Longe vão os tempos em que ser engenheiro era uma ambição e uma distinção. Portugal enfrenta uma falta de candidatos a engenharias mais tradicionais, o que está já a travar a capacidade do país de executar mais investimento e vai ser um problema no futuro.

O presidente da Infraestruturas de Portugal (IP) diz que a empresa atingiu um pico de investimento público de mil milhões de euros nos últimos dois anos, um nível que dificilmente conseguirá ultrapassar. Miguel Cruz aponta para a falta de mão de obra qualificada e para a falta de disponibilidade das empresas que são as mesmas que operam em várias atividades relevantes para as infraestruturas. “Em determinadas áreas, a profissão de engenheiro deixou de ser atrativa. Temos de trabalhar muito na atratividade desta profissão. Não temos falta de projetos, nem de qualidade nos projetos, mas a atividade deixou de ser sexy“.

As afirmações foram feitas durante um debate em Sines sobre a descarbonização da indústria, promovido esta quinta-feira pela Fundação Repsol no Porto de Sines.

Presente no mesmo painel, dedicado ao talento e às cidades, o presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa deu como exemplo das dificuldades da profissão o curso de engenharia do ambiente. Mesmo com o interesse de muitos jovens pelas questões climáticas, apenas três dos cursos universitários tiveram mais de 30 estudantes candidatos no último ano. Os outros tiveram menos de dez, referiu José Júlio Alferes que destacou Aveiro, uma universidade com pergaminhos nesta área e que atraiu apenas sete estudantes.

A engenharia, justifica, “tem cursos de esforço”, o que não atrai os jovens, argumenta. É preciso “alertar toda a sociedade e avisar que isto é um problema para o futuro”.

O presidente da Ordem dos Engenheiros para a região Sul acrescenta que o número de candidatos aos cursos de engenharia caiu 10%. Os alunos, sublinha António Carias de Sousa, “têm medo das matemáticas e das físicas e vão para caminhos mais fáceis”, apesar da profissão garantir 100% de emprego. “Só está desempregado quem quer”. Carias de Sousa reconhece que há cursos que ainda são sexy na engenharia — a aereoespecial, a biomédica e a informática — mas outras mais antigas — engenharia civil, mecânica ou eletrotécnica — não são. E defende que é preciso juntar os estudantes das várias áreas para os pôr a conversar.

A Ordem, diz, tem protocolos com a academias e politécnicos para ajudar a criar soluções que tornem a profissão mais atrativa. “Estávamos a ir ao ensino secundário, mas agora já estamos a ir ao primário (ensino básico) para por os miúdos a jogarem lego para tentar que se interessem por temas como a montagem e a robótica”, adianta António Carias de Sousa.

Investimentos de 60 mil milhões exigem empresas mais capazes de “abraçar risco” do que as portuguesas. Governo sugere parcerias

A falta de capacidade do setor da construção em Portugal já tinha sido apontada pelo Governo como uma preocupação para a execução do ciclo de grandes obras públicas planeado para esta década. O secretário de Estado das Infraestruturas usou este argumento para justificar os contactos feitos com construtoras internacionais para virem trabalhar para Portugal. Hugo Espírito Santo apelou à realização de parcerias entre empresas nacionais e internacionais para reforçar a capacidade de resposta instalada em Portugal. Um apelo que teve uma reação mista por parte do setor.

Sines tem muito investimento privado, mas falta investimento público e precisa de “milhares de casas”

Se há investimentos de 60 mil milhões de euros em infraestruturas públicas a nível nacional, Sines pode vir a receber investimentos de 20 mil milhões de euros privados. Um contraste com a falta de investimento público na cidade, denunciado pelo presidente da câmara na mesma sessão. Segundo Álvaro Santos Beijinha, o investimento apontado para Sines é comparável na dimensão ao volume do Portugal 2030, mas há falta de infraestruturas públicas no concelho. Desde a habitação até às acessibilidades. Apesar de ser uma importante plataforma logística, com o porto e as grandes indústrias instaladas, Sines ainda não tem uma autoestrada de ligação a Lisboa.

“Se queremos que Sines seja o paradigma da descarbonização, não pode ser à custa da população. As pessoas estão contra porque pagam a habitação mais cara e falta investimento em infraestruturas. Investimento público, mas também investimento social das empresas. Estas empresas deviam ter mais consciência do ponto de vista social para contribuírem”. O autarca do PCP, partido que ganhou Sines ao PS nas últimas eleições autárquicas, apontou também para a ausência de ensino universitário no concelho, não obstante muitos dos empregos a criar serem qualificados. “É preciso mais energia, mais água, mas também muito mais pessoas” e a cidade não consegue responder a esta procura.

A habitação é o “maior estrangulamento” para a realização com sucesso do volume de investimento que está a ser planeado para Sines, admitiu o ministro da Economia e Coesão. Castro Almeida disse aos jornalistas que iria discutir soluções com o autarca para este “problema sério” justificando a demora nas respostas com o facto de o Governo do qual faz parte ter pouco mais de um ano (considerando o primeiro executivo da AD nomeado em 2024) e nesse período não era possível planear e construir casas. Por outro lado, assinala, muitos destes investimentos estão a ser preparados e nem todos vão chegar à execução. Estão a ser ponderados e vários nem sabem em que terrenos vão instalar-se.

Mas reconhece que com os muitos milhares de milhões de euros de investimento, virão milhares de trabalhadores para os quais será preciso construir “milhares de casas”.