A chuva começou na tarde de segunda-feira na Zona da Mata, em Minas Gerais. Já no início da noite, várias pessoas relatavam alagamentos, com acessos e vias cortadas, e pessoas ilhadas, com vários moradores a esperarem resgate no terraço de edifícios, principalmente nas cidades de Juiz de Fora e Ubá. Ao entrar a madrugada de terça-feira, registavam-se 20 ocorrências de “soterramentos” causadas por derrocadas em diferentes partes da cidade. O balanço na manhã desta quarta-feira é de 37 mortes, 33 desaparecidos e milhares de desalojados. O Governador do Estado, Romeu Zema, decretou luto oficial de três dias, enquanto o Presidente do Brasil, Lula da Silva, confirmou o envio de equipas da Defesa Civil Nacional e da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) para a região.

Três mil pessoas ficaram desalojadas e 600 famílias foram retiradas, num dia em que se espera mais chuva na região e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) alerta para o risco de enxurradas e mais deslizamentos. Nesta quarta-feira mais de mil pessoas estão sem eletricidade, as aulas estão suspensas em todas as escolas da rede municipal, algumas pontes e vias estão fechadas e prevê-se um trabalho árduo para as equipas de resgate dos Bombeiros, Defesa Civil e Polícia Militar.

“Nunca vi isso em 20 anos”, disse ao portal UOL o professor Ivan Peluzo Cid, que ficou cercado após o temporal. “Quando começou a chover direto eu passei a acompanhar as notícias e vi que muitas pessoas passaram boa parte da noite nas estradas por conta dos deslizamentos”, diz o homem. “Mas, eu não consegui ter muita noção do estrago, naquele momento, porque fiquei cercado, sem conseguir sair de casa.”

Em Juiz de Fora foram registados casos de pessoas soterradas em pelo menos oito bairros. “Escutei o barulho das duas casas ao lado da minha. Desceu muita água. Na minha casa não atingiu, mas deu aquele estalo quando caiu um muro”, disse ao G1 Lúcio Moreira Rodrigues, morador do bairro Paineiras, na região central da cidade. Uma derrocada atingiu o primeiro pavimento de um prédio e duas casas — pelo menos 15 moradores ficaram presos nos escombros. “Perdemos tudo, móveis, carros, tudo”, disse a estudante Ludmila Mancini Alcântara, de 20 anos, que vivia num dos apartamentos soterrados.

O Bairro Parque Burnier, em Juiz de Fora, foi uma das regiões mais afetadas pelas chuvas — a derrocada de uma encosta provocou a destruição de pelo menos 12 casas. Sete pessoas morreram, entre as quais uma criança de 10 anos, e 20 permanecem desaparecidas, sendo mais de cinco crianças. A operação de buscas, que ainda está em curso, prolongou-se ao longo de toda a madrugada. Até a manhã desta quarta-feira, 13 pessoas já tinham sido resgatadas com vida do meio dos escombros, avança a CNN Brasil.

A filha de Valtencir Coutinho de Miranda está entre as crianças desaparecidas, relata o homem ao G1. “A minha filha, Sofia, de seis anos, está desaparecida. Estamos aqui para encontrá-la, com Deus nos dando força e confortando nossos corações, para que possamos achá-la com vida. Estamos lutando por isso”. Outro morador que está a participar nos resgates disse que salvou uma pessoa soterrada. “Consegui salvar com vida uma criança de quatro anos, um adulto junto com os bombeiros, além da mãe e do pai da criança. Nessas horas, a gente não escolhe quem ajudar, só quer ajudar. Agora estou esperando pelo meu sobrinho, na esperança de que ele seja encontrado com vida”, disse o homem.

Nas redes sociais circulam ainda vídeos feitos por moradores que registam desabamentos, pessoas presas dentro das casas inundadas e carros a serem arrastados pela enxurrada. Uma das imagens, divulgada por diversos órgãos de comunicação social brasileiros, mostra três utentes a boiar em colchões num lar de idosos em Ubá que ficou inundado. De acordo com a Globo News, terão sido os vizinhos a ajudarem a mover os idosos até o segundo andar do edifício.

Em quatro horas choveu mais do que o esperado para quatro dias, de acordo com o que explicou o meteorologista Alexandre Nascimento à CNN Brasil. “É uma combinação de vários fenómenos meteorológicos. Nós temos uma frente fria bem afastada da costa, mas próximo ao litoral do sudeste. Nós temos fenómenos típicos de verão, como a Alta da Bolívia e também o vórtice ciclónico de altos níveis próximo da costa do nordeste”, diz o especialista.

Por outro lado, a geografia de Juiz de Fora, cidade que é cercada por morros e serras com altitudes que vão dos 470 aos mil metros, favorece o confinamento de nuvens de chuva, explicam especialistas ao G1. Este é o mês de fevereiro mais chuvoso da história da região. Foram 190 milímetros em oito horas, numa área de alta ocupação das encostas, zonas mais vulneráveis a deslizamentos de terra.

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está numa viagem oficial aos Emirados Árabes Unidos, usou as redes sociais para lamentar a situação das vítimas atingidas pelos temporais na região. “Quero enviar meus profundos sentimentos às famílias que perderam seus lares e, o que é pior, os seus entes queridos. E me solidarizar com as autoridades e forças de segurança mineiras que estão trabalhando no resgate e no atendimento imediato à população prejudicada pela chuva”.