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Ruben Amorim deixa Old Trafford com o Manchester United na sexta posição da Premier League, a três pontos dos lugares da Champions
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▲Ruben Amorim deixa Old Trafford com o Manchester United na sexta posição da Premier League, a três pontos dos lugares da Champions

Zohaib Alam

▲Ruben Amorim deixa Old Trafford com o Manchester United na sexta posição da Premier League, a três pontos dos lugares da Champions

Zohaib Alam

Guerras internas, despedimentos, realidades paralelas, proscritos e a derrota do "sistema": as 14 cruzes que levaram ao fim da era Amorim

Ruben Amorim foi escolhido por uma ideia, Ruben Amorim caiu com essa ideia – uma ideia na qual só ele já acreditava. Para a história fica o pior registo em 53 anos e uma relação marcada por enganos.

A última conferência de imprensa de Ruben Amorim soava a despedida, a pontualidade britânica da Direção do Manchester United confirmou esse cenário logo na manhã seguinte – e com esse apontamento de fazer a contradição ao que o técnico tinha dito como nunca fizera antes em 14 meses, falando do português como o “head coach” (treinador principal) e não como manager. A ideia de esticar a corda sabendo que a mesma iria partir para o seu lado mais não foi do que um acelerar de algo que iria sempre acontecer. Depois das nove experiências menos conseguidas (embora com resultados diferentes, entenda-se) na sequência da saída de Sir Alex Ferguson, o antigo treinador do Sporting foi “mais um” mas com resultados que o deixam como o pior treinador do clube em termos de percentagem de vitórias dos últimos… 53 anos (38%).

Ruben Amorim esticou a corda, criticou (quase) tudo e todos, marcou posição. Umas horas depois, foi despedido

Houve de tudo um pouco. Guerras internas que, no final, promoveram um choque frontal do técnico com o diretor desportivo e o responsável pelo departamento de scouting. Despedimentos sucessivos em várias áreas do clube entre muitos outros cortes que pretendiam reduzir as despesas de um clube que deixou de ganhar em campo. Realidades paralelas entre um clube a anos luz dos principais rivais que apresentava projetos de novo estádio e demais infraestruturas acima de todos os rivais. Jogadores proscritos que outrora tinham ascendido a “meninos queridos” de Old Trafford mas não convenceram o técnico pelo que faziam no treino longe de tudo e todos. A derrota de uma ideia e do “sistema”, numa visão que convenceu o Manchester United há 14 meses mas que agora era defendida apenas pelo treinador. Houve de tudo um pouco até a este último capítulo que para muitos era uma questão de tempo. No final, esta foi uma relação de “enganos”.

epa12618464 Manchester United's manager Ruben Amorim reacts during the English Premier League match between Manchester United and Wolverhampton Wanderers, in Manchester, Britain, 30 December 2025.  EPA/ADAM VAUGHAN EDITORIAL USE ONLY. No use with unauthorized audio, video, data, fixture lists, club/league logos, 'live' services or NFTs. Online in-match use limited to 120 images, no video emulation. No use in betting, games or single club/league/player publications.

▲ Ruben Amorim foi contratado em novembro de 2025, foi à final da Liga Europa numa época em que terminou em 15.º na Premier e deixou os red devils em sexto a quatro pontos dos lugares da Champions

Manchester United via Getty Imag

A visão que foi “comprada”, num projeto a médio/longo prazo com uma identidade clara

Quando Ruben Amorim chegou a Manchester, a Premier League era aquele mundo desconhecido em termos práticos mas que estava a ser desbravado num plano teórico há alguns meses. O técnico e/ou representantes esteve em contacto com Todd Boehly como possibilidade para o Chelsea, era um dos nomes preferenciais da lista do Liverpool ao jeito Moneyball de análise ao que poderia trazer, foi a Londres reunir com a board do West Ham numa deslocação que causou polémica em termos internos no Sporting – e pela qual chegou a pedir desculpas publicamente. O aparecimento do Manchester United naquele que estava a ser o ponto mais alto da passagem por Alvalade foi algo quase “previsível” e, não sendo a única hipótese, foi aquele que teve o condão de convencer os dirigentes. Porquê? Tinha uma visão muito clara sobre aquilo que queria fazer não só a breve mas a médio/longo prazo, dentro de um sistema e identidade táticas que foram explanadas.

