Henrique Gouveia e Melo admitiu esta quarta-feira que “o assunto internacional naturalmente favorece” a sua candidatura, mas garante não quer “abusar disso“. Num jantar com apoiantes na Casa dos Frangos, na Póvoa de Varzim, o candidato não deixou, no entanto, de dedicar boa parte do discurso à situação internacional e destacou que “os portugueses sabem que podem contar com a sua experiência vivida, que não é de livros, é de perceber exatamente o que está em causa, de quem fez operações [militares]”.
Gouveia e Melo destacou ainda as suas competências em geopolítica e geoestratégia, lembrando que “aos 20 anos já representava Portugal em eventos da NATO sozinho”. Sobre a questão da Venezuela, o almirante reiterou que não podemos “titubear” porque “se não tivermos coragem para dizer a um aliado que não concordamos com ele, perdemos o direito de exigir algo mais tarde”.
Já sobre a Ucrânia, continuando nos temas internacionais, Gouveia e Melo diz que é apoiante de Kiev “desde a primeira hora” e que fez “tudo o que podia enquanto militar para apoiar a Ucrânia na defesa da sua soberania”. No entanto, adverte, que “é preciso ter cuidado com alguns voluntarismos: quando nós colocamos soldados na Ucrânia, mesmo em paz, corremos o risco de haver violações dessa paz e podermos rapidamente ser envolvidos no conflito.
Na mesma intervenção, à semelhança do que tinha defendido de manhã, o almirante insiste que “temos de renovar o Estado e libertá-lo dos boys e das girls”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Pizarro provoca Cavaco: “Não sei se ainda é permitido citar Sá Carneiro nos comícios de Gouveia e Melo”
Quem também esteve presente foi o antigo ministro do PS, Manuel Pizarro, que defendeu que Gouveia e Melo é o único capaz de “unir verdadeiramente Portugal”. O antigo ministro da Saúde socialista registou que a assistência naquele evento é a prova dessa capacidade agregadora, que junta por exemplo “Rui Rio e eu, que sou adversário político do doutor Rui Rio”.
Manuel Pizarro começou depois a atirar aos adversários do almirante:“Eles dizem que tem pouca experiência na política”, mas sim “pouca experiência na politiquice”. E ainda disse que estava ali pela sua “sogra, octogenária, que nunca se há-de esquecer de quem comandou a operação das vacinas que nos salvou a vida.
O antigo governante destacou a “inteligência, percurso cívico profissional e capacidade para decidir” do almirante. Pizarro acrescentou ainda que, depois da “lamentável” captura de Maduro, e que Gouveia e Melo foi o único que reagiu “logo de manhã cedo no sábado sem precisar de ligar a nenhum ministro, nem ao líder do partido para saber o que dizer”.
O socialista diz que “Portugal precisa de um homem assim, que toda a vida pôs o interesse nacional”. Pizarro provoca Cavaco Silva e atira: “Não sei se ainda é permitido citar Sá Carneiro nos comícios de Gouveia e Melo, mas vou citar: ‘Primeiro o país, só depois o partido e em último lugar, a pessoa’”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Gouveia e Melo. Uma aventura no hospital com Pizarro de bata e uma reanimação para o boneco
Durante a tarde, Henrique Gouveia e Melo visitou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, para alertar para a necessidade de maior organização no SNS. O almirante — ao lado de Rui Rio e de Manuel Pizarro ( ali na qualidade de médico, como denunciava a bata branca) — percorreu algumas salas práticas na Faculdade.
Numa das salas decorria um ambiente pós-parto simulado — após um parto (também ele simulado) tão normal que “podia ter sido numa ambulância”, registou a médica responsável. A certa altura, o almirante é literalmente deixado com o bebé (de plástico) nas mãos. E tem um raro momento de intimidade: “Eu também peguei nos meus ao colo; o meu primeiro, que foi prematuro cabia quase na minha mão”.
Na sala seguinte, Gouveia e Melo mostrou ser um homem de ação e participou no exercício. Fez massagem cardíaca ao doente fictício, numa reanimação feita ao boneco humanoide.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
As declarações ficaram para o fim da visita e o candidto aproveitou para puxar dos pergaminhos que tem na área após a organização do processo de vacinação. “Não temos nenhum problema de excelência dos recursos humanos. Temos da medicina um problema de gestão de organização.”
Registou, como muitas vezes é repetido, que “a região norte tem menos problemas”. E que, se for Presidente, terá “muita atenção da governação nesta área, que deve ser focada na gestão e organização do sistema”. Disse ainda ser normal o “corporativismo” e diz que não se podem encontrar soluções contra os profissionais. “O País só avança com todos que integram este navio”, afirma.
Sobre se os ministros também foram responsáveis pelo Estado da Saúde, fez uma fuga para a frente, para não ter de enfrentar questões sobre o seu apoiante Manuel Pizarro. “O último responsável é o primeiro-ministro. São os primeiro-ministros que escolhem os ministros”.
Questionado sobre se os problemas na saúde seriam motivo para demitir o Governo, Gouveia e Melo disse que isso era “ridículo” e que isso foi “um mantra” de quem “quer lançar um novo tema para discussão.” E garante que, se há alguém que quer “lançar estabilidade governativa”, é ele. Atira ainda de novo a Mendes e Seguro: “Os problemas na Saúde não se resolvem com um pacto de regime ou com uma carta enviada à AR”.