Pelo menos 38 pessoas morreram, mais de 60 ficaram feridas e mais de 2.200 foram detidas nos protestos que começaram há cerca de dez dias no Irão, segundo a organização de defesa dos direitos humanos HRANA. Os protestos tiveram início no Grande Bazar de Teerão e já se espalharam por 92 cidades em 27 das 31 províncias do país.
Desde os últimos dias de dezembro que ocorrem diversas manifestações, inicialmente contra o alto custo de vida e que passaram a incluir reivindicações políticas. De acordo com a mesma organização não-governamental, para além das greves realizadas pelos comerciantes e das manifestações nas ruas, há ainda relatos de protestos estudantis em várias universidades.
“A falta de uma alternativa viável [de liderança] minou os protestos anteriores no Irão”, declarou Nate Swanson, do Atlantic Council, sediado em Washington, organização que estuda o Irão.
“Há mil ativistas dissidentes iranianos que, se tivessem uma oportunidade, poderiam tornar-se estadistas respeitados, como fez o líder trabalhista Lech Walesa na Polónia, no final da Guerra Fria. Mas, até agora, o aparelho de segurança iraniano prendeu, perseguiu e exilou todos os potenciais líderes transformadores do país”, sublinhou Swanson.
O crescimento dos protestos aumenta a pressão sobre o Governo civil do Irão e o seu líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei. Até agora, as autoridades não bloquearam a internet nem mobilizaram forças de segurança em grande escala nas ruas, como fizeram para reprimir os protestos de 2022 contra a morte da jovem Mahsa Amini.
Regime iraniano acusado de violar manifestantes do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”
No entanto, as forças de segurança iranianas recorreram à força, utilizaram medidas de controlo de multidões, realizaram detenções e impuseram um ambiente de segurança reforçada em várias cidades. Na quarta-feira, que foi o dia mais intenso de manifestações, os protestos atingiram cidades rurais e grandes centros urbanos de grande parte das províncias. O Presidente do país, Massoud Pezeshkian, pediu às autoridades para evitarem confrontos com os participantes, classificando-os como “vândalos“, segundo o Times of Israel.
“Hoje [quarta-feira], Pezeshkian ordenou que nenhuma medida de segurança seja tomada contra os manifestantes e aqueles que participam nos protestos”, afirmou o vice-presidente executivo do Irão, Mohammad Jafar Ghaempanah, num vídeo, após a reunião do Conselho de Ministros da república islâmica, acrescentando que “aqueles que têm armas de fogo, facas e machetes, e que atacam esquadras de polícia e instalações militares, são vândalos, e é preciso fazer uma distinção entre manifestantes e vândalos”.
Poder judicial do Irão ordenou medidas de força contra manifestantes violentos
A agência de notícias estatal IRNA, que se tem mantido praticamente em silêncio sobre as manifestações, noticiou uma manifestação em massa em Bojnourd, assim como manifestações em Kerman e Kermanshah.
As autoridades iranianas não reconhecem a dimensão dos protestos. No entanto, houve relatos de agentes de segurança feridos ou mortos. As manifestações continuam esta quinta-feira, com os comerciantes a encerrarem as suas lojas na província do Curdistão iraniano.
As manifestações, até ao momento, parecem estar sem liderança, tal como outras vagas de protestos no Irão nos últimos anos. No entanto, o príncipe herdeiro exilado do Irão, Reza Pahlavi, filho do falecido Xá, pediu ao povo iraniano que se manifeste, mesmo através das janelas e telhados de suas casas, esta quinta e sexta-feira a partir das 20h00 (16h30 em Lisboa).
“Onde quer que estejam, seja nas ruas ou mesmo nas vossas próprias casas, convoco-vos a começarem a cantar exatamente a esta hora”, disse Pahlavi, acrescentando: “Com base na resposta a este apelo, anunciarei os próximos apelos à ação”. A participação das pessoas será um sinal de possível apoio a Pahlavi, cujo apoio a Israel e de Israel tem sido alvo de críticas no passado — particularmente após a guerra de 12 dias que Israel travou contra o Irão em junho.
Guterres pede ao Irão que respeite o direito ao protesto pacífico
As reações internacionais vão surgindo à medida que os protestos continuam em todo o país e as medidas de segurança se intensificam. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou preocupação com os recentes acontecimentos no Irão, afirmando que está “profundamente entristecido” com a morte e os ferimentos de manifestantes.
Guterres sublinhou, segundo o seu porta-voz Stéphane Dujarric, em declarações aos jornalistas, a necessidade de evitar mais mortes e apelou às autoridades iranianas para que respeitem os direitos à liberdade de expressão, de reunião e de protesto pacífico e deixem as pessoas expressarem as suas reivindicações de forma pacífica.
A Amnistia Internacional condenou o ataque das forças de segurança a um hospital em Ilam que estava a ser usado para tratar ou abrigar manifestantes feridos. A organização descreveu o incidente como uma “clara violação do direito internacional“, enfatizando que o ataque mostra “mais uma vez” até onde as autoridades iranianas estão dispostas a ir para reprimir protestos e silenciar a dissidência.