1233,5kWh poupados 1233,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Há 500 anos, uma elite de mulheres chegou a liderar a cultura em Portugal. André Canhoto Costa quis resgatá-las do esquecimento

Ousaram desafiar convenções e queriam ter uma palavra no rumo do país perante uma sociedade que não reagiu bem à emancipação. O historiador André Canhoto Costa recorda-as em "A Corte das Mulheres".

Hoje, nomes como o de Francisca de Aragão, Joana Vaz ou Luísa Sigeia estão remetidos às notas de rodapé da História, apenas conhecidos pelos mais devotos dos investigadores. Há cinco séculos, porém, representavam a nata de uma nova cultura portuguesa vanguardista, constituída à volta de figuras como Leonor de Áustria — a mulher de D. Manuel I —, a sua filha Infanta D. Maria ou Joana de Áustria, mãe de D. Sebastião.

Durante boa parte do século XVI, estas nobres, de curiosidade alimentada pelas leituras que faziam no seu recato, passaram a reunir-se de um conjunto de cortesãs e artistas em tardes e serões, desafiando não só os ditames intelectuais do seu tempo, como também os sociais, ao propôr uma maior e mais livre convivência entre sexos. “Há claramente um interesse de emancipação feminina que é distintivo”, afirma André Canhoto Costa, autor de A Corte das Mulheres, livre onde faz uma história deste período, das suas causas e consequências.

Historiador e romancista — autor de Como Sobreviver depois da Morte, de 2024 —, Canhoto Costa atirou-se a este tema após dedicar-se a investigar o período do Renascimento em Portugal e ao aperceber-se de que havia muito bons trabalhos sobre estas mulheres, mas não uma sistematização sobre a sua vida e o seu impacto cultural no reino em que viviam.

No Museu Nacional de Arte Antiga — espaço escolhido para esta entrevista não só pelo tema, mas porque alberga pinturas e retratos de figuras destacadas neste mesmo livro —, o historiador explicou numa extensa conversa ao Observador as particularidades de tal período, como o facto destas mulheres terem apadrinhado alguns dos mais importantes autores da história de Portugal, como Luís de Camões, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro. “Não é por acaso que alguns destes autores são os que ainda hoje constituem o cânone, porque foram os que trouxeram coisas novas naquela época”, conta, recordando que muitos vão mais tarde “ser perseguidos e os seus livros proibidos pela Inquisição”.

O leitor mais atento já terá reparado que, se tal movimento foi recuperado do esquecimento, é porque não logrou grande sucesso, não obstante ter sido no seu seio que se produziram obras como Os Lusíadas ou Menina e Moça. “Era evidente que não podia singrar, que teria sempre muitas dificuldades, porque foi um movimento muito vanguardista”, explica o autor. Não tendo sido esse o seu intuito inicial, é impossível não encontrar paralelos desta Corte das Mulheres com o nosso tempo, nomeadamente face à emancipação da mulher em pleno século XXI e ao tipo de reações contrárias a uma maior preponderância feminina no mundo político, económico e cultural.

“O que este livro nos conta é que essa primeira emancipação ajuda a explicar a força com que a repressão cai em cima desses movimentos, e às vezes há algum receio de que, se não houver muita atenção e muito cuidado na defesa de alguns valores muito importantes, do outro lado a reação pode começar de facto a avolumar-se”, avisa.

▲ A capa de "A Corte das Mulheres", de André Canhoto Costa, editado pela Quetzal

Porquê uma investigação à volta desta Corte das Mulheres?
Antes de mais, este livro é o resultado de muitos anos a ler sobre o Renascimento e de escrever uma tese sobre os secretários de Estado e sobre o mundo da escrita. Nessa investigação ficou muito claro que era um tema sub-explorado na História de Portugal, mas que era importantíssimo porque tem muito a ver com as lutas de poder que se estabelecem na corte à volta do rei, até mesmo quando ainda era itinerante. E foi quando começaram também as técnicas de governo modernas — aquilo que associamos hoje a questões como eficácia de governo, controlo da informação e da propaganda. Isso nasce com este mundo, com esta gente da escrita, que curiosamente começa por ser recrutada pelos reis nas camadas que não são propriamente dos grandes aristocratas, precisamente porque a escrita era vista como um ofício mecânico e desprestigiante. Quando a máquina do Estado começa a ficar mais complexa, começa a recrutar cada vez mais, porque o tratamento da informação é muito importante, e começam a aparecer escrivães por todo o lado. Há muitas figuras que conhecemos da história da literatura que vão ter cargos assim nos mais diversos níveis e que juntam esses dois lados: a tentativa de chegar ao poder e, ao mesmo tempo, o interesse pelos livros, pela literatura, por tudo o que está associado.

Como é que eles se relacionam com a classe de mulheres aristocratas de que trata o livro?
É que há de facto uma aliança entre uma parte importante desses protagonistas da escrita e um público feminino leitor que começa a aparecer dentro também da corte. Como é evidente, a alfabetização das mulheres nesta época só se dá nos estratos mais elevados da sociedade. Aliás, esse vai ser um dos grandes problemas durante a Reforma na Europa, mas no caso português é muito evidente, dura praticamente até 1970. Portanto, o tema começou a aparecer-me como algo fundamental. Existe uma vontade destas mulheres mais privilegiadas em construir as suas bibliotecas, porque também estão fechadas no governo da casa. Há aqui uma correspondência de interesses que faz com que, no Renascimento, as mulheres se tornem, de facto, muito interessadas na intimidade da literatura, às vezes mais do que alguns dos protagonistas masculinos, porque passam muito tempo nessa reclusão. Portanto, os livros são um refúgio.

Essa predileção pelo livro era, no fundo, uma forma de emancipação intelectual. Aliás, fala até de uma “revolução silenciosa” que essas mulheres começaram a operar neste período, num tempo em que às quais eram exigidas normas sociais muito estritas. Como é que essa tensão se foi gerindo?
É muito disruptiva e depois aqui entramos nos casos particulares da história que ajudam a explicar porque é que os caminhos se dividem entre diferentes reinos, entre diferentes sociedades. É que essa tensão, que se torna muito visível e desencadeia reações, deve-se no caso português em parte a uma protagonista individual, a Infanta D. Maria, e isso ajuda a perceber o fechamento que se vai dar a partir de certa altura. A Infanta D. Maria era filha do rei D. Manuel I, que teve também esse lado de grande incentivador também da leitura e do livro. A sua biblioteca, apesar de ser pequena, segue uma tradição que depois ela vai herdar. Essa corte que ela constrói parece ser muito diferente e distintiva de outros exemplos similares que podemos ir buscar antes e depois e é isso que depois resulta na tensão.

