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epa08969334 Paramedics transport COVID-19 patients from Amadora Sintra Hospital to Luz Hospital in Lisbon, in Amadora, Portugal, 27 January 2021, due to the rising of hospitalizations. The Amadora-Sintra Hospital moved a team of doctors, nurses and auxiliaries to accompany the 19 patients who are being transferred to the infirmary that will open at Hospital da Luz in Lisbon.  EPA/MARIO CRUZ
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MARIO CRUZ/EPA

MARIO CRUZ/EPA

Equipa fixa da urgência do Amadora-Sintra perdeu 11 médicos desde o verão. Tempos de espera já chegam a 18 horas e o inverno será "pior"

Escalas são feitas com mais médicos em formação e tarefeiros, o que coloca em causa a qualidade dos cuidados, alerta a FNAM. Diretor da urgência pede à tutela a resolução de problemas estruturais.

A equipa fixa da urgência geral do Hospital Fernando Fonseca já perdeu 11 médicos desde o verão. A degradação desta equipa tem contribuído para o aumento dos tempos de espera, assume o diretor do serviço de Urgência Geral, que pede mudanças ao Ministério da Saúde e à Direção Executiva do SNS, para resolver dois grandes problemas que estão a agravar a situação: o recurso à urgência de doentes não urgentes e a falta de capacidade de internamento do hospital. Nos últimos dias, nomeadamente na manhã desta sexta-feira, os doentes triados com pulseira amarela (considerados urgentes) enfrentavam tempos de espera que chegaram às 18 horas pela primeira observação médica.

O diretor da urgência, Luís Duarte Costa, reconhece que as saídas de médicos “têm imenso impacto” na capacidade de resposta do serviço de urgência de um dos principais hospitais da Área Metropolitana de Lisboa. “Era impossível que estas saídas não tivessem impacto. Tínhamos aqui mais 11 médicos a trabalhar 40 horas por semana”, diz o responsável, admitindo que a urgência não está a funcionar adequadamente. “Com 65% dos doentes que não deviam estar aqui [por serem considerados casos de “falsas urgências”], com menos 11 médicos que deviam estar a suportar este monstro, é óbvio que a urgência não pode funcionar bem. E as pessoas que trabalham aqui estão completamente exaustas”, alerta.

Em declarações ao Observador, o responsável do serviço de urgência do Fernando Fonseca adianta que todos os anos o hospital tem tempos de espera “muito acima do que está estabelecido para a triagem de Manchester”. Nesta altura, porém, a situação está pior do que em anos anteriores. “Nesta semana, tivemos alguns médicos doentes e alguns estão de férias”, justifica o médico.

Doentes urgentes com espera de 17 horas na urgência geral do Hospital Amadora-Sintra

A verdade é que desde o verão que as saídas de médicos especialistas em Medicina Interna se sucedem. A somar aos problemas já crónicos — quer o do subdimensionamento do hospital quer o da falta de acesso da população a médicos de família —, essa redução do número de profissionais tem exercido uma enorme pressão sobre a urgência.

“A equipa fixa continua a existir, mas com todas estas saídas, ficou completamente desfalcada e com muita dificuldade em dar resposta e em compor as escalas”, diz a médica Tânia Russo, delegada sindical da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) no Amadora-Sintra. Apesar de admitir que as urgências da maioria dos hospitais de Lisboa estão sob grande pressão nesta fase, o presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos (OM) salienta que a situação é mais grave no hospital Fernando Fonseca, devido à saída de médicos da equipa da urgência. “A saída dos colegas veio agravar a situação, diz Paulo Simões.

▲ "Com menos 11 médicos que deviam estar a suportar este monstro, é óbvio que a urgência não pode funcionar bem", diz Luís Duarte Costa, diretor da urgência

Qualidade dos cuidados está em causa, com menos médicos especialistas na urgência, alerta a FNAM

Numa urgência geral que atende cerca de 350 utentes por dia, a equipa fixa, cada vez mais reduzida, tem sentido dificuldades em dar resposta à afluência de utentes. Perante a saída de médicos especialistas, estão a ser colocados nas escalas cada vez mais médicos internos (ainda em formação), muitas vezes do 1.º ao 3.º ano. “Existe uma carência em termos de diferenciação. Estão a ser colocados nas equipas cada vez menos especialistas e mais internos e prestadores de serviços, indiferenciados”, garante a delegada sindical da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) no Amadora-Sintra Tânia Russo, alertando que “fica em causa a qualidade dos cuidados” prestados aos doentes.