Foi essa visão que foi “comprada”, com a recusa do cenário de terminar a temporada nos leões para rumar depois a Old Trafford. Mais: aquilo que ficou acertado nesses encontros que antecederam o anúncio, no final de outubro, era que teria respaldo por qualquer tipo de resultados em 2024/25. Foi também dentro desse contexto que Ruben Amorim começou mais cedo do que desejava o trajeto nos red devils, percebendo de imediato aquilo que teria pela frente em termos de exposição pública e mediática (o principal choque que teve nas semanas iniciais, chegando mesmo a assumir que tinha falado mais num par de semanas do que em quatro anos e meio no Sporting) mas acreditando que poderia lançar as bases de um projeto que só teria os seus resultados a médio/longo prazo, entre limitações internas percecionadas apenas depois da chegada. Em nenhum momento houve sinais de arrependimento por parte do técnico, que se sentia então “protegido”.

O choque frontal com o (antigo) menino querido Rashford e a preferência por… Vital

Olhando para o primeiro onze inicial de Ruben Amorim no United, no empate forasteiro com o Ipswich (que desceu de escalão no final da temporada), metade dos jogadores já deixaram o clube. Outra curiosidade: a figura que marcou o primeiro golo foi também o protagonista do primeiro “caso”. Marcus Rashford era visto como uma espécie de derradeiro salvador da honra num plantel a quem todos reconheciam alguma falta de qualidade mas, apesar de ter sido opção nas três primeiras semanas de reinado do técnico, deixou de figurar na equipa e na própria convocatória numa fase em que, por coincidência, havia uma espécie de “caça ao bufo” no balneário dos red devils. “Acho que isso é um problema impossível de resolver hoje em dia porque há muita gente no clube, os jogadores falam com os agentes, podem também falar com os amigos… É complicado perceber”, chegou a dizer na sequência da vitória fora no dérbi de Manchester frente ao City.

Rashford ficou de fora desse duelo e, uns dias depois, assumiu em entrevista uma postura de quase “adeus anunciado. Pessoalmente, estou pronto para um novo desafio e para os próximos passos. Quando sair não haverá ressentimentos. Se souber que uma situação já está mal, não vou torná-la pior. Vi como outros saíram e não quero que seja assim comigo”, referiu, dizendo-se “para sempre adepto do United a 100%”. Se as coisas já não estavam fáceis para o avançado, pior ficaram a partir daí – havendo em termos genéricos uma divisão em relação a essa decisão. “Porque não joga? É sempre a mesma razão: o treino, a forma como vejo aquilo que um jogador deve fazer no treino, na vida. É o dia a dia. Se as coisas não mudarem, não vou mudar. Hoje falta um bocadinho de velocidade para mudar o jogo mas preferia pôr o Vital [treinador de guarda-redes] do que alguém que não dá o máximo todos os dias”, chegou a dizer no final da novela. De uma forma natural, o internacional inglês saiu por empréstimo, primeiro para o Aston Villa e agora para o Barcelona, mas essa guerra deixou marcas em termos internos – até porque Dorgu foi o único reforço no inverno…

epa11738672 Manchester United manager Ruben Amorim (R) talks to players on the touchline during the English Premier League match between Ipswich Town and Manchester United in Ipswich, Great Britain, 24 November 2024. 

EDITORIAL USE ONLY. No use with unauthorized audio, video, data, fixture lists, club/league logos, 'live' services or NFTs. Online in-match use limited to 120 images, no video emulation. No use in betting, games or single club/league/player publications.  EPA/MICHAEL ZEMANEK UK AND IRELAND OUT SHUTTERSTOCK OUT

▲ Marcus Rashford marcou o primeiro da era Amorim no Manchester United frente ao Ipswich mas acabou por sair por empréstimo tal como outros nomes de peso como Garnacho

MICHAEL ZEMANEK/EPA

A final da Liga Europa que podia mudar tudo mas acabou com a aura ainda existente

