Gisèle Pelicot, a mulher que foi drogada e violada por, pelo menos, 80 homens durante anos a pedido do então marido, é capa digital da Vogue Britânica, naquela que foi a primeira entrevista à imprensa do Reino Unido depois da sentença de 20 anos de prisão de Dominique Pelicot.
“Nós temos direito à felicidade. Eu sou prova de que tudo é possível”, lê-se na capa da revista, onde Gisèle Pelicot surge descontraída, de sorriso subtil e olhar fixado na câmara. Esta é a segunda vez que a Vogue escolhe a mulher de 73 anos para capa digital, depois de em novembro de 2024 também a Vogue alemã ter dedicado uma edição com uma ilustração de Pelicot vestida de vermelho, contra um fundo brilhante. A imagem vem acompanhada de uma legenda em maiúsculas que diz: “NO MORE SHAME”.
À revista britânica, Pelicot afirma ter abandonado a palavra “vítima” ao mesmo tempo que rejeita as palavras “heroína” e “ícone”: “Sobrevivente, sim, porque se ele tivesse continuado, acho que não estaria aqui hoje a falar com vocês”, defendeu, referindo-se aos crimes sexuais que sofreu. “Mas prefiro a palavra ‘símbolo’, porque o que valorizo agora é ter dado voz às mulheres”, acrescenta.
Em antecipação ao lançamento do seu novo livro “E a alegria de viver?”, que será publicado na próxima terça-feira, dia 17 de fevereiro, no qual relata a própria experiência de violência e resistência, reconstruindo os anos de trauma que culminaram no julgamento que arrancou em 2024, Pelicot apresenta-se enquanto uma mulher animada pela esperança que não deixa de fazer parte da história de uma família que, como a Vogue descreve, foi devastada pela tragédia. “A certa altura, renascemos das cinzas”, afirmou, acrescentando: “Mas não podemos apagar o passado. Ele faz parte de nós.”
Dominique Pelicot, de 72 anos, foi condenado em dezembro de 2024 a 20 anos de prisão pelo Tribunal de Avignon, no sul de França, por violação agravada. Pelicot, que admitiu ter violado e drogado com ansiolíticos Gisèle durante anos para ser violada por dezenas de desconhecidos recrutados na Internet, foi condenado com a pena máxima em França. O principal arguido foi também considerado culpado de filmar e possuir imagens tiradas sem o conhecimento de Gisèle, tendo registos de quase 200 violações, mas também por ter imagens da filha e das noras.