"O Renascimento não é um amor aos livros antigos medido apenas pelo gosto das antiguidades, pelo fascínio de coisas que são muito antigas e que só têm prestígio porque são velhas. É exatamente o contrário: a sede de reedição e de redescoberta desses clássicos é motivada pela vontade de reinventar uma coisa nova. Ou seja, isso é motivado pela perceção de que aquilo que se está a viver está completamente ultrapassado."

Mas porque é que foi diferente? No início do livro fala de aristocratas italianas que fizeram o mesmo, por exemplo.
Lá está, às vezes pode-se fazer a pergunta “mas não há outros casos de cortes femininas?” Claro que sim, antes de mais a Itália no século XV. Mas até por isso e pela liderança que a Itália teve quanto ao que associamos ao Renascimento e ao próprio protagonismo político e por vezes até militar de algumas das grandes aristocratas italianas nessas cortes, essa tradição aparece aqui associada pelo interesse dos livros que são lidos, pelos temas que são discutidos e até pelos viajantes que andam precisamente nesse círculo da Infanta D. Maria e que vão a Itália, recolhem essa informação e voltam. Há claramente um interesse de emancipação feminina que é distintivo. Às vezes nós, os historiadores, tentamos muito normalizar e dizer “bem, mas a mentalidade da época não permitia tal e tal…”, mas há muitos, muitos indícios — e eu procuro explicar e apresentar isso ao longo do livro — que fazem com que este seja um momento especialmente dramático e muito diferente.

Para dar um exemplo claro dessa tensão, um dos humanistas da época chega a referir que a Infanta D. Maria não é apenas uma aristocrata com condições e com recursos, que se cercou de damas e que, enfim, tem uns serões de entretenimento. Não, ela tem uma visão amadurecida, pedagógica, sobre o papel da leitura, das bibliotecas e do ensino, e é por isso que surgem várias referências a uma ideia de escola ou de universidade feminina, que é uma expressão que é utilizada mesmo por esse autor do século XVI, porque existia claramente essa intenção. Não é uma perspetiva que estejamos a forçar sobre aquela época.

Em que consistia essa ideia?
Claro que não havia programas escolares ou notas ou avaliações, era a ideia de uma academia paralela, como estava a acontecer também muito em Itália — e mais tarde em França e Inglaterra — e que aparece aqui neste Renascimento Português. Eram sessões lideradas por mulheres, que reuniam-se permanentemente à tarde, depois do almoço, a discutir vários temas e isso era algo que acontecia de forma sistemática. Isso, juntando-se ao próprio tipo de literatura que aparece nessa corte, vai criar obviamente tensões enormes com a visão convencional que existia e que era altamente limitadora, não só dos direitos das mulheres — mesmo nas classes privilegiadas —, mas também mesmo do ponto de vista teológico, porque existia um grande debate sobre esse estatuto da mulher. Portanto, aparecer ali um conjunto de mulheres com esse dinamismo, que ainda por cima acolhiam os escritores, também eles polémicos, é óbvio que isto vai ser um problema que depois vai ter ondas de choque.

Portanto, o que está a dizer é que, ao contrário dos juízos que às vezes se fazem à distância dos séculos, houve uma constatação logo nesse período que esse tipo de atitudes foram uma pedrada no charco?
Sim. Tenho destacado as dedicatórias de alguns dos livros do período, pois não o conhecemos em rigor; há escassez de fontes, mas há também muita coisa ainda para investigar à volta deste tema. Há uma tese muito conhecida de Carla Alferes Pinto que estuda a ação mecenática da Infanta D. Maria, ou seja, os seus patrocínios, todas as iniciativas de proteção de financiamento de iniciativas culturais. Quando lemos as dedicatórias e nos dedicamos mesmo à história dos livros e dos autores e cruzamos com essas informações que já tínhamos sobre a política de mecenato da Infanta, é que tomamos consciência do que se passava

▲ Além de historiador, André Canhoto Costa é também romancista. Publicou em 2024 "Como Sobreviver depois da Morte", também pela Quetzal

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Quando aborda a questão da emancipação e da educação das mulheres neste período, o que ressalta é que não estão apenas a preservar ou recuperar livros do passado, estão a financiar livros do seu presente. Isso fazia delas perigosas?
Claro que sim. Não é por acaso que alguns destes autores são os que ainda hoje constituem o cânone, porque foram os que trouxeram coisas novas naquela época. Estas mulheres ligaram-se a estes autores não por serem de prestígio, por escreverem as coisas que se espera que sejam lidas pelo público ou por serem protegidos pela coroa. Muitos destes autores são de vanguarda, vão ser perseguidos e os seus livros proibidos pela Inquisição. Nós só percebemos o ostracismo quando percebemos esta dinâmica da Corte das Mulheres. Os livros que foram dedicados, que foram lidos, que estiveram na esfera de algumas destas mulheres — insisto na Joana de Áustria e na Infanta D. Maria — vão ser colocados no índice da Inquisição.

Que ideias trouxeram que eram tão desconfortáveis aos poderes instituídos?
É muito evidente a questão das classes sociais. Isto mais uma vez pode parecer heresia para uma certa visão da história, porque parece um anacronismo. Claro que não se fala aqui do conceito de classe social [como hoje o entendemos], mas há claramente a perceção de que um dos grandes temas da natureza humana retratados pela literatura é a paixão entre pessoas de estatuto social muito diferente. Isso vai ser muito claro no Palmeirim de Inglaterra. E isto é uma literatura que começa a causar estragos, e de tal maneira, depois, na própria Diana [de Jorge de Montemor], em que há a sugestão de relações amorosas muito intensas entre mulheres. Ao mesmo tempo, percebemos que é claro que isso não é surpreendente, estamos a falar do Renascimento italiano, que vai redescobrir todo o património da Antiguidade onde isso é tratado até à exaustão.

"Uma das razões pelas quais Camões torna-se incómodo é precisamente porque não é um escritor do regime. E, portanto, a cada momento, os escritores mais instalados nas lógicas do seu próprio tempo, mais agraciados com prémios, mais próximos de um certo mediatismo, com mais facilidade de sucesso editorial, têm sempre uma relação um bocado estranha com Camões. Vão sempre procurá-lo para se engrandecerem — é por isso que o Jorge de Sena dizia que Portugal é o país onde Camões morreu de fome e toda a gente enche a barriga à sua custa."

