O peso dos bens militares no total das exportações portuguesas é pequeno, mas está a crescer de forma notória, revela um estudo divulgado pelo Banco de Portugal nesta quarta-feira. Os dados recolhidos salientam que, em particular, a exportação de drones (aeronaves não-tripuladas) está a ter um “crescimento muito rápido”: eram “quase inexistentes em 2021” e passaram a representar 21% das exportações portuguesas de bens militares em 2025.
O estudo faz parte do Boletim Económico (trimestral) que o Banco de Portugal vai divulgar na próxima semana, mas foi revelado alguns dias antes. O Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal procurou fazer uma análise das exportações de bens que podem ter utilização militar – uma tarefa que envolve, sempre, algumas limitações no sentido em que existe alguma dificuldade em selecionar, com total precisão, todos os produtos que são vendidos com esse fim.
Banco de Portugal reconhece que esta é uma análise que envolve "algumas dificuldades"
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O Banco de Portugal reconhece que “uma análise do comércio externo deste tipo de bens, o que envolve, contudo, algumas dificuldades”. “Em primeiro lugar, este comércio é fortemente regulado por acordos internacionais, relacionados com embargos e sanções, e obedece frequentemente a autorizações das autoridades nacionais”, afirma o supervisor, acrescentando que “em segundo lugar, dada a sua natureza, estes fluxos comerciais estão sujeitos a padrões irregulares de encomendas, particularmente do lado das importações”.
Finalmente, o Banco de Portugal admite que “é muito difícil apurar com precisão os valores comerciados correspondentes a material militar, pois em muitos casos a sua utilização é dual, ou seja, bens classificados numa mesma nomenclatura detalhada do comércio internacional podem ter utilização militar ou civil”.
Apesar dessas limitações, o Banco de Portugal nota que, “em 2024 e 2025, o peso do conjunto de bens considerado como tendo utilização militar no total das exportações de bens foi inferior a 1%, embora uma classificação mais lata destes bens, incluindo alguns bens dos setores automóvel e de vestuário e calçado, pudesse mais do que duplicar esse peso”.
É um “peso reduzido das exportações de bens com utilização militar, porém o seu crescimento tem sido superior ao total, especialmente após 2022“, ano em que a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia.
“O crescimento nominal acumulado entre 2022 e 2025 foi cerca de 77%“, mais de três vezes o crescimento (nominal) das exportações portuguesas no mesmo período. E esta é uma análise que “deixa de fora outros bens com potencial utilização militar — por exemplo, produtos do setor têxtil e do calçado que podem constituir-se como uniformes militares”.
A maior parcela destas exportações diz respeito, revelam os dados compilados pelo Banco de Portugal, a armas de fogo e suas componentes, com um peso ligeiramente abaixo de metade do total, seguido do equipamento de proteção pessoal, representando aproximadamente um terço do total.
Mas onde se nota um “crescimento muito rápido“, salienta o estudo, é nas “exportações de aeronaves não tripuladas, que eram inexistentes em 2021 e passaram a representar 18% e 21% do total das exportações de bens com utilização militar em 2024 e 2025, respetivamente”.
Em Portugal existem várias empresas que fabricam e exportam drones, com destaque para a Tekever e a Beyond Vision.
A Tekever é uma empresa portuguesa de sistemas aéreos não tripulados, fundada por antigos alunos do Instituto Superior Técnico. O impulso das exportações portuguesas de alta tecnologia para a Ucrânia tem-se devido, sobretudo, aos drones da Tekever.
A empresa foi apontada como fornecedora de um novo drone de guerra eletrónica para a força aérea britânica e, em novembro, assinou um contrato de 30 milhões de euros com a Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA).
Unicórnio Tekever assina contrato de 30 milhões para vigiar águas europeias
Já a Beyond Vision, que tem uma fábrica em Alverca, exporta 95% da produção, sobretudo para os EUA, Médio Oriente, Brasil e Europa, e assinou em novembro um contrato nos EUA para fornecer 300 drones de emergência até 2028.
No que diz respeito aos países de destino das exportações de bens com utilização militar, considerando a média do período 2021 2025, os EUA apresentam-se como o principal destino, com um peso de 41%, seguidos pela Bélgica e França com pesos médios de 14%. As exportações para a Ucrânia apresentaram um peso de 5% neste período, mas representaram perto de 12% em 2025″, diz o Banco de Portugal.
No quadro da NATO, há um acordo político para que os países destinem uma maior parcela dos seus orçamentos nacionais à defesa, chegando até cerca de 5% do PIB até meados da década de 2030, com pelo menos 3,5% dedicado a necessidades militares e até 1,5% a outras capacidades relacionadas.
Este é um enquadramento que deverá, diz o Banco de Portugal, “originar uma maior procura por equipamentos militares, pelo que estes bens constituirão um segmento dinâmico da procura externa dirigida às empresas portuguesas”.