Gisèle Pelicot, a mulher que foi violada por, pelo menos, 80 homens durante anos a pedido do marido, decidiu romper o silêncio que até agora mantinha a sua história restrita aos tribunais franceses. Em livro e na primeira série de entrevistas, a francesa relata a própria experiência de violência e resistência, reconstruindo os anos de trauma que culminaram no julgamento que arrancou em 2024 — um processo que não só levou à prisão do marido, que a drogava para que outros a agredissem enquanto ela estava inconsciente, como a transformou num símbolo internacional da luta contra a violência sexual. “À medida que o julgamento se aproximava, imaginava-me refém dos seus olhares, das suas mentiras, da sua cobardia e do seu desprezo”, escreve na obra citada pelo Le Monde.
Ao longo da entrevista ao Le Figaro, confessa a intenção de voltar a encontrar o ex-marido. Seis anos depois de ter deixado de lhe falar, quer confrontá-lo: “Planeio ir vê-lo. Preciso que ele me responda pessoalmente. Gostaria de lhe fazer perguntas sobre a nossa filha. E, acima de tudo, perguntar: por que fez isto connosco? Por que nos traiu?”. É uma interrogação que, admite, continua a assombrá-la — e que considera essencial para o seu processo de cura.
A obra é, diz, um gesto de libertação. Além de romper com o silêncio, no livro intitulado “E a alegria de viver?”, Pelicot quer romper também o “rótulo de vítima”. “Durante todo o processo, fui rotulada como vítima. Hoje, não quero mais esse status”, afirmou na entrevista ao jornal francês.
Violada 100 vezes por 80 homens a mando do marido. O caso de Gisèle Pelicot que chocou França
No livro, cuja publicação está marcada para 17 de fevereiro em França, explica também por que recusou um julgamento à porta fechada. “A vergonha tem de mudar de lado”, defende, lembrando que não quis proteger os acusados com o silêncio: “Nenhum jornalista estaria ali para escrever os seus nomes ao lado dos seus crimes (…) e nenhuma mulher poderia sentar-se na sala para se sentir menos só”.
O momento da revelação continua a ser um dos mais brutais, que descreve ao longo das páginas. “Não conhecia os homens. Nem aquela mulher. A cara dela estava tão descaída. A boca tão flácida. Parecia uma boneca de trapos”, escreve, segundo o Le Monde, recordando o dia em que a polícia lhe mostrou os vídeos apreendidos. Custou-lhe acreditar quando lhe disseram que aquela mulher era ela.
Mas mais do que revisitar o horror, o livro procura reconstruir uma identidade para lá dele — falar da sua trajetória como mulher, da relação com a filha, do adultério, da forma como uma “família normal enfrenta o impensável”: “Escrever este livro foi uma forma de me libertar das amarras em que me sentia presa, de contar a minha verdadeira história”.
No livro, Pelicot recua aos anos anteriores à revelação dos crimes e descreve um casamento que acreditava sólido. “Sempre achei que acabaria a minha vida com o Sr. Pelicot. Tínhamos 19 anos quando nos conhecemos. Apaixonámo-nos, amámo-nos, tivemos três filhos. Sempre vivi com um marido carinhoso, um bom pai e um avô gentil”, disse ao Le Figaro.
A francesa explica que quis também contar parte da história dele no livro, “não para justificá-lo ou arranjar desculpas, mas para deixar claro que nunca conheci o ‘outro lado’ do Sr. Pelicot descrito pelos especialistas em psiquiatria”.
O impacto da violência estende-se à filha do casal, que enfrenta as consequências da descoberta de imagens suas no disco rígido do pai. “Ela está a sofrer por causa das imagens dela mesma. Eu compreendo-a: são repugnantes e revelam um olhar incestuoso. Ela não obteve respostas sobre o que aconteceu com ela”, conta a mãe que explica que a extensão da dúvida a condena a um “inferno perpétuo”.
Ainda assim, mantém uma esperança cautelosa. “Espero que ele não seja o autor deste crime hediondo. Espero também que as provas que faltam sejam encontradas e que provem que não foi ele. Não por ele, mas pela minha família e por mim.”
Transformada num símbolo internacional da luta contra a violência sexual, Gisèle Pelicot resiste ao estatuto de ícone. “Isso incomoda-me bastante”, admite, embora reconheça o alcance público da sua história. Recorda que, em tribunal, houve quem comentasse a forma como se vestia — um sinal, diz, de como as vítimas continuam a ser escrutinadas mesmo quando existem provas. Ao mesmo tempo, sublinha que recebeu mensagens de apoio de muitos homens e recusa alimentar divisões: “Eu nunca quis dividir homens e mulheres, e os homens não devem envergonhar-se de serem homens. Tudo depende da educação”.
Hoje, apesar de recorrer a acompanhamento psicológico quando sente necessidade, diz sentir-se em paz. A escrita foi o primeiro passo. O encontro com o passado poderá ser o próximo.
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