Acaba por ser quase uma (in)justiça poética, uma ironia que nem todo o sarcasmo podia inventar. Entre os comentários que se foram multiplicando depois do despedimento de Ruben Amorim do Manchester United horas depois da conferência de imprensa “explosiva” que se seguiu ao empate em Leeds, aquele que mais “partilhou” a culpa do insucesso por mais pessoas acabou por ser Gary Neville, o internacional e capitão dos red devils que foi utilizado pelo técnico como exemplo paradigmático dos comentadores que atiravam ideias através dos seus canais para quase dirigir o clube de fora para dentro. E já deixou também a receita para esse futuro que se segue enquanto o ex-companheiro Darren Fletcher orienta a equipa de forma interina: voltar às origens de tudo, entre reparos que continua a fazer a um sistema que “até entusiasmava” o antigo defesa.
“Achei que o Manchester United se ia adaptar muito melhor ao sistema de três centrais. É um sistema difícil, a posição de ala é desafiante. Quem joga atrás do avançado também tem papéis difíceis. Há posições muito especializadas. Mas essa é falha do treinador, dos jogadores e do clube. Não contrataram jogadores adequados. Agora, é preciso parar com as experiências. Há um vídeo muito bom onde Bobby Charlton explica o que é o Manchester United: um clube aventureiro, entusiasmante, que aposta em jovens, que anima os adeptos. É preciso arriscar e jogar um futebol ofensivo. O clube precisa de contratar um treinador que encaixe no ADN do Manchester United. O Ajax nunca muda por ninguém, o Barça nunca muda por ninguém. Precisam de um treinador experiente, de alguém que entusiasme e que volte ao sistema de quatro defesas com laterais que possam subir e atacar. Mas estou surpreendido por ver que os três centrais não resultaram, até estava entusiasmado”, referiu na Sky Sports, depois de longas semanas de críticas… ao 3x4x3 da equipa.
Apesar de ser uma espécie de crónica de uma “morte” anunciada, continuam a sair na imprensa inglesa mais pormenores sobre aquilo que se passou na antecâmara da saída de Ruben Amorim do Manchester United. Os bastidores, esses, confirmam algo que já se tinha percebido: o empate frente ao Wolverhampton no dia em que voltou à linha de três na defesa, a reunião com o diretor de futebol Jason Wilcox na passada sexta-feira e a conferência de imprensa que se seguiu ao empate em Leeds foram as últimas gotas de água de de 14 meses onde faltaram resultados e onde a teimosia e a convicção se entrelaçaram à volta do “sistema”. Mas havia mais para contar a propósito do dia em que o português ficou a conhecer que já não era o “treinador”.
Como conta o The Athletic, assim que foi informado pelo CEO Omar Berrada e por Jason Wilcox de que não era mais o “head coach” do Manchester United (algo que seria sublinhado no comunicado tornado público na manhã desta segunda-feira), Ruben Amorim colocou todos os pertences que tinha no centro de treinos de Carrington numa caixa, disse adeus às pessoas que estavam no edifício e deixou com celeridade o espaço. Os jogadores chegaram depois, quando os adjuntos estavam a fazer o mesmo. “Onde está o mister?”, terão perguntado. “Em casa”, responderam. Fim de capítulo no clube, últimos minutos das derradeiras 72 horas caracterizadas como “tumultuosas” mas que levarão ainda a uma compensação de dez milhões de libras (cerca de 11,5 milhões de euros) ao treinador e toda a restante equipa técnica que está de saída.
Ao longo desse artigo, que detalha a tensão vivida na sala onde Amorim e Wilcox se reuniram na sexta-feira, a publicação acrescenta que o próprio Jim Ratcliffe, dono da INEOS que adquiriu 25% do capital social do clube para ficar responsável por essas vertentes, já tinha também expressado o seu desejo de ver o United com outro figurino tático (ao contrário da família Glazer, principal proprietária dos red devils que só queria resultados melhores) e que David Gill, antigo chefe executivo do clube, tinha expressado as suas dúvidas sobre a capacidade que o português teria para inverter o rumo da equipa. Mais: a relação entre Amorim e Christopher Vivell, diretor do departamento de scouting, também não era propriamente a melhor.
