Depois de Luís Montenegro, foi a vez de Aníbal Cavaco Silva aparecer na campanha de Luís Marques Mendes para reafirmar o seu apoio — ainda que por via remota. Num comício no Porto, já na reta finalíssima da campanha, o antigo primeiro-ministro e Presidente da República apareceu num vídeo que gravou para garantir que o seu antigo ministro será “independente” e “exigente com o Governo”.
Foram dez anos a governar juntos no cavaquismo — Mendes foi uma das únicas cinco pessoas, no total, que integraram ambos os governos de Cavaco Silva do primeiro ao último dia — e o antigo Presidente veio por isso deixar garantias sobre Mendes, avisando que a escolha do próximo domingo é “muitíssimo importante” para o futuro.
Para Cavaco, o Presidente deve garantir a estabilidade e criar pontes e consensos, ponto da “maior importância num tempo de grandes incertezas e graves ameaças”. Além disso, um Presidente deve “conhecer bem o funcionamento das instituições e conseguir alcançar entendimentos entre os partidos, forças económicas e sociais, Governo e oposição”, o que mais uma vez aponta para o perfil do veterano político Mendes.
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Os portugueses podem, garantiu, estar certos de que Mendes “falará a verdade” e “será independente”, além de ser exigente em relação ao Governo — como defendia Sá Carneiro, tão citado nesta campanha, irá pôr o interesse nacional sempre em primeiro lugar. Mendes, rematou Cavaco, tem bom senso, mas mais do que isso — saberá atuar como “reserva de último recurso” se houver uma crise grave em Portugal. Para Cavaco, um candidato de confiança, portanto, como o próprio Mendes tem insistido.
Foi mais um sinal do PSD que o apoia, embora o outro PSD também exista e esteja a fazer mossa nas suas intenções de voto. Mas Mendes acredita que “é preciso fazer a vida política em função de convicções”, disse aos jornalistas, questionado sobre se se arrepende das inimizades que criou quando travou as recandidaturas de autarcas do partido como Isaltino Morais ou Valentim Loureiro, em 2005.
“Eram pessoas que tinham problemas sérios de imagem, de credibilidade, de problemas com a justiça. O que é que eu havia de fazer? O que é que as pessoas dizem aos políticos? Tem de cortar a direito, tem de ser corajoso, tem de ser impoluto. Foi isso que eu fiz”, afirmou. “As convicções são mais importantes e é assim que eu serei como Presidente da República. Criam-se inimigos, sim. Só não cria inimigos quem não toma nenhuma decisão”. E uma das mensagens que Mendes tem tentado passar é que não irá para Belém para deixar “tudo na mesma”.
“Não entreguemos à lotaria da segunda volta o nosso país”
Na reta final, não há espaço para grandes invenções: o que interessa é repetir, repetir e repetir mais uma vez a mensagem, esperando que convença os eleitores. Sobretudo, quando as sondagens apontam para uma percentagem de entre 15% e 20% de indecisos. Por isso, Mendes passou o dia a repetir os principais argumentos que tem dado para apelar ao voto, e que Cavaco também mencionou — a estabilidade, previsibilidade e ambição que promete levar a Belém — e rematou assim: “Não entreguemos à lotaria da segunda volta o nosso país”.
Foi no discurso final, no Porto, com a companhia de Rui Moreira, Pedro Duarte e, via remota, Cavaco Silva, que Mendes explicou os motes da sua campanha, desta vez com ênfase ainda maior na defesa da estabilidade política: “Não criarei crises, mas se alguém quiser criar uma crise não hesitarei em tomar as decisões necessárias para a resolver”, prometeu.
E defendeu, ainda explorando a forma como interpretaria a função em Belém, que um Presidente não cria conflitos, mas não pode ser passivo e tem de ter autoridade e legitimidade para tomar decisões. “Não serei um Presidente que quando há tensões fica tenso ou perde a serenidade, ou não sabe bem onde pára a sua cabeça”, atirou, numa farpa para Cotrim.
Essa estabilidade e previsibilidade servirão para ajudar a alimentar a “ambição” e a “coragem” de que o país precisa, reforçou: “Percebi a mensagem: os portugueses querem mais e vamos dar mais, porque é a ambição nacional”. Mais uma vez, o exemplo de Cavaco Silva, com quem o país cresceu entre 4% a 6%, serviu.
