Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, recusou que o “rotundo não” de José Luís Carneiro não é uma decisão definitiva para o Orçamento do Estado e assegurou que “não é por vontade do PS” que o PSD “se entrega nas mãos da extrema-direita”. Num balanço sobre os últimos anos, recordou as autárquicas e presidenciais para concluir que PS conseguiu “não bater de frente contra o muro”.

Em entrevista ao Observador a partir do Congresso do PS, em Viseu, Brilhante Dias começou por recuperar as palavras de José Luís Carneiro, já quando foi derrotado por Pedro Nuno Santos, para realçar que “o secretário-geral do PS sempre disse que não seria o PS a colocar o PSD nas mãos da extrema-direita”. “É o PSD, não por vontade do PS, que se entrega nas mãos da extrema-direita para governar”, garantiu, recordando matérias em que Chega e PSD estiveram lado a lado.

Mais do que isso, o líder parlamentar do PS assegurou também que o partido continuará a ser uma “oposição responsável porque o país não pode andar em eleições todos os anos”.

Eurico Brilhante Dias assumiu ter dúvidas de que seja preciso um orçamento retificativo, começando por justificar que “o Governo enganou a Assembleia da República no que diz respeito ao saldo da Segurança Social” e defendendo que “foi um mero esquema artificial de condicionar a oposição” nas propostas de alteração do Orçamento do Estado.

Relativamente às tempestades que assolaram os distritos de Leiria e Coimbra, Brilhante Dias reforçou que “o dinheiro não chega” e, por isso, conclui: “Se calhar o retificativo não é necessário. Como o dinheiro não é executado não há maneira de fazer retificativo, porque o teto está lá intocável.”

Já sobre a moção que pede que Carneiro saia de cima do muro, Brilhante Dias entendeu que o PS já passou por duas eleições — autárquicas e presidenciais — e conseguiu “não bater de frente contra o muro”. “O caminho do PS, se continuarmos por este caminho, é o de voltar a ganhar eleições e de não sabemos se é o PSD que fica em terceiro lugar e não o Chega”, antecipou, realçando que o Governo escolheu como “muleta a extrema-direita” e “corre o risco de ser ultrapassado pela própria extrema-direita”.

Aos olhos do líder parlamentar do PS, o PSD está “algo assustado com os movimentos dentro do partido”, considerando que estes resultam da “direita portuguesa se ter atirado para o divã depois das eleições presidenciais”.

Sobre a questão dos juízes do Tribunal Constitucional, Brilhante Dias acusou o PSD de estar a “desequilibrar” as contas e explicou que “só há um partido que decide se o Chega entra ou não” neste órgão judicial. “O PS mantém a sua posição quanto ao Chega, mas o PSD, que é o único partido essencial a qualquer configuração de dois terços, tem de estar sempre presente. O PSD decidiu que o Chega estava e essa decisão não pode ser imputada ao PS”, justificou.

Questionado se ainda é possível haver alguma possibilidade de reverter o processo, o líder parlamentar do PS reiterou que Montenegro disse que este “não é um processo terminado” e realçou que não precisa de fazer “pré-marcações” de conversas com Hugo Soares sobre o tema, já que falam praticamente diariamente. “O meu interlocutor é o deputado Hugo Soares”, vincou, dizendo que as conversas, até agora, “não foram conclusivas” — Ainda tem “esperança” por ser “um otimista por natureza”, mas “não vislumbra qual será o desfecho”.

Separou este tema da alegada tentativa de revisão constitucional, mas deu conta de que a direita tem dado sinais para que isso aconteça: “O PSD sabe que não tem mandato para fazer revisão constitucional porque são questões que não foram levantadas no debate eleitoral.” E questionado sobre a possibilidade de intervenção de António José Seguro, o líder parlamentar do PS argumentou que “o Presidente da República não participa na revisão constitucional e não tem sequer de promulgar”. Portanto, entendeu que “isso é uma questão de análise política do Presidente da República”, um período que está “muito longe”.

Quanto à viagem de José Luís Carneiro à Venezuela, Eurico Brilhante Dias recusou que tenha havido uma leitura política errada. “Não iria, eu fui [à Venezuela]”, esclareceu, justificando que se faz “política para as pessoas e não para o éter”.

“A coisa que mais me abomina na política é o chamado político de aquário. Os 600 mil portugueses e lusodescendentes precisam de apoio e os detidos políticos pedem ajuda”, justificou, recusando dizer que quem criticou a viagem sejam peixinhos de aquário.

“O que eu ouvi foi considerar que a viagem podia ser mal interpretada e devo dizer que sempre que os portugueses precisarem nós vamos”, disse, garantindo que Francisco Assis estava “naturalmente informado” por o membro da direção do PS responsável pelas relações internacionais.