Nas ruas por onde passa, há certas queixas e desabafos que se repetem inevitavelmente. Depois de ter ouvido, em Viana do Castelo, uma mulher indignada sentenciar que “a ministra da Saúde não presta”, este domingo, num passeio pela costa de Ovar, Luís Marques Mendes era o depositário do desabafo de um homem que perguntava “porque é que os políticos não estão nas filas dos hospitais”. E Mendes compreende, assegura: ““Não tenho menos coração do que qualquer pessoa preocupada com o estado da saúde”.

Se num momento inicial tinha poupado o Governo por causa dos casos de demora no socorro do INEM, este domingo, Mendes — que tem carregado nas garantias de independência e exigência face ao Executivo — decidia deixar dois “conselhos presidenciais” ao Governo. E um deles foi direto para Ana Paula Martins.

“[Daria o conselho] de ela aparecer para explicar as situações que correm mal”, o que está a ser feito para corrigi-las e qual é o caminho a seguir, assim como o calendário. “Em política nunca é bom ter vazios. O vazio gera alarme social”, avisou. O desejo pode ser rapidamente cumprido, uma vez que a ministra da Saúde estará esta segunda-feira ao lado de Luís Montenegro na inauguração da sede da direção executiva do SNS.

O segundo conselho teve a ver com medidas concretas: é preciso tirar aos médicos a burocracia de que têm de tratar — “teriam mais tempo para os doentes”, avisou, recomendando ao Governo e ao país que não se façam “sempre as mesmas coisas”: “A situação do passado não pode continuar a ser a do futuro”.

Já tinha, de resto, insistido em declarações aos jornalistas que é “amigo de boas decisões do governo e adversário de falhas”, antes de reconhecer que na Saúde a situação é “muito delicada.” “Não tenho menos coração do que qualquer pessoa preocupada com o estado da saúde. É mau, há coisas que não deviam estar a acontecer e explicações que deviam ser dadas”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O recado à oposição: não pode haver crise em 2026

O dia foi, como têm sido todos, pautados pela promessa de Mendes de que será “o Presidente da estabilidade”, mas desta vez com um recado novo e muito concreto, dirigido à oposição. “Já estão todos aí a pensar em como chumbar o próximo OE e criar uma próxima crise política. Isso não vai acontecer”, avisou, enquanto almoçava em São João da Madeira.

O foco está agora em falar aos indecisos, uma “percentagem muito significativa” que pode mudar tudo numa corrida renhida. E Mendes acredita que a promessa de estabilidade é o seu maior trunfo — “Há riscos enormes com qualquer outro candidato de perder estabilidade”.

Já à tarde, num discurso em Lamego, Mendes falou da outra dimensão que lhe empresta garantias de estabilidade e previsibilidade: a “relação à distância” que foi mantendo com a população no seu comentário televisivo, e que significa que os portugueses conhecem “tudo”. “Nas minhas qualidades e defeitos, as minhas opiniões. Não levo ninguém ao engano”, frisa. “As pessoas sabem tudo a meu respeito e isso dá previsibilidade”. Segundo Mendes, num momento bem humorado, as pessoas conhecem-no tão bem que até a sua altura sabem. “Mas atenção: não há complexo nenhum e na Presidência não é a altura do Presidente que conta, mas saber se está à altura”.

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Numa intervenção em que frisou que não avançou para a Presidência para fazer ajustes de contas, enriquecer o currículo ou por vaidade, explicou que o levou a concorrer a estas eleições foi a experiência acumulada e a forma como, mais uma vez, essa contribui para uma Presidência tranquila, madura e qualificada (ou seja, previsível).

E com o nome de Pedro Passos Coelho sempre a entrar na campanha à direita, aproveitou para elogiar o antigo líder do PSD que não declarou apoio a ninguém, defendendo que a estabilidade é importante para garantir que os resultados macroeconómicos são reforçados e consolidados. “Não podemos brincar com a nossa credibilidade internacional”, disse, aproveitando para elogiar a coragem e patriotismo de Passos Coelho.

Será também um Presidente com ação e iniciativa, garantiu. Olhando para as notícias da campanha, “parece que está tudo em guerra” –” se os meus adversários estão em guerra uns com os outros ou com casos e casinhos, a minha única guerra é do futuro de Portugal”.

A moderação “não está muito na moda”, lamentou, ao contrário do radicalismo e populismo; mas o que ajuda a transformar é mesmo a moderação. Mais um dia em que Mendes quis dizer que será a força tranquila, ao estilo de François Mitterrand, que pode chegar à Presidência.

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Ministros garantem independência de Mendes: não será “pau mandado”

Durante o dia, Mendes recebeu mais alguns apoios — boa parte do Governo — que se empenharam em garantir estas qualidades e em sublinhar, sobretudo a sua independência. Assim, o ministro da Economia e Coesão, Manuel Castro Almeida, discursou em São João da Madeira para defender que um Presidente não deve ser um “yes man ou pau mandado do Governo”, mas também não pode ser oposição ou querer substituir-se a ele — e “a independência está no ADN de Mendes”.

Mendes “irá fazer criticas e ser incómodo algumas vezes; vai entristecer-nos algumas vezes”, garantiu a quem o ouvia, rematando: “Temos de saber distinguir entre os que nos criticam porque nos querem bem e os que nos criticam porque nos querem mal”.

Já o ministro da Defesa, Nuno Melo, insistiu na mensagem: garantindo que Cotrim Figueiredo e André Ventura não são “confiáveis” porque concorrem a múltiplas eleições e não tencionam cumprir os seus mandatos, reforçou as garantias sobre a fiabilidade e independência de Mendes. Um Presidente não deve ser oposição ao Governo, argumentou; mas ouve candidatos que “replicam tanto o que José Luís Carneiro diz” que pensa se o “sonho” deles não será estar na Assembleia da República e não em Belém. E avisou: “Em democracia o Governo governa com base num programa, aprovado noutras eleições”.

O mandatário nacional, Rui Moreira, foi pelo mesmo caminho, frisando que quem quiser fazer oposição ao Governo deve fazê-lo no Parlamento, e quem quiser fazer oposição ao seu partido deve fazê-lo no congresso do mesmo — e lembrando que Mendes foi sempre crítico, quando era preciso, das pessoas do seu partido, o que dá conforto ao “independente” Moreira.

O próprio Mendes, questionado pelos jornalistas sobre a questão da independência, acabaria por virar a pergunta ao contrário para arrumar o assunto: “Seguro é muito ligado ao PS. Será que vai derrubar o governo para fazer jogo do PS?”.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador