Dias depois da estreia do documentário da primeira-dama, Melania, no Kennedy Center, Donald Trump escolheu uma das noites mais mediáticas da cultura norte-americana — a cerimónia dos Grammy Awards, no domingo, em Los Angeles — para anunciar que o complexo vai encerrar para obras durante dois anos apesar de, em outubro do ano passado, ter garantido que o centro permaneceria aberto durante as renovações. O último dia de funcionamento vai ser a 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, no ano em que o país assinala o seu 250.º aniversário, noticiou o Wall Street Journal.
Após “uma revisão de um ano realizada com empreiteiros, especialistas musicais, instituições artísticas e outros consultores e assessores”, escreveu Trump na Truth Social, a decisão foi avançar com uma intervenção profunda que implicará a suspensão total da atividade artística.
“Determinei que a maneira mais rápida de levar o Trump Kennedy Center ao mais alto nível de sucesso, beleza e grandeza é cessar as operações de entretenimento por um período de aproximadamente dois anos, com uma grande reabertura programada que rivalizará e superará tudo o que já aconteceu com relação a tal instalação anteriormente”, afirmou.
Desde o seu regresso à Casa Branca, Trump tem procurado assumir o Kennedy Center como um símbolo pessoal. A sua intervenção na instituição — que nasceu como um centro cultural nacional e foi posteriormente designada pelo Congresso como um “memorial vivo” ao Presidente John F. Kennedy, após o seu assassinato — desencadeou uma onda de protestos e boicotes por parte de artistas, público e doadores.
A decisão do Presidente apanhou parte da estrutura do Kennedy Center de surpresa: no domingo, alguns funcionários e até um membro do conselho de administração disseram ter tomado conhecimento do encerramento através do anúncio público de Donald Trump.
Esta nova instabilidade soma-se às mudanças já sentidas ao longo do último ano, período em que dezenas de trabalhadores — muitos com carreiras de várias décadas ligadas à programação artística — foram despedidos ou optaram por abandonar a instituição, como noticiou o New York Times.
No mês passado, Trump revelou ainda a intenção de alterar o nome do edifício, propondo que a fachada principal passasse a exibir primeiro o seu próprio nome, relegando o de Kennedy para segundo plano, além de defender mudanças na orientação artística da programação.
Entretanto, várias instituições começaram a afastar-se. A Washington National Opera anunciou no final do ano passado que rompia a ligação ao centro. Já a National Symphony Orchestra, outra das principais âncoras de música clássica da casa, tem atuado perante salas quase vazias, avançou o mesmo jornal.
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Meses antes, em março de 2025, Trump visitara o Centro John F. Kennedy para as Artes Performativas, em Washington, poucas semanas depois de assumir o controlo da instituição. Durante a visita, descreveu o edifício como estando num estado de “grande deterioração”, segundo o NYT, e deixou claras as suas ideias para o futuro da programação.
Depois de o musical Hamilton ter cancelado uma atuação prevista para este ano naquele espaço — em protesto contra a nova liderança —, Trump desvalorizou o espetáculo, afirmando nunca ter sido “grande fã” da produção. Recordando ambições antigas, contou que, na juventude, sonhava com uma carreira como produtor na Broadway. Segundo afirmou na altura, essa seria a nova orientação do Kennedy Center: apostar sobretudo em grandes sucessos comerciais da Broadway.
Na mesma visita, Donald Trump mostrou-se também particularmente crítico em relação às colunas exteriores do edifício, que, na sua opinião, deveriam ser revestidas com materiais como mármore ou granito. O objetivo, afirmou, é “trazê-lo para os tempos modernos”.
Em reação ao comentário de domingo de Trump, Maria Shriver, da família de John F. Kennedy, disse que “artistas estão a cancelar aos montes” e que o Presidente fez com que “desde a mudança de nome, ninguém mais se queira apresentar lá”.
Ric Grenell, atual presidente do centro, juntou-se ao aliado e defendeu a necessidade das obras, falando num “encerramento breve”. “Esta renovação é extremamente necessária e o encerramento temporário do Centro faz todo o sentido — permitir-nos-á investir melhor os nossos recursos, pensar em grande e tornar as renovações históricas mais abrangentes. Significa também que terminaremos mais rapidamente”, escreveu Grenell no X.
I am grateful for President Trump’s visionary leadership. I am also grateful to Congress for appropriating an historic $257M to finally address decades of deferred maintenance and repairs at the Trump Kennedy Center.
Our goal has always been to not only save and permanently…
— Richard Grenell (@RichardGrenell) February 2, 2026
A mais recente grande intervenção no Kennedy Center — uma ampliação concluída em 2019 com o custo de 250 milhões de dólares (209 milhões de euros) — foi conduzida durante a presidência de Deborah Rutter, que deixou o cargo pouco depois da tomada de posse de Trump, segundo o jornal nova-iorquino.
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