O marido de Gisèle Pelicot, Dominique Pelicot, foi considerado “culpado” de todas as acusações, incluindo do crime de violação agravada e condenado a 20 anos de prisão, pena máxima. A sentença foi lida esta quinta-feira no tribunal de Avignon, no caso da mulher francesa que foi violada por pelo menos 73 homens entre 2010 e 2020. Os 50 coarguidos do processo (nem todos os responsáveis foram identificados pela Justiça francesa) foram considerados culpados e condenados com penas entre três e 15 anos de prisão, dois deles com penas suspensas.

No seu primeiro comentário público, após a leitura da sentença, Gisèle Pelicot admitiu que todo o processo tem sido uma “prova muito difícil”. À saída da sala de audiências, a vítima disse que os seus primeiros pensamentos ao ouvir a decisão foram para os seus filhos, netos e outras famílias afetadas pelo caso. Agradeceu também às vítimas que “não são reconhecidas”, cujos casos nunca viram a luz do dia. “Nós partilhamos a mesma luta”, afirmou.

Ao pedir para que todas as audiências do julgamento fossem públicas, a vítima queria que “a sociedade pudesse acompanhar os debates” que eram realizados no tribunal. Garantiu que nunca se arrependeu da decisão. Gisèle Pelicot, com 71 anos, disse agora ter “confiança” num futuro em que “homens e mulheres podem viver em harmonia com respeito mútuo e compreensão”.

Questionada sobre se estava satisfeita com as penas, Gisèle não se alongou na resposta: “Eu respeito o tribunal e as suas decisões”. Isto, já depois de um membro da família Pelicot ter assumido à agência AFP que “os filhos ficaram desapontados com as penas brandas”.

A advogada de Dominique Pelicot, Beatrice Zavarro, disse aos jornalistas, à margem do tribunal, que a sua equipa jurídica está a considerar a possibilidade de interpor recurso, mas ainda que ainda não tomou uma decisão. Segundo Zavarro, o principal arguido do caso está “aturdido” com a pena que lhe foi aplicada.

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Nenhum dos homens acusados de violar Gisèle foi ilibado pelo Tribunal de Avignon, nem mesmo aqueles que ao longo do julgamento se declararam inocentes. Um homem, que replicou o método criado por Dominique Pelicot para abusar da sua própria mulher, foi condenado a 12 anos de prisão, tendo sido considerado culpado de violar e drogar a sua mulher, Cilia M. O Ministério Público francês tinha pedido 17 anos de prisão.

Na verdade, esta foi uma tendência registada em tribunal — muitos dos 51 violadores condenados no caso Pelicot receberam penas mais curtas do que as pedidas pelo Ministério Público francês. Jacques C., um homem que se deslocou à casa do casal mas que não violou Gisèle, foi condenado a uma pena suspensa de 5 anos de prisão, o que significa que sairá hoje do tribunal em liberdade.

Cyrille D, Lionel R e Boris M foram condenados a 8 anos de prisão, embora o Ministério Público tivesse pedido penas de 12 anos. Um dos acusados, Redouan A., foi considerado culpado de violação agravada, mas como foi diagnosticado como esquizofrénico por um perito, o juiz presidente concedeu-lhe uma pena reduzida porque o seu “discernimento estava comprometido”.

Por outros lado, os homens condenados por violações a Gisèle que visitaram várias vezes a casa de Pelicot recebem penas mais pesadas.

Enquanto a sentença era lida, segundo descreve a CNN Internacional, Dominique Pelicot esteve debruçado e a chorar. Além de ter sido considerado culpado de todas as acusações contra a sua ex-mulher, Dominique Pelicot foi também considerado culpado das acusações de crimes praticados contra a sua filha e noras, ficou provado que captou e partilhou imagens de carácter sexual da sua filha Caroline, bem como de duas outras mulheres, esposas dos seus filhos ao tempo dos factos.

Gisèle chegou ao tribunal nesta manhã, acompanhada pelos seus filhos David, Florian e Caroline, além dos seus dois advogados. Os vários arguidos – incluindo Dominique Pelicot – também chegaram ao tribunal, um a um, ouvindo insultos gritados pelas dezenas de pessoas que estão à porta.

Vários dos arguidos levavam malas de grande dimensão, um indicador de que os seus advogados lhes terão dito que, muito provavelmente, serão colocados na prisão já nesta quinta-feira.

Violada 100 vezes por 80 homens a mando do marido. O caso de Gisèle Pelicot que chocou França

O caso envolveu um planeamento detalhado dos atos de violência sexual pelo próprio marido, Dominique Pelicot, que drogava a mulher, deixando-a inconsciente, e convidava estranhos que conhecia na Internet para a violarem. “Pu-la a dormir, ofereci-a e filmei“, confessou o agressor quando foi detido.

O julgamento do caso começou dia 2 de setembro no Tribunal de Avignon, no sul de França, e terminou esta quinta-feira. Os investigadores do caso não conseguiram identificar e localizar mais de 30 outros homens que surgem nas gravações dos atos de violência sexual. Por vontade da vítima todas as audiências do julgamento foram públicas.

Caso Pelicot. Os 50 “Sr. Qualquer Um” que foram julgados em Avignon provam que “o perfil de violador não existe”

Dominique Pelicot foi detido no dia 2 de novembro de 2020, depois de um segurança o ter apanhado a filmar por baixo das saias de mulheres num supermercado local. Na investigação aberta a propósito desse comportamento, a polícia encontrou um ficheiro com a designação “abusos” numa pen USB ligada ao seu computador, que continha 20.000 imagens e filmes da sua mulher a ser violada quase 100 vezes ao longo de dez anos. Desde a sua detenção, declarou-se sempre culpado de todos os crimes pelos quais está a ser acusado que envolvem a mulher.