Entre todas as dificuldades a nível de resultados na Premier League e a incapacidade de muitos perceberem em que ponto esses meses de 2024/25 iriam ter assim tanto peso na preparação da equipa para a nova época de 2025/26, o que fez com que fosse perdendo a veia mais empática que no início criava ilusão nos adeptos do United, Ruben Amorim foi tendo dois “escapes”: a forma competitiva com que a equipa se apresentava nas partidas de maior dimensão, como aconteceu com o Manchester City (Liga, 2-1 e 0-0), com o Tottenham (Taça da Liga, 3-4), com o Liverpool (Liga, 2-2) ou com o Arsenal (Taça de Inglaterra e Liga, 1-1), e essa boa campanha no plano internacional na Liga Europa, com uma passagem imprópria para cardíacos às meias com o Lyon de Paulo Fonseca (5-4 no prolongamento) antes das goleadas com o Athl. Bilbao (3-0 e 4-1).

Ruben Amorim tinha aquela espécie de aura que continuava a desafiar o impossível. O caminho na Premier League era visto como um mal menor a olhar para o bem no futuro a médio prazo, a trajetória das taças ia trazendo algo de diferente desde que assumira o Manchester United. A Taça de Inglaterra deixou de ser um objetivo quando caiu nas grandes penalidades frente ao Arsenal, a Liga Europa era a luz ao fundo do túnel que poderia permitir uma entrada direta na Liga dos Campeões apesar do 15.º lugar no Campeonato. Aí, não houve nada. Não houve exibições que multiplicassem o rendimento, não houve armas para ser melhor, não houve vestígio de um qualquer Coates que pudesse mudar a história nos minutos finais. Ganhar a Liga Europa funcionava quase como uma borracha à pior época de sempre no plano interno. Ao invés, e com essa derrota, acabou por apagar em termos de perceção todos os passos que estavam a ser dados.

O fim dos “meninos queridos” numa luta em que todos perderam – técnico, jogadores e clube

Quando a época terminou, e olhando para tudo aquilo que tinha acontecido, Ruben Amorim tinha um de dois caminhos possíveis na construção de um rumo para a temporada de 2025/26: tentar potenciar aquelas que eram vistas por muitos como as grandes mais valias num futuro do Manchester United ou seguir o que tinha sido o guião dos primeiros sete meses para ficar apenas com os que considerava como “seus”. O técnico foi pelo caminho mais difícil, fazendo aquilo que poucos teriam a astúcia de fazer: abdicar daqueles que não considerava ser elementos a trabalhar para o bem comum e começar o rebranding do projeto desportivo sem nomes que tinham marcado as últimas épocas como Rashford, Garnacho, Antony ou Jadon Sancho.

Fosse por aquilo que faziam (ou não faziam) nos treinos, fosse pela incapacidade de se adaptarem a todos os pressupostos que a identidade tática de Ruben Amorim comportava, fosse pelo desgaste de serem figuras de uma equipa adiada todos os anos, todos acabaram por sair. O técnico ganhava a “sua” luta interna ao mesmo tempo que perdia, em muitos casos, o pouco crédito que já tinha. O português sabia disso, percebia aquilo que a falta de resultados imediatos podia trazer depois das decisões mais impopulares mas nem por isso deu sinais de voltar atrás na convicção de começar a montar uma nova base no Manchester United. No final, a esta distância, todos acabaram por perder nesse processo – treinador, jogadores e mesmo o clube.

▲ Ruben Amorim viu sair jogadores como Rashford, Garnacho, Antony ou Jadon Sancho por opção própria (na tentativa de construir uma nova base)

Getty Images

O mercado que trouxe soluções mas não deixou de ser curto (ainda para mais com CAN)

Ao contrário do que acontecera em janeiro, o Manchester United tinha margem para algum investimento no verão – e algum, na Premier League, equivale a muitos milhões de libras. No entanto, e perante aquilo que já estava em Old Trafford em termos de plantel, a opção foi muito clara: revolucionar por completo todo o setor ofensivo. Chegou Matheus Cunha do Wolverhampton, um internacional brasileiro com experiência de Premier League. Chegou Bryan Mbeumo, um internacional camaronês que tinha “explodido” na época anterior pelo Brentford com 20 golos e oito assistências apenas em 42 jogos. Chegou Benjamin Sesko, um internacional esloveno que esteve longe de ser a primeira escolha para a posição 9 que perdera Hüjlund mas que fizera duas temporadas com quase 40 golos no RB Leipzig. Entre eles, ficou quase tudo “esgotado”.

