A visita do ministro da Defesa senegalês à Guiné-Bissau terá resultado na decisão de libertar os principais rostos da oposição guineense, avançou a RDP África e confirmou o Observador junto de um fonte próxima de Domingos Simões Pereira. Este líder do histórico partido, detido há 64 dias na Segunda Esquadra de Bissau, deve sair da prisão nesta sexta-feira à tarde. E Fernando Dias da Costa, candidato presidencial que reivindica a vitória nas eleições de 23 de novembro, poderá finalmente abandonar a embaixada da Nigéria onde se refugiou durante o golpe de Estado que impediu a divulgação dos resultados eleitorais e destituiu o Presidente Umaro Sissoco Embaló.

Depois da vitória da oposição, chegaram os militares. Novo Presidente pode ser “instrumentalizado” por qualquer um dos lados

Mas os esforços da delegação senegalesa, chefiada pelo ministro Birame Diop, não conseguiram a liberdade total dos dois políticos. Ambos ficarão sob prisão domiciliária, na decisão concertada entre o Alto Comando Militar no poder e os enviados de Dakar. “É uma ‘liberdade’ falsa. Estarão presos em casa, sem direitos de visita de políticos ou membros partidários”, lamentou ao Observador um luso-guineense que preferiu não ser identificado.

As autoridades guineenses tinham anunciado a ida do ministro dos Negócios Estrangeiros, refere a RFI, mas acabou por ser o general Birame Diop a aterrar em Bissau e a reunir-se com Horta Inta-a, o Presidente guineense da transição, e membros do Alto Comando Militar que tomou o poder em novembro e do Governo de transição. Ou seja, concretiza o jornal guineenese O Democrata, que publica uma fotografia da reunião no palácio presidencial, sentaram-se na mesma mesa com a delegação senegalesa, o primeiro-ministro, os ministros dos Negócios Estrangeiros, da Defesa, da Administração Interna e o chefe do Estado‑Maior General das Forças Armadas e o seu adjunto.

O facto de ter sido um militar o enviado de Dakar e não o chefe da diplomacia está a ser visto por alguns setores da oposição como uma pressão mais forte por parte do Senegal, que se tinha comprometido perante a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) a resolver o assunto sem enviar tropas para a Guiné-Bissau.

No final da reunião de hora e meia, o ministro dos Negócios Estrangeiros guineense fez uma curta declaração aos jornalistas sem direito a perguntas: “Temos aqui o enviado especial do Presidente do Senegal, houve uma reunião muito produtiva e uma evolução muito positiva da situação”. João Bernardo Vieira adiantou ainda que juntamente com a delegação senegalesa iria visitar Domingos Simões Pereira à cela que ocupa na Segunda Esquadra da capital guineense.

No entanto, na segunda-feira, o mesmo ministro João Bernardo Vieira tinha referido que Domingos Simões Pereira continuava detido por questões judiciais em curso, afastando assim a ideia de ser um preso político. Não terá sido por acaso, disse ao Observador uma fonte próxima do líder do PAIGC. “Libertam-no para aliviar a pressão internacional — o Banco Mundial bloqueou a atribuição de novos fundos — mas com a questão do processo judicial impedem-no de se candidatar”. O Governo de transição marcou eleições para 6 de dezembro.

A notícia da libertação de Domingos Simões Pereira e da saída de Fernando Dias da Costa da embaixada nigeriana surgiu no mesmo dia em que o Presidente em transição se autopromoveu a general do exército. No decreto presidencial que o próprio assina, pode ler-se que Horta Inta-a, até aqui major-general, foi promovido pelo “contributo relevante, contínuo e excecional prestado para a defesa da pátria, a segurança nacional, a estabilidade política e institucional, o equilíbrio e regular funcionamento dos poderes do Estado”.

E ainda pelo “elevado desempenho no exercício das altas funções de Chefe de Estado”, bem como o seu “papel determinante, enquanto fator aglutinador da unidade nacional e da defesa da democracia”.

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