Relativamente ao hospital Fernando Fonseca, a situação é especialmente grave durante o período da manhã e início da tarde, entre as 8h e as 16 horas, em que a urgência é assegurada pela equipa fixa, com profissionais dedicados. Neste período, o preenchimento das escalas é particularmente difícil. “Tem estado muito difícil a composição das escalas. Há muitos dias em que só estão um a dois especialistas a monitorizar 60 a 70 utentes que estão no Serviço de Observação, o chamado SO”, detalha Tânia Russo.

Neste momento, o SO está lotado, o que acontece com regularidade. O Amadora-Sintra foi projetado para servir uma população de 350 mil pessoas, mas abrange uma área com cerca de 600 mil. Nesse contexto, a falta de capacidade de internamento do hospital é outros dos problemas que agrava a situação na urgência geral. O diretor do serviço de urgência alerta que o Fernando Fonseca deveria ter pelo menos três vezes a capacidade atual para responder à população que serve. “Nós temos 1,1 camas de internamento de agudos por mil habitantes, o que é muito diferente da média em Portugal (que é 3,5) e da média da OCDE, que é de 4,6. Para responder a esta população toda, o hospital Amadora-Sintra deveria ser 3,5 vezes maior“, defende Luís Duarte Costa.

"Estão a ser colocados nas equipas cada vez menos especialistas e mais internos e prestadores de serviços, indiferenciados"
Tânia Russo, médica do Fernando Fonseca e delegada sindical da FNAM

Com 650 camas, o hospital Fernando Fonseca não tem capacidade para tratar nas enfermarias todos os doentes que precisam de internamento, um problema que se tem vindo a agravar e que leva dezenas de doentes a terem de aguardar no Serviço de Observação, por vezes durante vários dias.

Amadora-Sintra está subdimensionado e serve 170 mil utentes sem médico de família

Um problema ainda maior, segundo o diretor da Urgência Geral, é a elevada afluência à urgência de doentes não urgentes, que deveriam ser atendidos nos cuidados de saúde primários. “Será sempre o Amadora-Sintra o hospital a ter piores resultados, temos 170 mil doentes sem médico de família”, o que faz com que parte significativa dessa população recorra à urgência.

“65% dos doentes não deviam estar cá, deviam ser vistos pelo médico de família. Os doentes que cá vêm com uma dor nas costas ou com tosse e expectoração e que não têm nenhum sinal de alarme poderiam ser vistos de uma forma mais rápida” pelo médico de família, diz o médico, pedindo uma intervenção da Direção Executiva do SNS e do próprio Ministério da Saúde. “Os doentes mais graves são vistos. O que fica para trás são os doentes com menos gravidade“, esclarece Luís Duarte Costa, acrescentando as dificuldades que o recurso desadequado cria às equipas médicas e o impacto que tem nos tempos de espera. “Metade da equipa mais diferenciada que tenho na urgência está a ver doentes que estão internados e que precisam de ser vistos diariamente, porque são doentes com alguma gravidade. E não consegue responder aos doentes que não deviam estar cá”.

O responsável admite que os médicos que trabalham no serviço da Urgência estão já desgastados e lança um apelo à Direção Executiva do SNS e ao Ministério da Saúde. “As pessoas que cá estão, começam a ficar um bocado fartas e exaustas dos problemas que não têm resolução por parte de quem trata destas coisas, ou seja, do Ministério da Saúde. E há uma série de decisões que só passarão pela Direção Executiva”, diz Luís Duarte Costa. O responsável insta também a população a fazer um uso mais contido do serviço de Urgência em casos não urgentes. “Os portugueses acham que se lhes dói uma parte do corpo devem vir à urgência. Metade dos amarelos não são doentes urgentes”, garante.

"As pessoas que cá estão estão a ficar um bocado fartas e exaustas dos problemas que não têm resolução por parte de quem trata destas coisas, ou seja, do Ministério da Saúde. E há uma série de decisões que só passarão pela Direção Executiva"
Luís Duarte Costa, diretor da urgência geral do Fernando Fonseca

No que diz respeito à equipa fixa, Luís Duarte Costa sublinha os esforços feitos pela Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra para contratar mais médicos especialistas, esforços que, até agora, se revelaram infrutíferos. “Temos feito esforços todos os dias”, garante, insistindo que o problema não é só o número de médicos na urgência, mas também o recurso de doentes não urgentes ao hospital. “Se tenho 350 pessoas por dia na urgência, devia ter cá mais médicos. Certo. Mas a questão não é colocar mais médicos aqui, é tirar daqui os doentes“, defende o responsável, sublinhando ainda um fator geracional de organização de trabalho dos médicos mais jovens, que têm menos disponibilidades para assegurar longas jornadas de trabalho. “São gerações diferentes, que já não aceitam fazer 60 horas por semana, que já não aceitam fazer noites e fins de semana”, lembra.

