Sandra Cavaca, atual presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), é a opção mais forte para se tornar a próxima presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Amadora-Sintra apurou o Observador junto de fontes conhecedoras do processo. A gestora — que não tem qualquer experiência anterior em gestão hospitalar — deverá, assim, liderar uma das maiores ULS do país, que serve uma população de cerca de 600 mil pessoas.

Licenciada em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e com uma pós-graduação em Gestão dos Serviços de Saúde, Sandra Cavaca está desde 2023 à frente dos SPMS, uma entidade na esfera do Ministério da Saúde que é responsável pelas áreas do processamento de salários, informática ou compras. Esta entidade tem também sob a sua tutela a linha SNS24.

Sandra Cavaca tem uma carreira ligada à área administrativa da saúde. Trabalhou entre 2012 e 2020 como Secretária-geral do Ministério da Saúde, antes de ser nomeada vogal dos SPMS. Foi também Secretária-geral adjunta do Ministério da Saúde, de 2010 a 2012, com o pelouro financeiro e a área da comunicação. Já antes tinha sido responsável pela Unidade Ministerial de Compras e pela Unidade de Gestão Patrimonial da Secretaria-Geral do Ministério da Saúde.

Entre 2002 e 2006, tinha sido Diretora de Serviços de Gestão de Recursos Humanos, Financeiros e Patrimoniais do então Departamento de Modernização e Recursos da Saúde (DMRS), com responsabilidade dos orçamentos dos membros do Governo. Antes de ingressar na área da Saúde, Sandra Cavaca foi Chefe de Divisão de Gestão Financeira e Património na Direção-Geral de Viação, tendo passado ainda, nos anos 90, pela Direção-Geral do Orçamento e pela consultora Ernst & Young.

Os últimos dois anos à frente dos SPMS foram marcados pela insuficiência de resposta da linha SNS 24. Só nos primeiros nove meses de 2025, quase 1,5 milhões de chamadas ficaram por atender, um aumento expressivo em relação ao ano anterior, motivado sobretudo pelo aumento da procura pela linha e pelo número insuficiente de profissionais alocados ao serviço. Também o tempo médio de atendimento das chamadas aumentou significativamente ao longo do ano passado.

Aos 56 anos, tudo indica que Sandra Cavaca estará prestes a assumir o maior desafio da sua carreira profissional: liderar o Conselho de Administração da ULS Amadora-Sintra, uma das maiores e mais complexas ULS do país. A atual presidente dos SPMS, que não tem qualquer experiência operacional em contexto hospitalar, deverá substituir o administrador hospitalar Carlos Sá, que assumiu a liderança da ULS Amadora-Sintra há menos de um ano.

Nomeado em março de 2023, Carlos Sá (que já passou pela administração dos hospitais de Cascais, do Oeste, da Cruz Vermelha ou Lusíadas) colocou o lugar à disposição no início de novembro, na sequência da polémica em torno da morte da guineense Umo Cani, uma mulher de 38 anos, grávida em final de gestação, que morreu dois dias depois de ter sido enviada para casa pelo hospital Fernando Fonseca, mais conhecido por Amadora-Sintra. Umo Cani entrou em paragem cardiorrespiratória, tendo sido feita ainda uma cesariana de emergência. A bebé também acabou por não sobreviver.

Ministra da Saúde aceita demissão de presidente da ULS Amadora-Sintra após “falha grave” no caso da grávida que morreu

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, acabou por demitir Carlos Sá por questões relacionadas com o acompanhamento da grávida guineense.

A instabilidade governativa tem, aliás, marcado os últimos anos no Amadora-Sintra. Caso se confirme a nomeação de Sandra Cavaca, a ULS conhecerá o terceiro presidente diferente no espaço de um ano. Antes de Carlos Sá, também Luís Miguel Gouveia se demitira do cargo de presidente do Conselho de Administração depois da deterioração da resposta na área cirúrgica, motivada pela demissão, num curto espaço de tempo, de pelo menos uma dezena de cirurgiões. A situação levou até os médicos internos de Cirurgia a escreverem uma carta a Ana Paula Martins, na qual alertavam para degradação do serviço e o ambiente “hostil”.

Equipa fixa da urgência do Amadora-Sintra perdeu 11 médicos desde o verão. Tempos de espera já chegam a 18 horas e o inverno será “pior”

A crise no serviço de Urgência Geral do hospital Fernando Fonseca — com tempos de espera que chegam às 18 horas, e uma equipa reduzida, depois da saída de mais de uma dezena de médicos — será um dos grandes desafios que Sandra Cavaca deverá enfrentar nos próximos meses. Contactada pelo Observador, a presidente dos SPMS em fim de mandato não quis prestar comentários.

Antes de ser nomeada, em reunião do Conselho de Ministros, o nome de Sandra Cavaca terá ainda de passar pela CReSAP, que irá emitir um parecer, que será depois enviado ao Governo. No entanto, a posição deste organismo não é vinculativa, pelo que a decisão final caberá sempre à tutela.

Ao que o Observador conseguiu apurar, a Direção Executiva do SNS e o Ministério da Saúde têm tido dificuldades em encontrar substituto para Carlos Sá, que está demissionário há já dois meses.