Emiliano Martínez, campeão mundial argentino do Aston Villa, ainda foi ventilado como hipótese para o lugar de André Onana mas as verbas chegavam apenas para Senne Lammens, uma aposta para ser o próximo Courtois (dentro das evidentes diferenças) a médio prazo. Com quase 250 milhões de euros investidos, todo o ataque era novo e a baliza tinha um novo dono mas faltavam mais opções para as alas, mais médios com essa capacidade de transição num perfil diferente, mais centrais com outra “qualidade”. As muitas lesões também não ajudaram, ser um ano de CAN ainda menos, mas ficou sempre essa ideia de que o ataque precisava de tempo para se perceber enquanto a defesa e o meio-campo tinham erros que nem com tempo se percebiam. Dúvida quer ficará para sempre: se soubesse que janeiro não existiria no mercado, teria sido assim?

A derrota mais humilhante com o Grimsby Town e a imagem que deixou no banco

O Manchester United foi tendo várias derrotas complicadas de digerir ao longo dos 14 meses do português no comando. Aliás, no final da época de 2024/25, Old Trafford transformou-se quase numa passadeira para os adversários desfilarem, brilharem e saírem com os três pontos, entre uma série de três derrotas consecutivas para a Premier League em casa no mês de dezembro e uma série de quatro encontros sem triunfos mais no final da temporada (onde os red devils chegaram a estar oito partidas sem triunfos). No entanto, há uma derrota que marca toda a campanha de Ruben Amorim no terceiro jogo oficial da presente época: a eliminação da Taça da Liga diante do modesto Grimsby Town, uma formação do… quarto escalão inglês.

Bruno Fernandes, Bryan Mbeumo e De Ligt ainda foram lançados ao intervalo quando o Manchester United perdia por 2-0, Maguire fez o empate em cima do minuto 90 mas o desempate por grandes penalidades com uma longa maratona de 28 tentativas terminou com uma derrota por atípicos 12-11. Ruben Amorim não poupou os jogadores e a equipa por uma derrota que era de forma assumida uma humilhação (dizendo que os jogadores “tinham falado em relação a tudo” e tinham sido “muito claros sobre a situação”), a imprensa não poupou Ruben Amorim pela derrota histórica frente a um conjunto três escalões abaixo como nunca tinha acontecido e até a imagem que deixou no banco, sentado com um quadro no colo a mexer peças a preparar alterações que não chegariam para vencer o adversário, adensou o desgaste da sua posição.

▲ Derrota na Taça da Liga frente ao modesto Grimsby Town, do quarto escalão inglês, foi uma das derrotas mais humilhantes do United

Um clube mundial entre a história perdida, métodos arcaicos e uma onda de despedimentos

Quando Cristiano Ronaldo teve aquela entrevista “explosiva” na antecâmara do Campeonato do Mundo, no final de 2022, muito do que apontou ao clube foi “relativizado”. Porque tinha o objetivo claro de sair, porque não estava confortável com o papel na equipa, porque tudo podia servir para fechar o capítulo da segunda passagem por Old Trafford por cima. Hoje, três anos depois, muitos recuperam aquilo que o número 7 disse na altura. E aquele choque que o capitão da Seleção revelou sentir quando voltou ao clube é o choque que muitos continuam a sentir num clube à escala global que se deixou perder com o passar do tempo.

Tudo para onde se olhe tem falta de algo. As condições em Carrington tornaram-se obsoletas perante aquilo que os adversários diretos foram evoluindo, todo o departamento de prospeção e recrutamento desceu a uma segunda ou terceira linha e, a par de inúmeras falhas, o Manchester United ainda atravessa um período de maior contenção orçamental, sendo públicos não só os vários despedimentos mas também os “cortes” em regalias quase supérfluas que queriam dar o exemplo para o resto. É quase como se o antigo clube campeão europeu vivesse numa realidade paralela, com um dia a dia a anos luz dos rivais mas a projetar um futuro a nível de novo estádio e demais infraestruturas como se não tivesse rival. No meio de todo o turbilhão, Ruben Amorim só tinha um caminho: ganhar. E foi aí que encontrou o seu maior “rival”.