Noutras publicações, como o The Telegraph, Wilcox é definido como alguém que tentou sempre resolver os problemas para “facilitar” a vida de Ruben Amorim mas que estaria também a ser pressionado pelo próprio Ratcliffe para que o sistema tático do Manchester United evoluísse num outro sentido. É por isso que, apesar de ser um defensor de equipas que apresentam formações em 4x3x3 com cariz ofensivo como o Manchester City fazia nas melhores versões com Pep Guardiola e de seguir de forma frequente as sessões de treino da equipa, Wilcox só terá discutido diretamente a parte tática com Amorim no final da semana passada. Tocou onde não podia ter tocado e, logo aí, o treinador terá dito ao dirigente para entrar em contacto com o seu agente porque estava de saída do United. Várias fontes foram confirmando que nunca em 14 meses se viu uma postura de Ruben Amorim como aquela que teve a partir desse momento em termos internos.
“Ele tornou-se muito mais volátil e reativo em termos emocionais nas últimas semanas”, referiu uma fonte ao jornal inglês. “Achou mais difícil receber o tipo de feedback que estava a receber regularmente nos últimos 14 meses”, acrescenta, antes de voltar a essa semana antes do encontro com o Wolverhampton, pior equipa da Liga que contava apenas com dois empates quando jogou em Old Trafford (e que tinha sido goleada pelos red devils na primeira volta por 4-1): o 4x4x2 com que o United enfrentou a segunda parte no empate a quatro com o Bournemouth deu esperança interna de que a equipa melhorasse em termos ofensivos, o 4x2x3x1 com Dorgu como extremo mostrou que era possível vencer o Newcastle sem sofrer golos mas, após dois treinos antes do encontro sempre com uma linha a quatro, o regresso ao 3x4x1x2 com o Wolves (porque não tinha Mason Mount, lesionado) e as substituições na partida deitaram essa mudança de rumo por terra.
Se Jim Ratcliffe me pediu para mudar o sistema? Não, não, não… Ninguém. Nem o Papa vai mudar… Isto é o meu trabalho, a minha responsabilidade, a minha vida. Não vou mudar. Se fosse jogador e visse um treinador que, com muita pressão e toda a gente a dizer que é preciso mudar o sistema, decidisse mudar, olharia para ele de forma diferente. Tenho de fazer as coisas à minha maneira. Tudo é importante quando se pensa no impacto que uma decisão. Espero ter tempo para mudar mas será uma evolução”, apontara Ruben Amorim em setembro.
“Foram-lhe dadas as ferramentas, a plataforma e a oportunidade para evoluir mas foi prejudicado pela falta de vontade de se adaptar, apesar das garantias de que o faria desde o início”, revelou a mesma fonte ao The Telegraph. Todos tinham a sua sentença em relação à melhor forma de chegar ao sucesso. Questão: as armas para as quais o português olhava também não foram propriamente aquelas que chegaram a Old Trafford.
O cenário que começava a ser delineado em termos de mercado de inverno também ajudou a que a corda fosse esticada e partisse para o lado do treinador mas, no verão, apesar dos quase 250 milhões de euros que foram investidos basicamente em quatro jogadores, o plano era diferente. Exemplo prático: Amorim, a par de Wilcox, chegou a jantar em Londres numa operação de charme para tentar contratar Antoine Semenyo, o Bournemouth não baixou a fasquia dos 70 milhões de libras e só aí surgiu o cenário mais poupado de Bryan Mbeumo, do Brentford – que deveria custar 55 milhões de libras mas que foi fechado por 65 milhões mais seis por objetivos. Agora, em janeiro, nem o internacional ganês teve pressa em “atender” o United (até por saber do interesse do City), nem o United tinha pressa em “atender” o desejo de Amorim, explicando que os grandes investimentos no plantel deveriam ser feitos apenas no próximo verão e não neste mercado.
