Os deputados da Comissão de Saúde da Assembleia da República ouviram esta quarta-feira a nova presidente da Unidade Local de Saúde (ULS) Amadora-Sintra, a terceira titular do cargo em apenas dois anos. Sandra Cavaca reconheceu que assumiu a liderança da ULS num “cenário de grande dificuldade”, mas não deixou de explicar a visão do atual Conselho de Administração (CA) para o futuro da ULS: anunciou um plano para ampliar o hospital Fernando Fonseca — que está subdimensionado —, explicou que quer tarefeiros regulares no serviço de urgência e um novo Centro de Atendimento Clínico (CAC) na Amadora, destinado a desviar os casos não urgentes do hospital.
A audição ficou ainda marcada pelas dúvidas, expressadas pela Iniciativa Liberal e pelo Chega, quanto à nomeação de Sandra Cavaca para liderar uma das maiores e mais complexas ULS do país, uma vez que a gestora não tem qualquer experiência em administração hospitalar, como noticiou o Observador em janeiro. No entanto, a ex-presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde desvalorizou as preocupações dos deputados, lembrando que está acompanhada pelos restantes membros do CA, que podem complementar o seu trabalho.
Novo CA planeia construir novo edifício para aumentar camas do Fernando Fonseca
A presidente da ULS Amadora-Sintra anunciou que o novo CA, em funções há cerca de um mês, está a trabalhar num “plano estratégico para ampliar o hospital Fernando Fonseca, com recursos do PT2030”, ou seja, aos fundos europeus. Sandra Cavaca explicou que o que está a ser planeado é a construção de um novo edifício, de forma a aumentar o número de camas do hospital, uma vez que a atual capacidade de internamento é insuficiente. A ULS Amadora-Sintra serve atualmente uma população de cerca de 600 mil pessoas. No entanto, o hospital Fernando Fonseca foi dimensionado para dar resposta a um população de cerca de 350 mil pessoas. Sandra Cavaco indicou também que o hospital tem dezenas de camas ocupadas com internamentos sociais, o que limita a capacidade de resposta assistencial.
“[O plano] passará por um plano de transformação do próprio hospital, para que consigamos ter um rácio de camas mais adequado aos standards internacionais e nacionais até”, avançou.
Para além das limitações a nível físico e de capacidade, a ULS Amadora-Sintra enfrenta também outro problema, comum a muitas outras instituições do SNS: a falta de profissionais, reconheceu a gestora. “A falta de profissionais é um tema com o qual nos debatemos”, reconheceu Sandra Cavaca, em resposta à deputada da IL Joana Cordeiro. Uma das áreas onde a carência de profissionais é mais visível é o serviço de urgência, que o atual CA encontrou numa situação delicada. “Urge para nós tratar da urgência. Encontrámos um diretor de urgência demissionário e a saída de 11 profissionais. Se já éramos poucos, ficámos ainda mais depauperados”, sublinhou Sandra Cavaca.
A nova presidente da ULS Amadora-Sintra adiantou aos deputados que o novo CA está em contacto com as empresas de médicos prestadores de serviços de forma a garantir médicos tarefeiros de forma regular no serviço de urgência e disse que está a ser equacionada a abertura de um Centro de Atendimento Clínico (CAC) na Amadora, de forma a desviar os doentes não urgentes do hospital Fernando Fonseca. “Estamos em contacto com empresas para termos tarefeiros regulares na urgência […] Estamos a ver os circuitos dos [doentes triados] verdes e azuis para os tentar deslocalizar e a ver onde podemos abrir um CAC, precisamos de um mais para a zona da Amadora”, sublinhou Sandra Cavaca, salientando que, no concelho de Sintra, o novo hospital, inaugurado no verão de 2025, já dá resposta a parte das situações não urgentes.
A gestora ressalvou, no entanto, que “a urgência não pode ser vista como um polo isolado”, defendendo que essa resposta tem de ser articulada com os cuidados de saúde primários. “Temos de articular com os cuidados de saúde primários, temos 190 mil utentes sem médico de família”, lembrou a responsável, sublinhando que o atual CA “tem andado a apagar fogos mas sem deixar de pensar” no trabalho que tem pela frente.
IL e Chega em choque com o PS sobre críticas à nomeação de Sandra Cavaca
Numa segunda fase da audição, a deputada do Chega Cristina Henriques questionou Sandra Cavaca sobre a sua nomeação para o cargo, deixando críticas à escolha. “Como é que se nomeia para gerir uma ULS desta complexidade alguém sem experiência em gestão hospitalar? Quando o sistema está no limite não há margem para aprendizagem em funções”, defendeu Cristina Rodrigues.
Na resposta, Sandra Cavaca desvalorizou a falta de experiência. “O facto de não ter experiência… tenho uma equipa que me complementa. Vamos responder aos desafios desta ULS”, garantiu a nova presidente da ULS Amadora-Sintra.
Já antes a deputada do PS Susana Correia tinha criticado o requerimento da IL, defendendo que a nomeação de Sandra Cavaca para liderar a ULS deveria ser discutida com o Ministério da Saúde e não com a própria. “Nós não somos a Cresap”, disse a deputada socialista.
O tema voltou a criar discórdia entre os deputados, com a deputada da IL Joana Cordeiro a questionar as palavras da deputada Susana Correia. “Nós estamos a falar de uma das maiores ULS do país. Sim, é da competência da Comissão de Saúde escrutinar e é importante ouvir quem está no terreno para perceber se têm condições para fazerem o seu trabalho”, defendeu.