Um sinónimo para amor lésbico é amor sáfico, precisamente por causa de Safo de Lesbos.
É disto que estamos a falar. Isto está claramente em cima da mesa e são esses os autores. E foi também por aí que eu comecei a perceber a certa altura, voltando a uma pergunta anterior, as tensões que depois vão estar em causa. Eu assumo uma certa dimensão especulativa, mas não é por acaso que existe o enigma da Infanta D. Maria não ter tido um casamento planeado. É verdade que há uma grande oscilação de interesses diplomáticos, que há o problema do dote e que isso explica que a saída da Infanta D. Maria para uma corte estrangeira através do casamento obrigaria o reino de Portugal a pagar um dote fabuloso, mas claro que há também este lado, de alguém sobre quem começa a correr a ideia de que tem um perfil muito problemático. E ela própria, a partir de certa altura, quer a sua independência, isso também é mais ou menos evidente nas fontes e nos indícios indiretos. Todo este projeto tem como última consequência ela querer a sua independência, mantê-la até ao fim e não querer casar.

Escreve que a Infanta D. Maria chegou mesmo a ser equacionada para suceder como rainha a D. João III. No entanto, a escolha acabou por recair num perfil diametralmente oposto, o de Dom Sebastião. Esse é um dos grandes “e ses” da História de Portugal?
Completamente. É outro dos aspetos que se torna muito mais claro e que ajuda a contextualizar e a explicar o que parece inexplicável, aquela dimensão meio messiânica de Dom Sebastião. Há depois imensas explicações para tentar encontrar a sua figura e que parece até um acidente. Ora, aqui percebemos que não é acidente nenhum, é a consequência de uma série de factos, de decisões e de correntes que ganham peso na corte e que depois vão levar àquele resultado final.

▲ Retratos da Infanta Maria de Portugal, filha de Manuel I de Portugal, e de Catarina de Áustria, Rainha de Portugal, mulher de D. João III

Wiki Commons

Ainda no que toca à Infanta D. Maria, ela e a sua amiga espanhola Luísa Sigeia destacam-se claramente no livro pela sua excecionalidade. A que se deve esse perfil?
No caso da Infanta D. Maria, a mãe, a Leonor de Áustria, vai ser muito importante. Há até uma carta muito conhecida que eu cito no livro, em que ela agradece e explica o seu interesse pelo latim como um esforço repetido da mãe para que não desistisse, especialmente numa época em que o latim ganha também esse prestígio, mas que ela depois transforma numa coisa sua. Aí temos a perceção de alguém para quem o latim é uma ferramenta que pode abrir caminhos completamente diferentes, sobretudo no caso de uma mulher, e tendo os recursos depois também para se rodear de uma biblioteca e de humanistas.

Já o caso da Luísa Sigeia é muito interessante, porque ela de facto nasce num contexto de grande pujança humanista, o pai está ligado a essa formação universitária na cidade de Toledo — que, não por acaso, é onde aparecem os projetos mais vanguardistas de tradução da Bíblia nas três línguas. Portanto, desde muito pequena, cresce no “meio da biblioteca”. E, além disso, o pai acaba por ser apanhado na guerra política espanhola, do imperador Carlos V contra a aristocracia. Eles fogem para Portugal para procurar refúgio e isso ajuda muito a explicar, por um lado, um desenraizamento, por outro lado, uma desconfiança do poder monárquico; portanto, tudo resulta numa maior apetência para ideias que são mais disruptivas. Percebemos assim claramente porque é que aparece depois esta figura, é pena que não existam mais fontes, mas as que existem estão muito bem estudadas e há uma tese excelente da Catarina Monteiro que tenta arrumar mesmo aquilo que não se sabe muito bem, como a data de nascimento e o percurso, a data da vinda dela para Portugal. A verdade é que estas duas protagonistas têm esta explicação, porque tem a ver com a sua biografia. Vão ser absolutamente essenciais e há, de facto, um lado de competência que nós não conseguimos explicar de forma totalmente racional. Isso também ajuda a fundamentar a minha posição de que há aqui uma certa excecionalidade, Porque, apesar de tudo, pessoas que soubessem latim existiam muitas, mulheres eram menos…

E nem todas eram capazes de mandar uma carta em latim ao Papa Paulo III, como Luísa Sigeia fez.
E junta-se a própria Joana Vaz, que está no início da formação da biblioteca e deste movimento. Os humanistas liam as suas cartas e os seus poemas e diziam que estava ao nível do melhor que se estava a escrever na Europa. Portanto não é uma coisa propriamente normalizada, que possamos encaixar facilmente. Há ali, de facto, uma paixão pelo conhecimento e uma competência intelectual que tem a ver com tal acesso desde muito pequenas a bibliotecas, mas depois, por outro lado, tem a ver com uma tenacidade enorme e com uma competência e com a vontade de perseguir esse projeto até ao fim. Isso vai ser muito claro no caso da Luísa Sigeia, sendo que aqui admito que voltamos a entrar num certo campo especulativo.

Em que sentido?
Não há respostas para isso, mas a saída dela depois para Espanha, o abandono da corte e da proteção da Infanta D. Maria e a procura de uma ambição maior é muito interessante porque, a certa altura, percebe que não vai chegar a lado nenhum em Portugal porque olha à sua volta e vê que há uma série de coisas que estão a correr mal. O próprio André de Resende, que era uma figura muito importante como humanista, começa a ser atacado, começa a ter portas que se fecham e a perder controlo sobre os meios intelectuais e a influência na própria corte. Ele tinha sido uma das figuras-chave no crescimento do prestígio inicial desta corte e tanto da Luísa Sigeia como da Infanta D. Maria. Mesmo os homens que tinham algum protagonismo vão vendo essas portas fechar e, portanto, a Luísa Sigeia, a certa altura, vai para a corte espanhola à procura de outras possibilidades.

"Durante muito tempo tivemos uma visão um bocadinho ingénua sobre a revolução da imprensa e esquecemos que esta foi um fator de progresso do ponto de vista da circulação da informação, mas também era um instrumento de propaganda fortíssimo quando utilizado num determinado sentido. E isso é muito claro, por exemplo, na Inquisição, em que muitos dos bispos vão estar a dizer que o povo está com as ideias conservadoras e que os elitistas — essa gente das cidades, esses "urbanóides" que leem livros que ninguém se interessa nem ninguém quer compreender —, é que andam a envenenar o povo com ideias progressistas."