Kobbie Mainoo, um novo caso “vítima” do sistema e “culpado” das críticas ao sistema

Manu Ugarte, médio uruguaio que potenciou no Sporting antes de ser vendido ao PSG que reencontrou na ida para Old Trafford, é o melhor exemplo de como não existem casos em definitivo perdidos para o técnico. Não gostando do rendimento do jogador em alguns jogos, Ruben Amorim terá “explodido” depois da final da Liga Europa, acusando o internacional de se sentir demasiado confortável na sua posição apenas porque já o conhecia de outras realidades e admitindo que não o reconhecia face ao que encontrara em Alvalade. Ugarte ficava com vida mais complicada no Manchester United mas o aumento do número de ausências fez com que voltasse a ser chamado, recuperasse a titularidade e fosse melhorando com o passar dos encontros. No entanto, houve um outro caso que nunca chegou a conhecer esse mesmo lado: Kobbie Mainoo.

O internacional inglês de 20 anos, que tinha sido aposta recorrente a partir do banco na segunda metade da última temporada, tornou-se o novo “caso” dentro do plantel, com várias conferências a fio a terem questões atrás de questões sobre a falta de minutos do médio sempre com a mesma resposta por parte do técnico: num sistema que contemplava apenas dois jogadores no corredor central ao médio, Mainoo era um “adversário” direto de Bruno Fernandes estando atrás na disputa e não tinha as características para ser o jogador capaz de bloquear transições como Casemiro. Num plano teórico, fazia sentido. Problema? O internacional inglês sempre teve inúmeros defensores que criavam “ruído” sobre a situação, pedindo (sem sucesso) para que o sistema fosse redesenhado para conjugar mais um médio como nunca aconteceu.

▲ Pouca utilização de Kobbie Mainoo ao longo da época foi outro dos pontos que motivou várias críticas à gestão de Ruben Amorim

Robbie Jay Barratt - AMA

O desgaste das semanas a fio de críticas dos senadores que chegou a… Alex Ferguson

Entre muitas idiossincrasias típicas do futebol inglês, a pressão que vem de fora através das inúmeras zonas de entrevistas rápidas e conferências e dos múltiplos painéis de comentários na TV ou em podcasts é grande. No caso de Ruben Amorim, foi ainda maior. Mais: como se viu depois do último encontro em que liderou o Manchester United, o português tinha a perceção de que muito do que se dizia aí contribuía para que o clube fosse em alguns momentos gerido de fora para dentro. A falta de resultados adensou esse cenário de críticas, a questão da inflexibilidade em relação ao sistema tático utilizado ainda mais e há muito que foi criada a ideia de que a manutenção do técnico seria uma mera questão de tempo. Há três semanas, o maior senador entre todos os senadores do Manchester United também falou… e Amorim respondeu-lhe.

“Ele é uma boa pessoa, esta não é uma situação fácil. Lembro-me de olhar para trás, para o meu tempo lá, começando quando o Liverpool era o melhor. Eles eram um clube fantástico, que ganhou a Champions quatro vezes mas depois demoraram 31 anos para ganhar o Campeonato novamente. Agora estamos na mesma situação. Se calhar nem em dez anos… Pode levar 11 anos, por causa desse ciclo”, comentou Sir Alex Ferguson à Press Box PR, entre elogios a algumas contratações deixando de fora Benjamin Sesko. “Sir Alex Ferguson percebe mais de futebol do que eu, especialmente de futebol inglês. Não vamos demorar tanto tempo a ganhar uma Liga, embora não saiba qual treinador estará aqui nessa altura”, respondeu Ruben Amorim de forma diplomática mas “contestando” essa análise. Daqui a dez anos, só um poderá ter razão.

