Mais de dez horas depois do ataque a Caracas que resultou na captura do Presidente da Venezuela, Donald Trump apresentou a necessidade de “levar Nicolás Maduro à Justiça” para justificar uma ação que mais “nenhuma nação do mundo podia fazer”. Numa longa conferência de imprensa, o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) explicou que os norte-americanos vão governar o país sul-americano durante o período necessário para haver uma “transição pacífica” e focados no petróleo. Depois? Dificilmente virá Corina Machado, adiantou Trump.
“Nós vamos governar o país até que seja possível fazer uma transição segura, adequada e criteriosa. Não queremos estar comprometidos com a entrada de mais alguém e estamos na mesma situação dos últimos anos. Por isso, vamos governar o país o tempo necessário”, explicou o Presidente dos EUA. Para o líder, a preocupação é garantir a “paz, liberdade e justiça” do “grande povo da Venezuela”, o que inclui a extensa diáspora no estrangeiro.
Na parte final da conferência de duas horas, Trump respondeu às questões dos jornalistas sobre quem seria o líder norte-americano nesse período de transição. Acompanhado de Pete Hegseth e Marco Rubio, Secretário de Defesa e Secretário de Estado dos EUA, respetivamente, o Presidente norte-americano não detalhou outros nomes, apenas que existirá uma “equipa” a trabalhar com os venezuelanos para garantir que corre tudo bem.
Neste momento, os EUA estão a “nomear pessoas” para governar a Venezuela e fazer a Venezuela “grande novamente” — Trump adaptou o seu slogan do MAGA [Make America Great Again] para o país sul-americano. “Vamos liderá-la com um grupo e vamos garantir que é governada em condições”. Ao longo do discurso, o Presidente dos EUA manifestou várias vezes a preocupação com a extração de petróleo venezuelano que foi negligenciado nos últimos tempos. “Durante algum tempo, o negócio do petróleo foi um embuste”.
“Construímos a indústria petrolífera venezuelana com talento norte-americano e o regime socialista roubou-o através da força”, acrescentou, aproveitando para tecer críticas às administrações anteriores que, antes da sua administração, nada terão feito para impedir esta realidade. “Eu teria feito alguma coisa”, desabafou. Assim, os EUA vão “extrair enorme riqueza do solo” venezuelano e que essa “riqueza” terá como destino “o povo da Venezuela” e todos os que tiveram que sair do país. Também os americanos sairão a ganhar, já que, como assumiu Trump, vão receber alguns destes ganhos “como forma de reembolso pelos danos causados”.
Imagens reveladas por Trump do momento em que os norte-americanos acompanhavam o ataque em Caracas
Sobre o período de transição, durante o qual a Venezuela será gerida pelos EUA, Trump disse que espera que seja “rápido”, mas que deverá levar “um certo tempo”. “Vamos reconstruir infraestruturas, o petróleo é uma substância perigosa de extrair. (…) Estamos no negócio do petróleo. Vamos vendê-lo, provavelmente em quantidades muito maiores. Vamos vender quantidades maiores a outros países, muitos já o estarão a comprar, mas outros virão depois”, esclareceu, depois de ser questionado sobre as ligações da China e da Rússia à Venezuela.
Para o líder dos EUA, os venezuelanos finalmente terão “paz, segurança, justiça e um verdadeiro país”, com acesso a “algumas das riquezas” que lhes foram roubadas pelos últimos presidentes. “O maior beneficiário” da extração do petróleo, garantiu, será o povo da Venezuela — e, para isso, os EUA admitem ter tropas no terreno para garantir que não há retrocessos neste processo.
“Em décadas anteriores, outras administrações negligenciaram ou até contribuíram para o crescimento destas ameaças de segurança no hemisfério Sul. Com a administração Trump, estamos a reafirmar o poder americano de uma forma poderosa. (…) Vamos manter a segurança das nossas fronteiras e defender os nossos cidadãos”, assumiu.
Rubio também tomou a palavra para elogiar o Presidente. “Quando ele diz que vai resolver um problema, ele fala a verdade, é um Presidente de ação”. Maduro, disse o Secretário de Estado, teve “várias oportunidades” pacíficas para desistir do poder antes desta operação. “Espero que esta lição tenha sido aprendida na última noite”.
Trump diz que Maduro tentou escapar, mas não conseguiu. Agora, vai “enfrentar todo o poder da Justiça americana, em solo americano”
Quanto a Maduro, Trump esclarece que o até agora líder da Venezuela tentou fugir pela porta para escapar à ação dos militares, mas não conseguiu. “Ele estava a tentar chegar a um local seguro [quando as forças americanas o viram], mas não conseguiu. Chegou à porta, mas não conseguiu fechá-la”. Para já, o venezuelano segue com a mulher a bordo do Iwo Jima (um porta-aviões norte-americano) e deverá ser transportado até Guantánamo, onde deve seguir de avião até Nova Iorque para passar a noite na prisão.