Como destaca numa das secções do livro, a questão da emancipação feminina não é só intelctual neste período, é também física. Há um impacto quase psicossexual nas consciências e nos costumes quanto ao próprio corpo feminino. Portanto, além de haver à partida uma oposição ao projeto intelectual desta corte, há uma reação à liberdade sexual da mulher?
Isso para mim é o lado mais evidente que está nas tais obras literárias de que falava, na Diana de Jorge de Montemor, no Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes — e em Camões, como é evidente. Há uma probabilidade elevadíssima de convivência do Camões com muitas destas mulheres. Algumas temos a certeza, com a Infanta D. Maria não temos provas que tenham estado no mesmo sítio, mas a probabilidade é muito, muito elevada. Isto é importante ressalvar porque esse lado da sexualidade feminina é um aspeto central naquilo que vai ser a ostracização do Camões relativamente à corte.

Entre a alquimia do poema épico e os mistérios de família: de onde veio Camões?

Em que sentido?
É quase uma anedota entre os especialistas que a primeira edição d’Os Lusíadas passou pela censura inquisitorial porque os censores provavelmente não leram tudo, a obra era vastíssima. Quando houve a perceção mais clara do que estava ali, a história censória d’Os Lusíadas começou a ser um bocado mais atribulada, não vou dizer até aos dias de hoje, mas quase. Discordo da visão mais convencional dos especialistas e dos camonianos sobre a construção da poesia do Camões e em particular do famoso episódio da Ilha dos Amores n’Os Lusíadas. Acho que está lá muito mais do que o tópico clássico que ele foi beber a Ovídio, está de facto a sua experiência desta corte.

Essa convivência com o sexo feminino?
É ver a forma como o jogo de sedução é descrito, o realismo com que é descrito, todos os passos, todo o complexo labirinto de mostrar e esconder, mesmo no que diz respeito ao corpo feminino e ao desejo masculino. Há muita qualidade filosófica e muita perceção de rigor quase científico do comportamento humano, e está lá essa ideia do jogo da sedução.

E a ideia de que as mulheres são passíveis de “pecado”?
Precisamente. Há, aliás, um tratado da época que contesta isso e que, por isso, desaparece rapidamente — hoje não sabemos quase nada sobre quem o escreveu. Esse documento esbate as diferenças entre o desejo sexual feminino e o masculino, defendendo algo como “não responsabilizem as mulheres pelos problemas que existem”, o que era também muito disruptivo e muito polémico na altura. Isso chocava até com uma certa mitologia que se baseava em conhecimento a ser reeditado nessa época, que tinha uma visão de que a harmonia nasce no casamento entre Vénus e Marte, em que só a beleza e a capacidade do amor de Vénus consegue vencer a tendência para a destruição de Marte guerreiro. Isto é muito mais convencional do que o que temos na Ilha dos Amores, por isso acho que é preciso algum cuidado quando se fala na poesia camoniana como um mero eco de leitura das obras antigas.

GettyImages-919819480

▲ Vasco da Gama na Ilha dos Amores, em "Os Lusíadas".

Getty Images

Fala do desaparecimento de Camões face a outros escritores da época, só sendo recuperado mais tarde. Noutra instância, quando Luísa Sigeia manda a tal carta ao Papa, e ele reage de forma algo seca. Ambos casos parecem apontar que toda esta Corte das Mulheres era o que hoje em dia chamamos uma “bolha” face ao mundo real. Que mundo real era esse que acabou por fazer desabar este sonho?
É muito importante reforçar essa ideia da bolha, precisamente porque às vezes parece que é preciso uma grande explicação ou fatores fortíssimos para explicar porque é que isto não se concretizou ou não se desenvolveu num projeto mais abrangente em termos sociais, quando é o contrário. Era evidente que não podia singrar, que teria sempre muitas dificuldades, porque foi um movimento muito vanguardista. Isso torna-se muito claro quando se começa, de facto, a ler com mais profundidade muitas das polémicas da época e reconstituir estes choques. Os próprios humanistas vão ser acusados de ser elitistas. É muito curioso, porque isso faz muito lembrar algumas das coisas que estamos agora a viver com a revolução digital. Durante muito tempo tivemos uma visão um bocadinho ingénua sobre a revolução da imprensa e esquecemos que esta foi um fator de progresso do ponto de vista da circulação da informação, mas também era um instrumento de propaganda fortíssimo quando utilizado num determinado sentido. E isso é muito claro, por exemplo, na Inquisição, em que muitos dos bispos vão estar a dizer que o povo está com as ideias conservadoras e que os elitistas — essa gente das cidades, esses “urbanóides” que leem livros que ninguém se interessa nem ninguém quer compreender —, é que andam a envenenar o povo com ideias progressistas.

Escreve que “a época da generalização da imprensa foi também a época de uma brutal guerra entre modelos políticos. A imprensa esmagou a cultura manuscrita, mais cara e elitista, mas criou públicos ávidos de textos superficiais. A disrupção causada pela imprensa aproximou os sábios, mas também estimulou o pânico social”. Com as devidas diferenças, não seria o que nós hoje em dia entendemos, talvez não como fake news, mas como desinformação?
É mais isso, porque às vezes temos uma visão muito linear sobre as fake news, parece que vêm só de um lado. O problema aqui é que às vezes não vêm só de um lado, há de facto um confronto de visões de sociedade. O que é evidente é o acicatar de paixões e de instintos mais difíceis de controlar e, portanto, mais eficazes no seu alcance, porque uma vez postos em movimento, são muito difíceis de travar. Os panfletos e a ligação entre essa capacidade de imprimir textos curtos — sermões, por exemplo — e de pôr a circular determinado tipo de ideias, também levou depois a que fosse muito fácil também manipular multidões a favor de uma posição mais conservadora.

Outro dos paralelismos que vejo é que é preciso nunca esquecer, nesta época, que a grande guerra também é sobre a legitimidade de interpretar livremente o texto bíblico. A partir do momento em que aparece Lutero, em 1517, ele depois desencadeia uma série de líderes religiosos, no norte da Europa sobretudo, que vão pôr em marcha essas diferentes sensibilidades. Isso vai lançar um medo terrível, porque vai estar associado a ondas de violência que são impressionantes e de ambos os lados. E, portanto, era muito fácil, a partir de certa altura, perante esse receio, apresentar tudo aquilo que eram interpretações mais intelectualizadas — ou visões que apontassem no sentido de deixar às pessoas o juízo e a capacidade, por exemplo, de ler [a Bíblia] na sua própria língua ou de rezar fora do enquadramento das próprias igrejas —, como uma coisa altamente perigosa que poderia trazer problemas a sociedades que estavam aparentemente pacificadas. Portanto, não íamos trazer, como se dizia, a “pestilência luterana”, “o veneno luterano” para essas sociedades.

