Peter Mandelson, demitido em setembro do cargo de embaixador do Reino Unido para os Estados Unidos, deu a primeira entrevista após ser afastado por ter uma relação de proximidade com o investidor Jeffrey Epstein, condenado por tráfico e abuso sexual de menores.
O caso levanta ondas há anos nos EUA. Nos últimos meses, à medida em que começaram a ser revelados os ficheiros Epstein, vários nomes conhecidos foram escrutinados pelas ligações ao empresário do setor das finanças norte-americano. Epstein morreu na prisão em agosto de 2019.
Embaixador britânico nos EUA demitido depois de conhecidos emails enviados a Jeffrey Epstein
Em entrevista à BBC, divulgada este domingo, Mandelson afirmou “não ter conhecimento do que [Epstein] fazia”. O diplomata afirmou que Epstein “o manteve à parte” da sua faceta de agressor sexual porque é homossexual.
“Acho que a questão é, por eu ser um homem gay no seu círculo [de Epstein], fui mantido à parte daquilo que ele estava a fazer na faceta sexual da sua vida”, disse o ex-embaixador.
À estação pública inglesa, o ex-embaixador declarou que, quando esteve nas propriedades de Epstein, nunca viu jovens mulheres — apenas “funcionárias domésticas de meia idade”. Mandelson disse que passou “uma ou duas noites” na ilha privada de Epstein, assim como nas casas de Nova Iorque e do Novo México. “As únicas pessoas que vi foram funcionárias domésticas, nunca vi jovens mulheres ou raparigas ou pessoas que ele estava a explorar ou com quem se relacionava dessa forma predatória horrível que descobrimos posteriormente que ele fazia”, afirmou.
Epstein. Departamento de justiça norte-americano descobriu mais de um milhão de novos documentos
Contextualizou que, durante as estadias na ilha privada, o norte-americano nunca estava.
Mandelson declarou que pediria desculpa às vítimas “se fosse de alguma forma cúmplice ou culpado” de algum crime — mas que nunca teve conhecimento das atividades de Epstein.
O ex-embaixador manteve a relação de amizade com Epstein mesmo após a condenação. Nos emails, que entretanto vieram a público, terá demonstrado apoio ao investidor. Questionado pela entrevistadora Laura Kuenssberg sobre se gostaria de pedir desculpas às vítimas por ter continuado a relação, disse que queria “pedir desculpa às mulheres que o sistema recusou ouvir e a quem não foi dada proteção que era expectável terem”.
“O sistema protegeu-o a ele e não a elas”, afirmou. “Se eu soubesse, se fosse de alguma forma cúmplice ou culpado, é claro que pediria desculpa. Mas não sou culpado, eu não tinha conhecimento do que ele fez.”
“Arrependo-me e irei arrepender-me até morrer do facto de mulheres sem poder, mulheres a quem foi negada uma voz, não terem tido a proteção que que era esperado receberem.”
Epstein foi condenado em 2008 por prostituição de uma menor na Florida após um acordo com o governo federal. Aguardava um novo julgamento por acusações federais de tráfico sexual com uma possível pena de até 45 anos de prisão, quando se suicidou a 10 de agosto de 2019 numa prisão de Nova Iorque.