Depois, o apelo puro e duro ao voto, numa candidatura onde não há nenhuma certeza de que a passagem à segunda volta possa acontecer, e várias sondagens a indicar o contrário — Mendes diz muitas vezes que lhe prometem na rua que votarão em si, mas só na segunda volta.
“Não podemos entrar em lotarias. O voto no domingo é de uma importância capital, decisiva. É votar já. Não entreguemos à lotaria da segunda volta o nosso país, a estabilidade, a defesa da liberdade e da democracia”, apelou, pedindo votos de força “massiva”. “Tenham a coragem de acreditar comigo que vamos passar à segunda volta em primeiro lugar”.
Antes de Mendes, já o atual presidente da câmara do Porto, Pedro Duarte, tinha falado para deixar uma mensagem e quase um testemunho pessoal, na qualidade de alguém que ainda há meses venceu a eleição autárquica depois de ter partido em baixo nas sondagens, como acontece agora com Mendes.
“Temos todas as razões para confiar na sensatez do povo português”, defendeu, lembra que ganhou há pouco tempo uma eleição que “muita gente dizia que estava perdida” e que cada vez mais “as pessoas são livres na sua decisão” e “decidem no momento de votar”. Por isso, o voto não está “fixo nem cativo” — e as pessoas sentirão a “responsabilidade” do voto quando estiverem sozinhas com o boletim à frente e a caneta na mão, conjeturou.
Isto porque Mendes transmite também essa ideia de responsabilidade, enquanto o eleitorado não quer “fogachos, focos de oposição ou elementos de instabilidade”, garantiu, dizendo-se “francamente otimista”.
Já Rui Moreira, que minutos antes, num passeio pelo Bolhão, tinha oferecido a Mendes dois pacotes de laranjas desidratadas (para chamar os “laranjas” a votar nele, gracejou) também frisou qualidades como o sentido de responsabilidade e a previsibilidade do candidato: com Mendes não vai haver “surpresas”; a política está demasiado polarizada e é preciso alguém em quem os portugueses se “revejam em momentos de conflito” e que una o país.
Como Cavaco, quis garantir que Mendes dará “condições de governabilidade”, sem fazer oposição mas sem garantir a estabilidade de forma “cega” (ou seja, com exigência em relação ao Governo); e voltou a puxar por Cavaco para lembrar o seu legado “reformador” e esperar que Mendes, que fez parte desses governos, traga o mesmo espírito — “O país precisa de se reformar, mas não rasgando a Constituição ou destruindo o que temos”, avisa.
O dia foi difícil graças às condições climatéricas — “É campanha abençoada, mas também não era preciso tanto”, gracejava um elemento da caravana de Mendes durante a manhã, muito chuvosa, passada em Amarante. Ainda assim, a chuva não travou o candidato, que apostou em chegar ao máximo de lojistas que conseguisse, uma vez que nestas condições as ruas estavam, naturalmente, vazias.
Também nesse passeio Mendes deixou o seu “apelo a quem ainda tem dúvidas” para que escolha a pensar no “candidato mais preparado”, que defende a moderação e a estabilidade. Desviou-se da repetição incessante da mensagem apenas para dizer que, apesar de não ter falado com Luís Montenegro, este não deverá “seguramente” responder à carta que lhe foi enviada por Cotrim Figueiredo a pedir o apoio do PSD, por se tratar de um “exibicionismo, brincadeira e número para desviar as atenções dos problemas em que está envolvido”.
Além do passeio chuvoso por Amarante, do almoço com estudantes na cantina da Faculdade de Ciências do Porto e da passagem pelo Bolhão — onde foi possível ver uma bandeira da coligação Portugal à Frente, de 2015 (quem não tem Passos caça com PàF?) –, Mendes teve ainda uma paragem inusitada no seu dia. Durante a tarde, foi com a mulher, Sofia, e com a caravana a acompanhar, a um centro comercial para comprar um presente de aniversário (um perfume) a uma das noras, que faz 40 anos esta sexta-feira.
Curiosamente, partilhavam a certa altura o candidato e a potencial primeira dama, o filho fez 40 anos no dia anterior ao início da campanha oficial, e a nora fará a mesma idade no último dia de campanha. E já que estavam pelo centro comercial, seguiram para cumprimentar algumas pessoas pelo caminho, pelas lojas e pelos corredores fora. Afinal, nesta fase cada voto conta.