"É inegável que o triunfo da tecnologia trouxe uma absolutização do presente que depois leva a um desinteresse permanente com tudo o que seja coisas que aconteceram ontem. Ontem já é passado".

Tem aludido para o caldo que se formou para esta Corte das Mulheres acabar por não singrar, sendo que a contra-reforma parece ter sido o golpe de morte neste sonho. Gerou-se a ideia de que o Renascimento já tinha ido longe demais?
Podemos pegar pelo lado masculino, dos tais escritores associados a esse movimento que, teoricamente, até teriam maior facilidade em integrar-se em carreiras estáveis. É muito curioso olharmos para três destas figuras que vão estar neste universo — quatro se juntarmos o Bernardim Ribeiro, cujo Menina e Moça vai estar na Inquisição também. De facto, estes livros vão ser perseguidos e proibidos e não é por acaso que os quatro principais autores, os mais conhecidos que entraram no cânone, tiveram todos um final em desgraça. Quanto ao Bernardim Ribeiro, não se sabe muito sobre a sua morte, só temos versões porque só existem documentos indiretos que dizem que talvez tenha morrido num hospital, mas a verdade é desaparece no final da vida e com toda a probabilidade na miséria. Já o Camões acabou de igual forma, apesar de todo o revisionismo agora. Se formos comparar a tença que lhe foi atribuída — e mesmo assim não temos certeza do pagamento, uma coisa é atribui-la, outra coisa é ter a certeza de facto que ele recebeu-a regularmente —, não era propriamente uma remuneração que desse para viver tranquilamente.

E os outros dois?
Tanto Francisco de Moraes como Jorge de Montemor têm mortes violentas, morrem em situação de assassinato. O segundo provavelmente num caso ligado a uma relação amorosa — e portanto, as suas próprias ideias levaram a que sofresse na pele essa violência da época associada ao condicionamento da paixão e das relações, embora não saibamos muito bem o que aconteceu. Já no caso do Francisco de Moraes, há muitas confirmações indiretas em descrições de crónicas e de memoriais que falam numa morte violenta em Évora, e muito provavelmente na sequência de um conflito com a própria casa de Bragança, que era poderosíssima, devido uma sátira que teria escrito e que levou a essa consequência. Portanto, até nisso se percebe que era uma bolha, e era uma bolha permanentemente ameaçada por visões muito mais convencionais.

▲ A imprensa, inovação tecnológica que marcaria a época e o mundo a partir de então

The Metropolitan Museum of Art

Que visões eram essas?
Partiam de setores que queriam a continuação de uma visão muito mais bélica, com mais ênfase na educação guerreira, na ideia de conquista e do serviço militar como essenciais na definição daquilo que era o masculino, por um lado. E, por outro lado, do ponto de vista do conhecimento, muito centrados no monopólio que a Igreja vai ter cada vez mais a partir da Contra-reforma, dos colégios e da Universidade de Coimbra — sobretudo a Companhia de Jesus, mas de uma forma geral a Igreja —, e sobretudo na ideia de que o conhecimento está associado ao tal sacerdote masculino celibatário. Esse é claramente o modelo que vence.

Ao longo de todo o livro, ressalva por diversas ocasiões que mergulhar no período do Renascimento é constatar que há muitas coisas que interpretamos erroneamente sobre este período. Quais é que destacaria?
Em primeiro lugar, aquele aspeto da renovação. Com o “Renascimento”, centramo-nos muito na repetição e pouco no nascer, nalguma coisa que se vai construir, que é nova. E aí há um certo paradoxo que, em geral, nos impede de compreender o que estava a acontecer, porque, lá está, sublinhamos muito mais o lado de repetição, do regresso aos antigos, do gosto pela antiguidade e concentramos-nos menos naquilo que é verdadeiramente novo e na vontade de progresso.

Como por exemplo?
A pintura de Miguel Ângelo ou de Botticelli não têm nada a ver com nenhum tipo de modelo que existisse na antiguidade. Há, de facto, um regresso às fontes literárias, mas é precisamente para construir imagens que são completamente novas e muito mais realistas. Isso é também muito claro no Lucrécio, um autor que vai ser muito lido por estas figuras, mais ligadas ao humanismo e a uma visão muito diferente de construção da sociedade. Por outro lado, a própria ideia de progresso que está em grande parte desta mitologia e que nós também nos esquecemos, normalmente nas descrições que fazemos do Renascimento. Quando eu falo de progresso, é da ideia da tecnologia, da própria evolução. Não é também ainda a “teoria da evolução” de Darwin, mas a ideia de que a natureza humana não é qualquer coisa que está dada para sempre. Nós descrevemos a redescoberta da natureza neste período como se fosse uma coisa imutável e não é exatamente isso. Há muito a ideia que a natureza é instável e em progressão e isso vai levar a uma redescoberta do interesse pela tecnologia e é por isso que depois vamos ter o Leonardo da Vinci e toda essa gente a querer construir coisas que interferem no natural.

Refere no livro que o apagamento deste período intelectual que aborda se deve à falta de fontes, mas é sobretudo um misto de embaraço e desinteresse. Porquê?
Às vezes corremos um risco ao colocar as coisas dessa forma. É preciso explicar que não é propriamente um desinteresse da academia. Embora sejam estudos pontuais e de natureza diferente, há trabalho académico excelente sobre algumas destas figuras. Mas a verdade é que, do ponto de vista do que são os grandes temas da história, quanto mais nos distanciamos do momento presente, maior é o desinteresse. Acho que a aversão a tudo o que é diferente daquilo que são os nossos interesses de momento é um dos desafios que temos, precisamente para não repetirmos os mesmos erros. Não vou dizer que os livros de História não têm leitores, porque continuam a ter, mas há, à partida, um certo desinteresse por coisas muito especializadas que sejam sobre história antiga, sobre o Renascimento, porque estamos apaixonados com as nossas próprias coisas, os ecrãs, as redes digitais. É impressionante, mas as próprias redes sociais já são quase um tema omnipresente e não só em termos práticos.

Como assim?
Começam a ser também o próprio tema dominante dos programas, dos livros. É como se fosse um círculo e não conseguimos sair disso. Portanto, é difícil às vezes suscitar esse interesse. E depois, até pode ser uma resposta fácil para os historiadores, mas claro que também há um problema de comunicação. A verdade é que não é fácil chegar às pessoas com uma coisa que já se passou há tanto tempo.

"Uma coisa é um exército eficaz, outra coisa é o regresso a modelos cavernícolas de masculinidade e de supremacia masculina, e estas coisas infelizmente às vezes começam a andar misturadas. Camões, não nos esqueçamos, foi um veterano de guerra e isso não fez dele um troglodita".