A dupla vitória que tantos pediam antes do empate que ditou a “derrota” do sistema

Depois de ter deixado escapar a oportunidade de ficar com os mesmos pontos do quarto classificado com a derrota frente ao Everton e o empate diante do Bournemouth, a receção ao Newcastle, depois de novo desaire com o sensacional Aston Villa, surgia como um desafio fulcral até tendo em conta o calendário teoricamente mais acessível que se seguia. Entre várias baixas, e de forma declara, Ruben Amorim abdicou do seu habitual 3x4x3 por necessitar de Dorgu como ala direito, apostou num 4x2x3x1 com Dorgu, Mount e Matheus Cunha no apoio a Sesko e venceu os magpies pela margem mínima, sem sofrer e com um golo do dinamarquês. Era um aparente momento de viragem com uma win-win, acabou por ser apenas uma exceção à “regra”.

Sem o lesionado Mason Mount, Ruben Amorim recebeu o Wolverhampton com um regresso ao seu sistema habitual com essa nuance de alinhar com dois avançados de raiz, Sesko e Zirkzee de início. A exibição foi fraca, o resultado foi ainda mais desapontante tendo em conta que o lanterna-vermelha somava até aí apenas dois pontos. Numa altura de rescaldo, tornou-se quase paradigmático ter sido esse o último encontro em Old Trafford a vários níveis, da igualdade à pálida imagem deixada, passando pela equipa desfalcada que só tinha Leny Yoro como elemento habitual a entrar nas fichas de jogo entre muita juventude.

▲ Vitória do Manchester United frente ao Newcastle iniciou da melhor forma uma série de jogos mais acessíveis mas, de seguida, veio o empate com o Wolves

Zohaib Alam

A reunião a abrir o ano com Jason Wilcox que foi o fecho prematuro de um projeto

Durante vários meses, Jason Wilcox, diretor do futebol do Manchester United, foi defendendo aquilo que estava a ser feito por Ruben Amorim no clube, pedindo tempo para que os resultados pudessem aparecer de forma mais sistemática e dando garantias de que existia um rumo bem definido para os red devils, a breve e a médio/longo prazo. Mais: se Omar Berrada, CEO contratado ao rival City, era no início a cara da aposta em Ruben Amorim, Wilcox não quis ficar atrás em termos públicos. No entanto, e com os passar das semanas (e dos resultados aquém das expetativas), a relação foi esfriando. Tanto que, numa reunião, o diretor colocou em causa os dois pontos que Amorim pensava ser inabaláveis. Foi na reunião de dia 2 que tudo “acabou”.

Por um lado, Wilcox quis ir mais além da sua esfera de influência e questionou o porquê da inflexibilidade de um sistema que, quando caiu por um único jogo, deu resultado (Newcastle). Por outro, fez ver também que a capacidade de atuação no mercado de inverno seria diminuta, algo que acabava por contrastar com todas as expetativas que Ruben Amorim tinha de poder continuar a reformular a equipa em torno da sua ideia. Foi aí que o português sentiu ter chegado um fim de linha, algo que se tornou percetível em termos públicos até na conferência de antevisão ao jogo em Leeds. E, no meio de uma guerra que se tornava aberta, Omar Berrada, que tinha sido o principal apoio desde a chegada a Manchester, foi tudo menos um “cachimbo da paz”.

Ser ou não ser head coach e não manager – e como o despedimento desfez a dúvida

O período de Ruben Amorim teve duas fases no Sporting. Numa primeira fase, já depois dos dez encontros em 2019/20 que serviram sobretudo para preparar a época seguinte, os leões foram apostando sobretudo no mercado interno, com contratações em grande parte com partilha de direitos económicos e um “brinde” que era a peça em falta para o título prometido chamado Paulinho (então a contratação mais cara de sempre do clube, com 16 milhões por 70% mais dois jogadores). Num segundo momento, depois da época horribilis de 2022/23, o desenvolvimento da estrutura do futebol em torno da ideia de Amorim permitiu que todos os reforços fossem chegando como melhores opções para aquilo que o técnico queria e não como as melhores opções para a posição em causa – e foi isso que justificou chegadas como as de Viktor Gyökeres, Morten Hjulmand, Zeno Debast (para suceder a Coates) ou Maxi Araújo. O técnico teve o que não voltou a ter.