Mas houve mais. Na altura de escolher um avançado, e com Viktor Gyökeres descartado tendo em conta esse compromisso há muito assumido com o Arsenal, estavam em cima da mesa dois nomes fortes na seleção final: Ollie Watkins e Benjamin Sesko. Ruben Amorim preferia o primeiro. Sim, tinha 29 anos, mas levava consigo experiência de Premier League, tinha assegurado mais de 30 golos e assistências por época nas duas últimas temporadas do Aston Villa e não necessitava de qualquer adaptação. Quem chegou? O esloveno, por mais de 75 milhões de euros e um período longo de adequação à nova vida também pelos seus 22 anos. Na baliza, mais do mesmo: Amorim pedia a experiência de Emiliano Martínez, que era uma condição fulcral para estabilizar em definitivo a equipa no plano defensivo, o clube acabou por seguir a ideia de Tony Coton, chefe do scout de guarda-redes do clube, que via em Lammens alguém mais novo, mais barato, com salários mais baixos e com maior potencial de crescimento. Contas feitas, Matheus Cunha foi o único “consensual”.
O The Guardian opta por um outro ângulo e, de acordo com um executivo contactado, destaca aquela que é uma das principais falhas na estrutura do Manchester United: não ter dados suficientes sobre treinadores. “São dados descritivos, não preditivos, porque os técnicos não controlam diretamente o que acontece em campo”, explica. “O que podem dizer os dados? 1) conseguiram ser melhores do que era esperado na liga onde estavam? 2) o futuro treinador enquadra-se naquilo que é o perfil do clube? Ou seja, que orçamento tem em comparação com as outras equipas – sendo que ter um desempenho acima com um orçamento mais curto não significa necessariamente ter o perfil para o United; 3) já demonstrou que pode desenvolver os jogadores jovens do clube? 4) como é que quer jogar e essa forma enquadra-se no estilo do clube?”.
Recuperando tudo aquilo que Ruben Amorim conseguiu fazer no Sporting, o mesmo executivo aponta para uma “red flag” que devia ter sido tomada em linha de conta. “Ele peca no ponto 4. O pragmatismo acaba por ser subestimado ao mais alto nível. Tens um sistema mas, se não estiver a funcionar, é preciso fazer trocas a curto prazo. Os fundamentalistas não costumam ser bons. Se o United perguntou [na entrevista] ‘Vais mudar o 3x4x3’ e ele disse ‘Não’, isso deveria ter sido um alerta para procurar outros técnicos”, defende. “Amorim caiu na armadilha da maioria dos treinadores: pensar que é o seu sistema e as suas ideias que podem levar ao sucesso esquecendo o mais básico que é colocar os melhores nas suas melhores posições”.
Aqui entronca o principal problema do Manchester United a breve prazo: como se consegue acertar depois de erros tão claros nas escolhas recentes que foram feitas? “O clube tem vindo a tomar uma série de decisões reativas e precipitadas”, admite uma fonte próxima dos red devils. O The Athletic, num outro artigo, também recorda aquilo que tinham sido as declarações do próprio Jim Ratcliffe em outubro, numa entrevista ao The Times: “O Ruben precisa demonstrar que é um grande treinador nos próximos três anos”. “Ratcliffe tinha razão por considerar que o sucesso não aparecer da noite para o dia no futebol mas o falhanço também não é tolerado durante muito tempo”, acrescenta, recordando os 38% de vitórias (32% na Premier).
Agora, a sucessão voltará a estar nas mãos de Omar Berrada e Jason Wilcox, que não estava no clube quando Ruben Amorim foi contratado. Darren Fletcher foi o escolhido para agarrar de forma interina na equipa, até pelo passado como jogador e por conhecer bem o clube. No entanto, há dois cenários em cima da mesa: ou assegurar uma figura que leve a equipa até ao final da temporada antes da chegada de um novo timoneiro ou apostar já num sucessor direto de Amorim. Na hipótese inicial, além de Fletcher, existem hipóteses como o regresso de Ole-Gunnar Solskjaer; na segunda, Oliver Glasner (Crystal Palace) e Gareth Southgate (livre desde que deixou a seleção inglesa) lideram duas correntes onde entram outros nomes com experiência de Premier League como Andoni Iraola ou Enzo Maresca (Unai Emery será um desejo inalcançável).