O encontro entrava nos descontos, o V. Guimarães não deixava de acreditar, o Sporting mesmo de rastos ia conseguindo colocar Charles como o centro de tudo o que acontecia em Leiria. Até esse momento, a par do inevitável Luis Suárez, o guarda-redes brasileiro era a figura do jogo. Em menos de dez minutos, esse papel de MVP mudou de mãos: Alioune Ndoye, senegalês de 24 anos que na última temporada esteve emprestado pelo FK Valmiera ao Servette, saiu do banco para bisar nos descontos e promoveu um autêntico golpe de teatro no Dr. Magalhães Pessoa, deixando os leões fora da final da Taça da Liga – Allianz Cup.

O que mais Ndoye é perder tudo e todos por culpa própria (a crónica do Sporting-V. Guimarães)

Pela primeira vez os minhotos chegaram à decisão da prova, regressando a uma final como já não acontecia desde 2017. Depois da goleada sofrida no Estádio Dom Afonso Henriques há duas semanas, Luís Pinto teve a sua “vingança” em Leiria, um local que lhe continua a ser querido no panorama nacional: foi ali que fez a estreia como treinador dos leiriense em 2018, foi ali que se sagrou campeão da Segunda Liga pelo Tondela na última época, é aqui que vai disputar a sua primeira final da carreira com a segunda reviravolta conseguida nesta competição depois do triunfo frente ao FC Porto nos quartos (3-1). Contas feitas, há cinco décadas que os minhotos não conseguiam vencer leões e dragões na mesma taça nacional.

Da parte do Sporting, além de uma derrota que confirmou não só os maus resultados contra as equipas que estão melhor colocadas no Campeonato e que voltou a ser escrita depois da vantagem inicial conseguida na primeira parte, os males de Rui Borges não ficam circunscritos à derrota que afastou a equipa verde e branca de mais um objetivo: com Pedro Gonçalves, Nuno Santos, Debast, Geovany Quenda, Ricardo Mangas e Salvador Blopa lesionados, com Geny Catamo (que entretanto foi eliminado) e Diomande na CAN e com Gonçalo Inácio castigado, o técnico perdeu Ioannidis e Eduardo Quaresma num só encontro, com a situação do central a correr o risco de deixar o internacional Sub-21 de fora durante várias semanas. E, no final, apesar do regresso de Daniel Bragança à ficha de jogo e da estreia de Luís Guilherme pelos leões, esse era um lamento quase tão grande como uma derrota com dois golos consentidos nos descontos.

“Foi um jogo competitivo e difícil de início ao fim. O V. Guimarães acreditou até ao final e acabou por ser feliz nesse sentido. Na segunda parte podíamos ter feito o 2-0 e não conseguimos, também por mérito do guarda-redes adversário. Estou triste porque parece um caso de estudo. Saímos daqui com mais duas lesões e deixa-me triste, tem-nos acontecido de tudo… Mais do que termos sido penalizados no final do jogo, foi o facto de termos perdido mais dois jogadores. Não é difícil, mas bate, bate que amassa. Fiquei sentido com a saída dos dois. Triste porque o Edu pode ter alguma gravidade mas é futebol. É levantar a cabeça, dar os parabéns ao adversário. Queríamos muito estar na final mas é continuar caminho”, disse à SportTV. De acordo com informações recolhidas pelo Observador, Eduardo Quaresma foi hospitalizado, vai passar a noite internado e existe a forte suspeita de que tenha sofrido uma fratura, o que levará a uma ausência longa.

“O V. Guimarães veio com uma pressão diferente do que tem feito e do que fez em casa. Devíamos ter procurado mais passes longos, sempre que furávamos a primeira linha de pressão do V. Guimarães tínhamos espaço. Foram grandes defesas do guarda-redes do V. Guimarães. Podíamos ter feito o 2-0 mas agora é dar os parabéns ao adversário. Até onde vai a resiliência do Sporting? O grupo já demonstrou que a resiliência é enorme. Há muito Campeonato ainda, temos muito caminho pela frente. Estamos tristes por não disputarmos uma final que queríamos muito e agora é esperar que quem está de fora consiga recuperar porque precisamos de todos. Temos alguns dias para recuperar e respirar um bocado mas queríamos muito estar na final. Queremos regressar às vitórias já no próximo jogo”, acrescentou nesse espaço Rui Borges.

“É difícil, é algo que parece de estudo. Hoje, pela primeira vez, sinto-o mais. Acredito também que a equipa sinta isso. É impossível, mais que sejamos positivos e otimista, custa ver tanta gente de fora… Mas jamais servirá de desculpa. Podíamos ter feito o 2-0, não fizemos, o adversário acreditou até ao final e acabou por ser feliz. Pressão extra? A pressão no Sporting é diária, apesar de não termos conseguido atingir um objetivo. A pressão é sermos melhores e ganharmos sempre. Mais do que os resultados, acredito que mexa tudo o que nos tem acontecido. Nós, enquanto equipa técnica, temos de levantar os jogadores, que veem tantos companheiros de fora. Temos de focar no que falta jogar. Ainda falta toda uma segunda volta. Só assim poderemos continuar focados nos objetivos”, disse depois o treinador na conferência de imprensa.

“Não é a quantidade de lesões musculares que nos põe os jogadores de fora, são coisas que não podemos controlar. A minha maior tristeza é sair daqui hoje com menos dois jogadores para o próximo jogo. Por mais que eu seja otimista, é impossível que eu não o sinta, assim como a equipa. São coisas traumáticas, não musculares, e temos de seguir caminho. A linha vermelha é sentir que há cansaço acumulado e hoje sentiu-se na energia da equipa. Quanto ao mercado, daí eu ter dito que é caso de estudo porque em termos de lesões, é inacreditável o que nos tem acontecido. Hoje foram mais duas substituições por lesão. Não serve de desculpa, atenção. Mas às vezes é difícil para nós, mesmo que sejamos positivos, e eu sou muito. A do Edu parece-me um pouco mais grave. Mercado? Não podemos ir sempre ao mercado só porque temos lesões porque depois temos 40 jogadores para treiná-los…”, voltou a enfatizar.

“Agora? Para já, vou tentar lutar por tudo o que estamos dentro ainda: o Campeonato e a Taça. Ainda falta muito jogo, muito ponto para ser disputado. O nosso objetivo é fazer uma segunda volta ainda melhor do que a primeira. Quem vai em primeiro [FC Porto] está a fazer um Campeonato fora do normal. Estamos focados e concentrados naquilo que queremos. Queríamos muito disputar a final da Taça da Liga, não conseguimos e há que dar mérito ao adversário por acreditar até ao final. A energia não está lá e é notório em termos coletivos. É normal que ninguém esteja contente porque este clube quer estar sempre a disputar os títulos. Desconfiança dos adeptos não acredito, mas tristeza sim”, concluiu Rui Borges.