Quando referiu por mais do que uma vez que não era head coach mas sim manager do Manchester United, trazendo nomes como Thomas Tuchel, Antonio Conte ou José Mourinho à baila para pedir maior “respeito”, Ruben Amorim pretendia ganhar espaço para ter outro protagonismo nas decisões do clube a nível de gestão do plantel nas entradas e nas saídas, algo que percebera não ter na reunião com Jason Wilcox. Umas horas depois, o clube “pronunciou-se” sobre essa dúvida: “Ruben Amorim deixou o cargo de head coach do Manchester United. Ruben levou a equipa à final da Liga Europa. Com o Manchester United a ocupar a sexta posição na Premier, a Direção, com pesar, tomou a decisão de que era o momento certo para uma mudança. Isto dará à equipa a melhor oportunidade de alcançar a melhor colocação possível na Premier”.

▲ Ruben Amorim repetiu por mais do que uma vez na última conferência que era manager e não treinador. Umas horas depois, clube demitiu-o com a designação de... treinador

Manchester United via Getty Imag

A conferência de imprensa onde Ruben Amorim não deixou nada por dizer a ninguém

Qualquer que fosse o resultado do Manchester United em Leeds, que em caso de vitória poderia ter deixado a equipa apenas a um ponto dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, Ruben Amorim sabia que atingira o fim de linha no clube. Por isso, e entre informações que foi vendo na imprensa inglesa percebendo de onde tinham saído em termos internos, não poupou ninguém a não ser a equipa e os jogadores: visou Jason Wilcox e Christopher Vivell, diretor de scouting dos red devils; visou a influência que os comentários de figuras do clube como Gary Neville tinham nas decisões que eram depois tomadas em termos internos; visou a própria imprensa, pela forma como ia recebendo informações “seletivas” para escolher um lado. Era o fim.

“Para pararmos com tudo isto, e eu notei que recebem informação seletiva, vim para ser o manager do Manchester United, não para ser o treinador do Manchester United. Isso é claro. Assim será durante 18 meses ou quando a Direção decidir mudar. Não vou desistir. Vou fazer o meu trabalho até vir outro para me substituir (…) Isso vai acabar em 18 meses. Depois, toda a gente vai seguir em frente. Esse foi o acordo, esse é o meu trabalho. Se as pessoas não conseguirem aguentar os Gary Nevilles e as críticas, temos de mudar o clube. Todos os departamentos, o de scouting e o diretor desportivo, têm de fazer o trabalho deles. Eu tenho de fazer o meu e, daqui a 18 meses, seguimos em frente”, disse. Amorim esticou a corda… e ela partiu.

O pior que fica e que está na génese de tudo: foi o que menos ganhou desde 1972/73

Ruben Amorim foi o décimo treinador que passou pelo Manchester United desde a saída de Alex Ferguson, numa saga que parece longe de terminar até encontrar um timoneiro que consiga em definitivo agarrar no barco e colocar o clube de novo a lutar pelo título. Por aí, o português podia ser só “mais um”. No entanto, o peso dos resultados em falta sente-se mais no caso do antigo técnico do Sporting: em 63 encontros oficiais, só ganhou 24 com uma percentagem de êxito de apenas 38%, perdeu 21 e teve quase tantos golos marcados como os sofridos (103-95). Mais: ao longo desses 14 meses, e olhando para todas as competições, apenas por nove ocasiões os red devils terminaram um jogo sem sofrer golos (14%). Com isso, tornou-se o quarto pior da história do clube em termos de percentagem de sucesso, o pior desde o longínquo ano de 1972/73.

O tempo deverá trazer mais capítulos sobre a aposta que parecia ter tudo para dar certo mas que dificilmente poderia ter corrido pior ao longo de 14 meses. Ruben Amorim terá os seus motivos de queixa, os dirigentes terão os seus motivos de queixa, pelo meio o clube não andou para a frente – provavelmente até recuou, tendo em conta a pior classificação de sempre na Premier em 2024/25. Podia ter sido diferente? Em muitos aspetos, sim. Contudo, esta acabou por ser uma relação de enganos, tendo em conta que termina com Ruben Amorim a perceber que, em alguns aspetos, o Manchester United só é grande de nome e com o Manchester United a perceber que, entre vários nomes, voltou a guiar-se mais pelo “aspeto”. É por isso que as próximas opções tomadas serão importantes para traçar um futuro – do clube e para o treinador.

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