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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Gouveia e Melo tenta capitalizar fator Maduro para provar que é o melhor Presidente em cenário de caos

Campanha dramatiza situação da Venezuela para passar a ideia de que, num caos geopolítico, Gouveia e Melo é o melhor Presidente. Ex-ministro diz que "mete medo" imaginar os adversários nesse cenário.

A equipa de Henrique Gouveia e Melo está a tentar capitalizar a ação dos EUA na Venezuela a favor do candidato. A estratégia da campanha, nos primeiros dias, tem tido como uma das frentes comunicacionais provar que o almirante seria dos cinco da frente o mais bem preparado lidar com um cenário de incerteza mundial, fosse para apoiar o Governo, fazer sugestões aos parceiros europeus ou ser recebido por Donald Trump na Sala Oval. No arranque oficial da campanha — precisamente a falar sobre a captura de Maduro — Gouveia e Melo admitia que tem “conhecimentos e capacidades que eventualmente outros não têm” do ponto de vista da geopolítica internacional.

A narrativa continuou por várias vias. Desde logo pelo almirante, que falou insistiu nessa valência em intervenções nos três primeiros dias de campanha oficial. Depois de o ter dito na Feira do Relógio, em Lisboa, disse no púlpito, em Castro Daire, que “a situação internacional é verdadeiramente preocupante. Quando comecei a alertar para esta situação há dois anos muitos dos meus concorrentes atuais desprezaram os meus avisos e não conseguiram perceber que estávamos a caminhar para um mundo diferente.” E acrescentou: “No tempo de incerteza, venho oferecer confiança“.

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Voltaria a insistir no tema na única vez que falou aos jornalistas no terceiro dia oficial de campanha: “Tivemos um Presidente dos EUA a dizer que a Europa tem de mudar até em termos políticos. O mundo está a mudar. Não podemos ter candidatos que a única coisa que dizem são generalidades e croquetes.”

Mas a estratégia é mais abrangente e está concertada com outros intervenientes da campanha. Voltando ao discursos deste arranque de campanha, André Marques da Cunha, mandatário concelhio, foi ao tema: “Se fecharem os olhos, quem é que vocês estão a ver a cumprimentar chefes de Estado? A receber chefes de Estado? A ser recebido por chefes de Estado após janeiro ou fevereiro deste ano?”. Para o advogado só Gouveia e Melo “poderá representar melhor Portugal, sem qualquer tipo de comprometimento” e “poderá dizer sim ao interesse do país e dizer não, sem qualquer tipo de constrangimento, quando isso for exigido.”

O mandatário distrital e antigo ministro da Saúde do Governo de José Sócrates, António Correia de Campos, foi mais longe e chegou a cenarizar: “Imaginem que, por exemplo, Portugal tinha um primeiro-ministro de quem os EUA não gostavam. Podíamos aceitar que tivesse aqui, assim, uma equipe altamente treinada e com um equipamento altamente sofisticado e que nos extraísse os nossos dirigentes?”

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Ora, continuou o ex-ministro, nesta “situação internacional muitíssimo complexa”, Gouveia e Melo seria, entre os principais candidatos, “a pessoa mais bem preparada, de longe para muito longe, para poder enfrentar essas dificuldades.” E ataca mesmo diretamente os adversários, que nomeia: “E quando olho para os outros candidatos e os percorro um a um: eu acho que mete medo. Eu não sou capaz de imaginar que o doutor Marques Mendes, ou o doutor Seguro, ou o doutor Ventura, a enfrentarem o que quer que seja, quanto mais um poderio das nações, ou a contribuírem para uma decisão inteligente da Europa, em que os integramos — e que tão necessária é.” Para Correia de Campos todos esses seriam sinónimo de “impreparação”, pedindo para que não se desperdice “a possibilidade agora, dentro de poucos dias, de escolher uma pessoa que está preparada para enfrentar esses problemas, Henrique Gouveia e Melo.”

Horas depois, já esta terça-feira, a narrativa — que destaca as qualidades do candidato e, ao mesmo tempo, dramatiza os impactos da situação internacional — era continuada por um dos apoiantes da primeira hora de Henrique Gouveia e Melo, que escreveu no 24horas que Gouveia e Melo tem a “experiência que conta” para liderar o País no “instável mundo em que vivemos” e que acordou para 2026 “surpreendido com uma ‘cirúrgica’ operação militar dos EUA na Venezuela, com a extração do Presidente Maduro e da sua esposa”.

André Pardal atira ao “discurso sonso de quem cínica e erradamente alarmou os portugueses para um discurso (alegadamente) belicista do Almirante Gouveia e Melo, mas, que viu agora a realidade dar-lhe toda a razão.” O advogado e antigo deputado do PSD lembra que foi Gouveia e Melo “ainda no desempenho das anteriores funções de Chefe do Estado-Maior da Armada” que “alertou para a instabilidade internacional, o perigo que isso representava e o que Portugal (com a sua dimensão atlântica, as suas alianças e os seus espaços de influência externa) deveria fazer, sem hipocrisias.” E termina a dizer que “neste mundo comprovadamente inseguro” os portugueses têm de escolher entre quem “andará deslumbrado ao reboque dos ventos soprados por outros, ou, alguém que verdadeiramente conhece a realidade internacional e está preparado para tomar decisões nessa matéria, com todos os seus perigosos desafios”.

O fator Maduro só levou a campanha a intensificar aquela que considera ser uma vantagem do almirante face aos adversários, mas desde o início do ano que Gouveia e Melo vem insistindo na necessidade de Portugal se preparar para a nova política da Administração Trump. “Vivemos tempos perigosos, com atores poderosos a tentar subverter a ordem mundial em função dos seus interesses. A ameaça já não vem apenas do Leste”, escreveu no seu manifesto, tendo alertado noutras ocasiões, por exemplo, para a perigosa ameaça de Washington sobre a Gronelândia.

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As outras frentes ativas em curso

Henrique Gouveia e Melo não tem ativa apenas uma frente de batalha no seu discurso. Além de tentar provar que é o melhor para chefiar o Estado num cenário de crise internacional, o almirante tem continuado a atacar os outros candidatos, desde logo Marques Mendes e António José Seguro, que têm sido os seus alvos favoritos.

Outro dos traços dos primeiros dias de campanha tem passado por por poupar André Ventura. Mesmo quando instado a comentar a paixão trumpista do líder do Chega, o máximo que o almirante foi na crítica a Ventura foi dizer: “O doutor André Ventura nunca será Presidente da República. Por isso, esse perigo não me parece um grande perigo”. E nem mais uma palavra.

Mas não tem sido o único poupado. Henrique Gouveia e Melo, que chegou a ser uma espécie de anti-Marcelo, faz questão de não atacar o incumbente, que aparentemente termina o mandato com boas indicações dos estudos de opinião. Na segunda-feira, chegou até a elogiar Marcelo: “Percebo que o Presidente tenha devolvido os três diplomas.” E desculpabilizou o Chefe de Estado sobre o estado da Saúde: “Quem decide sobre os ministros é o primeiro-ministro.” Desafiado uma terceira vez sobre se havia nesse campo uma falha de Marcelo, manteve-se estoico a não criticar o incumbente: “A boa governação não se faz nas televisões, faz-se muitas vezes no silêncio e na conversa dos gabinetes.” Neste caso, o objetivo é recuperar a ideia de sentido de Estado e provar que consegue ser um institucionalista que respeita o eventual futuro antecessor.

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