Um outro fator que terá contribuído para agravar a situação na urgência do Fernando Fonseca foi a abertura, em julho último, do Hospital de Sintra — que conta com um Serviço de Urgência Básica, para onde deveriam ser encaminhados os casos não urgentes. Para esta unidade, foram enviados alguns dos profissionais que estavam na urgência do Fernando da Fonseca, o que agravou a carência de médicos. “As mesmas pessoas, que já existiam, tiveram de se distribuir por mais um local. Foi dito que [o novo serviço] iria aliviar a pressão, isso não se verificou. Estamos a ver os mesmos problemas, com maior tempo de espera”, diz a médica Tânia Russo, da FNAM. Uma posição corroborada pelo presidente da Secção Regional do Sul da OM. “Tentaram pegar nalguns elementos da equipa fixa para levar para o Hospital de Sintra. Ora, se a equipa já estava curta, entrou em défice”, diz Paulo Simões, adiantando que a decisão do Conselho de Administração de dividir a equipa criou “tensão interna, conflitos”, e levou à saída dos médicos.

“Os médicos têm sempre alternativas, quando se sentem incomodados vão procurar outro local”, refere o responsável da Ordem dos Médicos. O diretor da urgência admite a tensão gerada pela decisão. “Saíram onze médicos. Alguns porque não concordaram com a reorganização que eu defendo e outros porque tiveram outras propostas”, limita-se a dizer Luís Duarte Costa.

Certo é que, neste momento, a urgência tem menos profissionais e o mesmo nível de afluência, o que tem desmotivado as equipas. “Estamos extremamente preocupados devido aos colegas, que vivem uma situação de grande angústia. E estamos preocupados com os utentes e com a formação dos médicos — é que, com estas condições, não há tempo e condições para assegurar a formação”, diz Tânia Russo.

Administração (demissionária) quer incentivos aos médicos e Inteligência Artificial

Em novembro, 30 médicos da urgência geral do Hospital Fernando Fonseca denunciaram, numa carta enviada ao bastonário dos médicos, a existência de escalas médicas deficitárias, que não cumprem os rácios de segurança definidos pela OM, numa situação que diziam ser “recorrente” e tem motivado o envio de muitas escusas de responsabilidade. Os médicos do Amadora-Sintra descreviam “uma realidade que ultrapassa todos os limites da segurança e da dignidade profissional”. Ainda em novembro, Carlos Cortes reuniu-se com o Conselho de Administração da ULS (ainda liderado por Carlos Sá, demissionário depois do caso da morte da guineense Umo Cani). “Propôs que o Conselho de Administração ouvisse a equipa e tentasse chegar à aproximação e a um consenso. Isso nunca aconteceu”, lamenta o presidente da Secção Regional do Sul da OM, que conhece bem o serviço.

Hospital Amadora-Sintra propõe criação de centro para reforçar resposta nas urgências

Uma das soluções que poderá ajudar a solucionar o problema do serviço de urgência do Fernando Fonseca é a criação de um Centro de Responsabilidade Integrado (CRI) dedicado, com incentivos para os médicos. “Fizemos uma proposta de CRI que foi encaminhada no final de novembro, que pode ser útil para atrair pessoas, num trabalho por objetivos, com notas de desempenho e com melhores pagamentos”, diz Luís Duarte Costa. A expectativa, segundo o presidente da ULS Amadora-Sintra, é que o novo sistema, que aguarda aprovação por parte da Direção Executiva do SNS, permita “reduzir os tempos de espera e reforçar ainda mais a diferenciação e melhorar as condições de trabalho dos seus profissionais”.

Entre as medidas previstas está também a implementação, até ao final do ano, de um novo circuito para doentes triados com pulseiras azul, verde e amarela, apoiado por uma ferramenta de inteligência artificial que agilizará o atendimento.

Com uma equipa deficitária e um mais que provável aumento da afluência com o início da época crítica de infeções respiratórias, a expectativa é que os tempos de espera na urgência do Fernando Fonseca se agravem nas próximas semanas. “Todos os invernos me dizem que isto é péssimo. Se nada foi feito na organização do SNS, ainda por cima com um Conselho de Administração demissionário, acho que vai ser pior”, admite o próprio diretor da urgência, Luís Duarte Costa, no cargo desde maio.

“No período de inverno, aumentam as infeções, é natural que aumentem os tempos de espera. E, portanto, a situação será pior”, concorda a dirigente sindical e médica pediatra Tânia Russo. “Vivemos a correr atrás do prejuízo no SNS”, lamenta.

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