Ao ritmo a que se tem esbatido o desequilíbrio de géneros nas empresas demorará “mais de um século” a ser alcançada a paridade. Ou seja, “se nada mudar, ninguém vivo hoje verá a igualdade de género concretizada ao longo da sua vida”. Cláudia Azevedo, presidente executiva da Sonae, considera por isso que “o verdadeiro problema” está “na ausência de uma liderança consistente e responsável, capaz de transformar princípios em prática. A igualdade de género deixou de ser um ‘extra desejável’; é hoje um teste determinante à maturidade da liderança e um indicador central da resiliência organizacional”.
É assim que a líder da Sonae começa o artigo de opinião publicado esta quinta-feira, 15 de janeiro, no site da organização do Fórum Económico Mundial, cuja reunião anual em Davos começa na próxima segunda-feira, 19 de janeiro.
Sobre paridade de género, Cláudia Azevedo não tem dúvidas de que “os regimes de quotas funcionam”. “Apesar do ceticismo inicial ajudaram a criar urgência, a nivelar o campo de jogo e a gerar progressos tangíveis numa única geração”. Mas não chega.
As mulheres, indica, representam 35,8% de todos os membros dos conselhos de administração das maiores empresas cotadas da União Europeia, ainda assim uma subida expressiva face aos 8,2% em 2003, diz, citando os dados do European Institute for Gender Equality (Instituto Europeu para a Igualdade de Género). Mas “quando o foco passa para onde reside o verdadeiro poder operacional – o nível executivo ou C-suite – os números caem drasticamente”. As mulheres são 23,9% dos membros dos conselhos executivos na União Europeia. “Ou seja, as mulheres são cada vez mais incluídas nos espaços de decisão, mas ainda não são, de forma consistente, escolhidas para os liderar”.
Por isso, Cláudia Azevedo, ainda que admita que as quotas são importantes, considera que “não garantem inclusão” e “não asseguram acesso equitativo à influência, nem promoções justas para os cargos operacionais de topo. É aqui que a liderança organizacional tem de intervir”. Para a gestora e acionista da Sonae, “quando os líderes estão comprometidos com a paridade, as organizações avançam. Quando hesitam, o progresso estagna. Mais importante ainda, são os líderes que controlam os mecanismos de responsabilização: os sistemas e expectativas que orientam comportamentos e produzem resultados”.
Cabe à gestão colocar como prioridade “central” a paridade de género, “integrada nas mesmas estruturas que impulsionam o desempenho financeiro e o sucesso operacional”. O que implica estabelecer metas mensuráveis de representação (“e não apenas ao nível do conselho”), integrar objetivos de igualdade nas avaliações de desempenho, e estabelecer sistemas de reporte.
Acaba por falar da Sonae, dizendo que é o caminho que escolheu na empresa. E os resultados? “A percentagem de mulheres em cargos de liderança na Sonae aumentou de 34% em 2019 para 41% em 2024, e estamos no bom caminho para atingir 45% em 2026”. Não é apenas um desígnio seu, mas inclui a necessidade de avançar neste caminho pela “pressão externa” dos consumidores, mas também internas dos “colaboradores”. E, “num contexto de escassez de talento e rápida transformação de competências, ignorar estes sinais é um risco estratégico”.
No mesmo texto de opinião, Cláudia Azevedo conclui dizendo que “a igualdade de género e o desempenho organizacional não são prioridades concorrentes; reforçam-se mutuamente”. “A paridade de género é fundamental para a identidade, a cultura e a competitividade futura da organização. E, ao alinhar igualdade com responsabilização, as empresas podem desbloquear resiliência e vantagem competitiva”.