Apesar de querer ser prudente ao evitar comparações abusivas entre períodos muito distintos da História, escreve ainda numa fase inicial do livro que “a história emerge hoje com assustadora claridade, pois cada vez mais homens parecem aterrorizados pela ascensão das mulheres”. Não sendo iguais, não encontramos hoje alguns ecos semelhantes das tensões desse período — nomeadamente a emancipação feminina no mercado de trabalho e as tentativas em contê-la?
Claro, e uma grande ansiedade. É precisamente isso, acho que muitas dessas ansiedades são agravadas precisamente pelo desconhecimento do passado. Aliás, essa é também uma das razões da escrita deste livro. Embora o tema, como digo, tenha amadurecido ao longo de muito tempo, a escrita acabou por ser mais urgente a reboque desse debate. Nem vou centrar-me nos delírios misóginos que temos hoje, porque quero acreditar isso ainda são franjas um bocado radicais e tresloucadas da sociedade — mas basta recuarmos um bocadinho e já víamos pessoas respeitáveis a dizer “é verdade que havia uma certa repressão, mas também não era assim tanto” ou “a verdade é que, apesar de tudo, as rainhas tinham algum acesso ao poder”. E aí eu senti que há, de facto, uma tentativa de revisionismo de algo incontornável.

A Corte das Mulheres apresenta-se como um livro de história pouco academicista, tem uma estrutura mais livre, uma linguagem mais escorreita e mais literária. Isso era uma preocupação na conceção do livro?
Esse é um dos temas que mais me têm ocupado. Eu percebo a qualificação de “pouco académico”, tomando como padrão uma determinada ideia que temos do que é um livro académico, mas eu acho que, dentro das próprias humanidades, há uma discussão que se repete. Não é exatamente igual à que opôs os humanistas aos escolásticos — enfim estou a simplificar um pouco —, entre aqueles que defendiam a primazia da lógica e os que defendiam a importância da retórica e até da poesia, mas eu acho que a crise das humanidades, existindo desde sempre, acelerou nos últimos anos, não só pela perda de prestígio face obviamente ao poder tecnológico que as ciências trouxeram, mas também porque há uma hesitação enorme nos modelos com que se deve expor o tal conhecimento.

De que forma?
Na minha perspetiva, é muito mais difícil hoje encontrar uma correspondência entre historiadores que são académicos e/ou prestigiadíssimos professores universitários de carreira e que também sejam grandes autores de história “popular”, como os ingleses diriam. Acho o termo até um pouco abusivo, porque um dos grandes livros de história do século XX é também um dos grandes livros em qualquer género e até há quem o coloque como um dos melhores livros de sempre, mesmo que não seja literário, O Mediterrâneo no tempo de Filipe II, do Fernand Braudel. E podíamos dizer a mesma coisa dos Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss. Quer dizer, esses não são livros académicos? Portanto, havia uma tradição de escrever livros que se dirigiam a todo o público, para lá dos artigos científicos, porque as humanidades têm essa característica: se estão a tratar assuntos humanos, à partida toda a gente tem as ferramentas para os entender, desde que haja essa capacidade de explicação do que está em causa.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Apesar de tudo, se formos pensar a partir do século XIX, existia uma certa tradição em Portugal desse tipo de história “popular”. Se pensarmos no Alexandre Herculano, no Pinheiro Chagas, mais recentemente até no próprio Vasco Pulido Valente. O que aconteceu?
Tem muito a ver com que objetivos é que se traçam para as humanidades e que perfis é que se passam também na formação avançada em História. Todos sabemos que isto são decisões que se tomam e, portanto, os modelos vão-se replicando. Os protagonistas têm de tomar uma decisão sobre como é que querem comunicar e qual é a importância que dão à comunicação das suas ideias. E, portanto, o tipo de perfil que se escolhe para a comunicação e para os livros vai fazendo escola. E o que eu acho é que, a partir de certa altura, por insegurança — e, volto a sublinhar, compreendo essa insegurança, porque o ataque das ciências tecnológicas é fortíssimo — as pessoas sentiram essa tendência ou essa necessidade de abraçar ferramentas hiperespecializadas porque senão vão pensar que eu sou um historiadorzito da treta que está a contar as histórias da carochinha e portanto ninguém me vai ler e portanto se eu quero continuar a ter credibilidade eu vou ter que ir para ferramentas estatísticas, etc. Há um fosso que aconteceu, que se agravou e que diz respeito a um problema que eu também reconheço que não é fácil de resolver — não quero estar aqui a fazer aquele papel do sabichão — porque tem a ver com a própria crise de identidade. Se eu for escrever e não o fizer com um aparato técnico-mistificador, ninguém entende isto como ciência.

Quem segue o seu trabalho e a sua presença nas redes sociais, está ciente que uma das preocupações permanentes é essa crise das humanidades, que diz sempre ironicamente estarem “de rastos”. Já incluiu aqui um dos fatores para esse diagnóstico, que é esta hiperespecialização. Existem mais fatores?
Há um lado, de facto, de beco sem saída em muitos setores das humanidades. Há um outro problema e esse parece-me ser mais fácil de resolver, mas ao mesmo tempo é mais angustiante: temos muita gente no campo das humanidades a fazer trabalho de altíssima qualidade em Portugal e em diversos países mas que depois às vezes não passa a arrebentação para chegar ao grande público. E aí temos todos de trabalhar melhor, eu também tentei fazer o meu papel neste livro, chamando a atenção para muito desse trabalho que é feito. Quando se fala muito da polarização, do triunfo das redes sociais, do imediatismo, etc… há um papel muito importante de participação das humanidades nesse debate.

Se calhar esse problema é ainda mais agudo nas humanidades, mas vemos queixas semelhantes na restante comunidade científica. Por exemplo, as alterações climáticas e de como a comunicação científica não chega às pessoas.
Isso é o mais grave. É que quando digo que as humanidades estão de rastos, não é porque estejam piores — claro que estão, precisamente pelo triunfo do paradigma tecnocientífico —, mas porque as consequências disso são muito mais graves. Este é talvez um problema que só agora começámos a ter consciência. A primeira reação perante o triunfo do paradigma tecnocientífico foi “não há problema, porque as humanidades estão a perder prestígio mas também não servem para nada”. E aquilo que, como se costuma dizer numa expressão algo grosseira, nos “explodiu na cara” é precisamente a consciência de que as humanidades eram essenciais para que o paradigma tecnocientífico triunfasse, porque são, antes de mais nada, a perceção de como o conhecimento se constrói e de como é certificado. Nós, pessoas das humanidades, não compreendemos em geral a linguagem da ciência moderna, e os cientistas e técnicos da nova civilização parecem cada vez mais surpreendidos por problemas especificamente humanos que não esperavam encontrar. Uma parte da polarização política decorre desta fratura, estou inteiramente convencido.

