O ex-presidente da UEFA Michel Platini revelou numa entrevista ao The Guardian que se teria tornado presidente da FIFA se não tivesse sido banido do futebol na sequência de acusações de um alegado pagamento ilícito por serviços prestados pelo próprio ao então presidente da FIFA, Joseph Blatter, das quais foi absolvido no ano passado. Sugere que foi prejudicado com a intenção de nunca chegar àquele lugar e que um grupo de pessoas decidiu “matá-lo”.
“Eu estava destinado a tornar-me presidente da FIFA”, afirma Platini, acrescentando que a sua queda no mundo do desporto aconteceu “porque eles não queriam” que chegasse à presidência: “A proibição foi uma grande injustiça e, no geral, foi política. Um grupo de pessoas decidiu matar-me“, acusou, sem especificar a quem se estava a referir.
Ao jornal britânico, o ex-internacional explica que foi “criada uma atmosfera” à volta dele, e que a administração da FIFA não queria um presidente diferente: “A sopa estava muito boa, eles podiam ganhar muito dinheiro e não me queriam por medo de que eu mudasse muitas coisas. Eles tinham medo de mim.”
A referência ao atual presidente da FIFA — que sucedeu a Blatter em fevereiro de 2016 — é inevitável, com Platini a afirmar que Gianni Infantino “lucrou com a situação, mas não foi um dos instigadores (…). Infantino queria ser presidente da UEFA, o que significava que ele estava a empurrar-me para a FIFA”, explica.
“Ele era um bom número 2, mas não é um bom número 1”, afirma ainda o ex-internacional. “Ele trabalhou muito bem na UEFA, mas tem um problema: gosta de pessoas ricas e poderosas, aquelas que têm dinheiro. É o seu caráter. Ele era assim como número 2, mas naquela época não era o chefe”, continuou, acrescentando ainda que, desde a pandemia, “Infantino tornou-se mais autocrático” e que a organização se afastou cada vez mais dos seus valores.
“Acho que ele perdeu o jogo. Há menos democracia do que na época de Blatter. Pode-se dizer o que se quiser sobre Blatter, mas o seu principal problema é que ele queria continuar na FIFA para o resto da vida. Ele era uma boa pessoa para o futebol. Os administradores do futebol agora estão apenas a fazer o seu trabalho. Há muitos que não se importariam se fosse futebol ou basquetebol. Nem sempre é uma questão de amar o futebol se se trabalha na UEFA ou na FIFA”, afirmou.
Michel Platini e Joseph Blatter foram banidos dos seus cargos pela FIFA em 2015 por suspeitas de um pagamento ilícito de dois milhões de francos suíços (cerca de 1,8 milhões de euros) por parte da FIFA ao então presidente da UEFA em 2011, por serviços prestados por Platini como conselheiro de Blatter entre 1998 e 2002, tendo ambos justificado que o valor foi tão diluído no tempo porque as finanças da FIFA, na altura, não permitiram o pagamento de outra forma.
A acusação considerou que o pagamento efetuado pela FIFA a Platini — que se tornou posteriormente presidente da UEFA, entre 2007 e 2015 — foi ilícito, mas Blatter e o ex-futebolista alegaram ter sido o resultado de um “acordo de cavalheiros”, efetuado sem testemunhas. Os dois foram definitivamente absolvidos das acusações em agosto do ano passado.