Em Nova Iorque ou na Florida, adiantou Trump, o casal vai “enfrentar todo o poder da Justiça americana, em solo americano”. Também presente na conferência de imprensa, o general Dan Caine, chefe do Estado-maior Conjunto do EUA, disse que Maduro e Cilia Flores “desistiram” face à entrada dos militares norte-americanos na sua habitação.
Trump revelou que recentemente teve conversas com Maduro onde explicou que o venezuelano não teria outra alternativa que não a rendição. “Não quero entrar em detalhes, mas tive conversas com ele e disse-lhe: ‘Tens que te render’. E achei que ele estava perto de fazê-lo… agora ele gostaria de tê-lo feito”, relatou, sem especificar quando aconteceu essa última chamada entre os dois.
Por enquanto, sem outro líder definido, a até aqui vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente o papel da presidência. “Não há ninguém para assumir o poder. Há uma vice-presidente escolhida por Maduro e agora é a Presidente. Ela teve uma longa conversa com o Marco [Rubio] e disse ‘vamos fazer o que precisarem’. Ela não tem hipótese”.
Face à dúvida entre quem poderá assumir a liderança do país sul-americano, surgiu, naturalmente, o nome de María Corina Machado, recém-vencedora do prémio Nobel da Paz. Mas, para Trump, a venezuelana exilada dificilmente será opção. ““Acho que será muito difícil para ela ser a líder [da Venezuela]. É uma mulher muito simpática, mas não tem apoio ou respeito dentro do país”.
Até surgir alguém adequado, o Presidente dos EUA assumiu que não haverá problema em gerir a Venezuela durante “vários anos”. “Não nos vai custar nada, porque o dinheiro a sair do chão é considerável. (…) Queremos segurança lá, mas vamos reconstruir e não vamos gastar dinheiro”. Os norte-americanos serão “reembolsados” por todo o dinheiro que gastaram a construir infraestruturas para extrair petróleo da Venezuela, assegurou, num discurso muito focado nos recursos venezuelanos que, como explicou Trump, serão explorados por empresas dos EUA.
“Uma missão sem precedentes”. Venezuela sabia da chegada de tropas norte-americanas, mas nada conseguiu fazer
Donald Trump foi o primeiro a exaltar os feitos da sua administração na ação em solo venezuelano. Mas não foi o único. “Ontem à noite e hoje de manhã, sob a minha direção, as Forças Armadas conduziram uma missão importante na capital da Venezuela”, começou por dizer no arranque da conferência de imprensa. “Nenhuma nação do mundo podia fazer o que os EUA fizeram ontem”.
“Eles sabiam que nós íamos chegar”, mas não tiveram capacidade de fazer frente à força norte-americana, disse, lembrando que a missão não resultou em vítimas mortais para os militares norte-americanos, nem em danos para os equipamentos militares. “Somos, de longe, a força militar mais poderosa e temível do mundo. (…) Não há equipamentos como os nossos”. Trump acompanhou a missão em direto.
Fotogaleria. As imagens de Donald Trump a assistir em direto à detenção de Nicolás Maduro
O poderio norte-americano poderia ter sido renovado com uma segunda vaga de ataques — “muito maior” —, que estava planeada e pronta a executar, mas acabou por não ser necessária devido ao sucesso da primeira, que resultou na captura de Maduro. “Assumimos que uma segunda vaga seria necessária, mas provavelmente não será necessária. A primeira foi tão bem sucedida que não será preciso uma segunda, mas estávamos preparados para isso”.
Tal como Trump, Pete Hegseth, elogiou o trabalho dos militares. “Os nossos guerreiros são a elite americana” e tornaram possível um ataque com total “coordenação”, “discrição”, “letalidade” e “precisão”. “Isto é sobre a segurança, a liberdade e a prosperidade dos americanos. (…) A América está de regresso”, disse.
O general Dan Caine revelou alguns detalhes da operação — sem prejudicar a segurança dos militares envolvidos — que contou com “todas as componentes das Forças Armadas” (por terra, ar e mar) e mais de 150 aeronaves. O chefe do Estado-maior Conjunto do EUA reiterou a “precisão e a discrição” da missão que tinha como objetivo “levar Maduro à justiça”.
“Uma missão sem precedentes” conseguida graças aos anos de experiência dos norte-americanos e que contou com a colaboração da CIA. Era, admitiu, uma missão “ousada” que “só os EUA poderiam conseguir”. “Tudo se juntou, tempo e lugar, com um simples objetivo”. Os americanos, destacou o general, conseguiram colocar em prática o “efeito surpresa” essencial para a operação. “Depois de meses de trabalho dos nossos serviços para encontrar Maduro e perceber como se movia, onde vivia, onde viajava, o que comia, o que vestia, quais eram os seus animais de estimação”.
“No início de dezembro” as forças americanas reuniram-se para, tendo em conta vários fatores, “escolher o dia certo para diminuir o impacto nos civis e potenciar o efeito surpresa”. Mesmo durante o Natal e a Passagem de Ano, acrescentou, os militares estiveram prontos para levar a cabo a missão que foi possível esta noite por estarem reunidas as condições meteorológicas ideais.