As humanidades eram agregadoras do público?
Sim, porque faziam um trabalho simultâneo de fazer a leitura dos problemas associados ao comportamento humano, à decisão, aos valores humanos, mas também no sentido interior. Ou seja, as humanidades eram também um processo de autodescoberta e estimulavam-na. Não é por caso que a ideia muito cara ao mundo clássico que depois é redescoberta com o Renascimento é a do “conhece-te a ti mesmo”. E a ideia da sabedoria socrática é, antes de mais nada, primeiro um manifesto de ignorância segundo uma consciência de que é preciso conhecermos bem os nossos limites e a nossa tendência para raciocinar de forma errada e para cometer erros de avaliação. As humanidades eram essenciais nesse treino. Quando digo que as humanidades estão de rastos, não é tanto uma imputação à qualidade do trabalho que se faz, mas sim à importância que têm e que não é valorizada, com consequências. Estou à vontade para falar sobre isso porque o meu percurso começou por ser académico, mas depois até afastou-se um bocadinho mais e, na sua fase final, até derivou para a economia. Portanto, senti na própria pele o que é o fascínio por nos agarrarmos a coisas que, do ponto de vista imediato, o público vai receber com mais autoridade.

"Nós, pessoas das humanidades, não compreendemos em geral a linguagem da ciência moderna, e os cientistas e técnicos da nova civilização parecem cada vez mais surpreendidos por problemas especificamente humanos que não esperavam encontrar. Uma parte da polarização política decorre desta fratura, estou inteiramente convencido".

Quando nós olhamos para o nosso tempo como um tempo onde cada vez mais grassa um certo anti-intelectualismo, até um rejeitar das elites, isso é imputável em parte à tal crise das humanidades?
Sim, mas também é preciso ser justo e dizer que também temos prova dessas tendências no Renascimento e, mais tarde, no século XVIII. Simplificando muito, não é por acaso que, durante o Iluminismo, estes problemas voltam depois do primeiro movimento de abertura no século XVI. Há outra vez um problema de aproximar a vanguarda do conhecimento que estava a ser produzido nas universidades da sede do público por conhecimento que estava mais próximo da vida real das pessoas. Portanto, eu percebo que no anti-intelectualismo há uma tensão que às vezes é uma reação irritada e exasperada perante a desvalorização que se faz do cidadão comum. As pessoas em geral sentem que sabem coisas, e isso é verdade — o mecânico que conserta os automóveis sabe de coisas altamente técnicas e, em muitos casos, nem sequer foi para a universidade — podemos falar a mesma coisa na construção civil, em quem está no balcão de uma loja de roupa ou na caixa de um supermercado. As pessoas sentem-se desvalorizadas porque sentem que o conhecimento que acumulam não é valorizado e, por outro lado, sentem que há conhecimento que é valorizado que a elas lhes parece completamente inútil.

A que se deve isso?
A democracia deu dignidade a toda a gente e as pessoas agora querem essa dignidade, não querem ser só um número, não querem ser só um voto. É curioso como às vezes há essa raiva contra o comentador televisivo, a pessoa pergunta-se “porquê que não estou lá eu a comentar, o que é que aquela pessoa sabe mais do que eu para estar na televisão a falar sobre um determinado tema?”. E, de facto, as pessoas estão a levar essa promessa da democracia até às últimas consequências. Diria que isso até é uma situação clássica em que a democracia está a ser vítima do seu próprio sucesso. Deu condições, formou intelectualmente, até deu escolaridade, em alguns casos. E, portanto, as pessoas querem isso de volta. E há uma parte deste choque que tem a ver com isso. Por outro lado, é extremamente perigoso quando essa ambição generalizada da democracia não entende o papel das instituições que temos e de coisas que, à partida, não compreende. Isso leva ao desenvolvimento de um tique que todos temos em parte, mas que depois gera fenómenos mais visíveis nuns setores da sociedade do que noutros que é a ideia de que “o que eu não compreendo, não tem valor”. Isto é o fim da picada, porque é o fim da própria ideia de sede de conhecimento. É pensar “eu já sei tudo”.

A consequência seguinte e ainda pior, que é se uma determinada pessoa, por muito especialista que seja, discorda de mim, isso vale exatamente o mesmo. Este é um problema com o qual nós não estamos a conseguir lidar da melhor forma. Isso já começa a acontecer e, lá está, começou por ser nas humanidades mas não se limita a elas. Eram mais suscetíveis porque, se tratam valores humanos, que toda a gente compreende, e, se assim é, toda a gente pode ter um juízo sobre aquele assunto, porque é subjetivo. O problema é que isto está a começar a invadir tudo — agora há pessoas a dizer “eu sou o meu próprio médico”.

Obviamente que hoje em dia temos pessoas a aproveitar-se desse fenómeno, mas não há propriamente uma só causa que explique isto, ou há?
Não, eu acho que são muitas causas. Por isso é que eu falava da questão da democracia. A ideia da dignidade concedida a todos os cidadãos é também uma causa disto — e ninguém tem dúvidas de que essa foi uma causa nobre. É por isso é que eu digo que é preciso ter sempre muito cuidado com a história das fake news, porque depois a tentação é acabar com o problema, devolvendo a hierarquia cega. Isso foi o que vimos no século XVI, é que, por um lado, a imposição da hierarquia cega esmagou uma data de coisas com imenso valor. Por outro lado, há hoje algumas interpretações do que aconteceu nos Estados Unidos, da chamada revolta das elites, em que se criaram também expectativas ao nível da formação superior e o facto de a nova ordem económica, baseada na liberdade de consumo, não ter assimilado essas novas elites universitárias, fruto do pós-guerra – em grande medida especialistas em artes e humanidades –, fez com que se produzissem exércitos de ressentidos contra os regimes políticos democráticos. Estas elites, forçadas a criar o próprio emprego, produziram o jargão incompreensível ao serviço do radicalismo político ou pior ainda, da mera promoção da carreira; jogaram tudo no compromisso com uma certa ideia de justiça social, quando seria talvez mais útil ter apostado num compromisso com a própria educação. Do outro lado, os trabalhadores sem formação universitária começaram a afastar-se de um universalismo económico e político que parecia estar apenas ao serviço das grandes multinacionais.

