma mulher excecional, íntegra, bondosa, rigorosa, devota e benevolente. A personificação da nobreza de espírito. Não gosta que eu a chame de ‘grande profissional’, mas a Espanha não poderia ter tido uma rainha mais dedicada e irrepreensível.”
Inspirado em Clint Eastwood, a opinião polémica sobre Diana e o G7 de reis
Em trechos curtos divulgados pelos jornais franceses, o público também fica a saber algumas curiosidades sobre as relações de Juan Carlos com outras figuras públicas, como os membros da realeza britânica. O Le Point descreve uma iniciativa pensada pelo monarca que se assemelhava a um G7 de reis, ou uma espécie de “clube de reis”, que reuniria as principais casas reais europeias, com a intenção de trocar ideias e promover a estabilidade na Europa. Já o Le Figaro revela que o Rei emérito de Espanha considerava a princesa Diana “fria, taciturna e distante, exceto na presença dos paparazzi”, negando ainda os rumores de um caso romântico que circularam na imprensa nos anos 1980, quando os príncipes de Gales frequentavam a residência de verão da Família Real Espanhola nas férias.
▲ A princesa Diana e o então príncipe Carlos passaram três verões com os Reis de Espanha nos anos 1980
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Numa passagem, Juan Carlos fala também da influência de Clint Eastwood nas suas práticas para a longevidade. “Acima de tudo, decidi ‘manter o velho do lado de fora’ e estabelecer-me, como Clint Eastwood tão apropriadamente disse quando lhe perguntaram qual era o segredo para se manter tão ativo e continuar a fazer filmes com mais de 90 anos: ‘Cada manhã, quando me levanto, não deixo o velho entrar. O meu segredo: manter-me ocupado. Nunca deixo o velho entrar em minha casa.’ […] Essas são palavras que me tocam profundamente”, diz, recordando um episódio de “conexão” com o ator de Hollywood. “Tive a sorte de conhecê-lo nos Estados Unidos. Estava sentado ao seu lado. O meu telefone tocou e ele começou a procurar o dele. Percebemos que tínhamos o mesmo toque: a banda sonora de O Bom, o Mau e o Vilão, o faroeste de Sergio Leone de 1966 no qual ele atuou.”
Além da inspiração em Clint Eastwood, a vida na ilha de Nurai tem ajudado o Rei a perder peso e manter-se ativo. Aos 87 anos, entretanto, também fala sobre a morte — e sobre o facto de não ter, literalmente, onde ser enterrado. Isso porque a cripta real, na cidade de San Lorenzo de El Escorial, onde estão enterrados os reis e as suas mães desde há quatro séculos, está cheia devido à decisão do próprio Juan Carlos de, nos anos 1990, enterrar no local os pais, os condes de Barcelona. “Há algo planeado para o meu funeral? Não sei. Sei que o mausoléu dos reis em El Escorial está cheio. Há espaço para construir outro. O que o governo decidirá? Tudo está nas suas mãos. É uma questão de orçamento e vontade política. De momento, parece-me que nada foi decidido ou organizado“, desabafa, para em seguida descrever o protocolo oficial. “A única certeza é o processo tradicional de colocar o corpo num caixão, uma provação macabra! O corpo repousa por 25 anos numa sala chamada “pudridero” (a câmara de decomposição), onde o falecido literalmente apodrece. Depois, os monges do mosteiro de El Escorial quebram os ossos do corpo, na presença do chefe da Casa Real. Esses ossos são então colocados numa espécie de urna lacrada que sai do mausoléu para ser instalada na cripta real. Não parece muito agradável… mas essa é a tradição que remonta aos Habsburgos”, relata.
“Não sei se conseguirei escapar disso, mas não me importa. Não sou obcecado por essas questões. Espero, acima de tudo, que durante a minha vida eu tenha uma reforma tranquila, reacenda uma relação harmoniosa com o meu filho e, sobretudo, volte para a Espanha, para casa”, escreve Juan Carlos, esperançoso. À neta Leonor, que um dia vai suceder Felipe VI no trono de Espanha, conta que já lhe deu um conselho. “Que tenha certeza de si mesma, que cumpra o seu dever com compaixão e bondade e que seja a garantia do respeito à Constituição Espanhola.”
[Chegou o histórico debate entre Soares e Freitas. E o socialista já conseguiu o voto dos comunistas sem “olhar para o retrato” dele. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]