A fratura do sistema intelectual e da própria ideia de Universidade deixou a sociedade sedenta de narrativas que possam dar sentido à vida finita das pessoas. E as pessoas foram em busca das narrativas mais apelativas. Umas regressaram à religião, outras ao reacionarismo mais descabelado. A democracia pressupunha um exigente perfil de cidadania que estava em construção e parece ter sido engolido pela competição em mercados de ideias cada vez mais ferozes. A verdade é que a promessa da participação democrática não devia esgotar-se no voto e continua a ser escassa para um grande número de pessoas. Se, por um lado, a profissionalização da política nos libertou, por outro, parece ter agravado o problema da representação, que era já em si mesmo um problema bastante bicudo. A grande ilusão da descentralização democrática prometida pelas redes sociais apenas inflamou ainda mais a raiva contra aqueles que são vistos como provenientes de uma “elite política e mediática”. Não há nada mais cómico do que ver multidões de pessoas a vociferar contra um pobre comentador ou político licenciado em humanidades — visto como pessoa privilegiada — no mesmo momento em que ajoelham perante pessoas com fortunas colossais, com acesso direto aos políticos mais influentes do mundo, e com capacidade para interferir na vida de milhões de pessoas.

▲ Séneca, um dos filósofos estóicos mais populares da atualidade, retratado no momento do seu suicídio.

Wellcome Library, London

Ou seja, culpam-se as elites erradas?
Repare, haverá maior prova de como a filosofia do mercado livre e do valor da tecnologia se converteu numa religião? Não sou eu que o digo, é Adam Smith. Na verdade, acho que um dos maiores desafios em qualquer época é ganhar consciência da água ideológica onde nadamos — para citar o famoso e belíssimo texto de Foster Wallace — e isto sem enlouquecer pelo meio. Estou sempre a repeti-lo, mas no Romeu e Julieta a diferença entre comédia e tragédia é cerca de um minuto e meio, quando o mensageiro se atrasa e provoca involuntariamente o equívoco sobre a aparente morte de Julieta. Romeu desespera por ignorância da realidade e uma perceção errada do que está a acontecer. Não será a nossa atual obsessão com a comédia uma reação histérica perante a consciência do desastre? Estreou há pouco tempo uma série que tem como premissa um mundo onde é proibido rir. Já passámos por isso nestes últimos séculos de história. Algumas sociedades ainda passam por isso, sobretudo em matéria de religião ou poder político. Mas o que parece caracterizar a nova era no Ocidente é a ascensão do humorista como grande diretor espiritual. Claro que isso nos trará claros benefícios, exercitar o diafragma, agilizar os pulmões, combater a melancolia. Não podemos é depois ficar surpreendidos quando se esbatem as diferenças entre o verdadeiro e o falso ou quando a distorção das imagens se cultiva com implacável perícia, pois essa é a arte suprema do humorista.

E se fosse proibido rir em Portugal? “Ruído”, a nova série de Bruno Nogueira

No tempo que descreve em A Corte das Mulheres, liam-se os antigos como parte de uma boa educação e forma de alargar o conhecimento. Hoje, parece ser para encontrar conselhos dos estóicos como Séneca ou Marco Aurélio de como prosperar numa era de competição. Num e noutro caso, parecemos sempre dependentes do saber passado para nos orientarmos para o futuro. O que mudou?
A prova de que isto não é apenas um delírio de investigadores em história, literatura e das humanidades em geral é esta voragem dos públicos leitores, aparentemente paradoxal, com a redescoberta das grandes filosofias antigas. Desde logo a figura algo mítica de Sócrates — o interrogador da sociedade ateniense, bem entendido —, que era também um veterano de guerra, dedicando-se depois a colocar o problema do autoconhecimento e da desconfiança sobre quem se arrogava não ter dúvidas sobre técnicas ou opiniões políticas. Mas sobretudo o estoicismo, nascido dessa corrida às formas populares de autoajuda do império romano. Em grande medida, essa corrida é hoje liderada pelos gurus dos movimentos tecnológicos, o que só pode motivar uma certa gargalhada. O que diria a Marguerite Yourcenar de As Memórias de Adriano, ao ver o século XXI, apetrechado com a IA e os LLM [Large Language Model, ou modelos de linguagem de grande escala], a correr para ouvir os conselhos dos imperadores perdidos na vastidão das províncias, cansados do luxo, dos banquetes, da infinita disponibilidade dos prazeres, confusos pela multidão das línguas e das gentes, e o comércio de tudo o que um humano podia sonhar, tendo ao alcance da mão a possibilidade de enviar legiões implacáveis arrasar cidades e aldeias do Oriente; imperadores recolhidos na solidão das suas casas marítimas, desesperados por aprender a filosofia ou tocar a lira, a balbuciar receitas para aplacar a dor e a angústia?

Talvez seja excessivo imaginar os tech lords a lacrimejar na solidão humana da sua exuberante riqueza. Contudo, não será isso um cenário plausível? Não será essa uma lição amarga? A ética da competição, na medida em que apela a uma mítica do vencedor, do herói olímpico, apela também a desejos muito fundos da nossa psicologia. A dada altura os escaparates das livrarias estavam cheios de adaptações da Arte da Guerra de Sun-Tzu às mais diversas profissões: A Arte da Guerra para treinadores, a Arte da Guerra para chefes de cozinha, a Arte da Guerra para apresentadores do telejornal, a Arte da Guerra para condutores de táxi, etc. É indiscutível que a competição aguça os sentidos e a pressão da derrota põe de sobreaviso contra os males da preguiça, mas também é verdade que, numa competição, muitos são os participantes e apenas um vence, o que parece estar muitas vezes em contradição com os alegados benefícios gerais da concorrência. Bem sabemos, nem tudo é um jogo de soma-nula. Contudo, isso é fraca consolação para quem se levanta todos os dias às cinco da manhã, rebenta com o corpo a trabalhar e chega a casa às nove da noite, ganhando o salário mínimo, e no fim é convidado a “votar com responsabilidade”. Nesse sentido, o que esse súbito fascínio pela literatura estóica nos diz é que a formação técnica — entendida hoje como ciência prática, da medicina à engenharia — se torna cada vez mais a via única para a sobrevivência profissional, mas deixa de fora questões essenciais para todos nós. Tendemos a esquecer que todos os saberes comportam uma parte técnica, da poesia à dança, passando pela história e a filosofia, assim como todas as ciências possuem uma estrutura metafísica — da matemática e da física à ciência da computação, a mais abstrata de todas as ciências — e por isso, o que a sobrevivência de Séneca, Marco Aurélio, ou Cícero nos diz é que talvez não seja bom conselho rir tanto da má sorte das Humanidades.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.