Mircea Lucescu, uma das figuras mais emblemáticas do futebol romeno, morreu esta terça-feira, por volta das 18h30 (hora de Lisboa), no Hospital Universitário de Bucareste. Depois de se ter sentido mal durante um treino, a saúde do treinador e antigo jogador, de 80 anos, deteriorou-se gravemente, obrigando-o a afastar-se do comando da seleção da Roménia e das funções na Federação Romena de Futebol (FRF).
O Hospital Universitário de Bucareste confirmou a morte num comunicado oficial citado pela imprensa romena, destacando o impacto de, “um dos treinadores e jogadores de futebol romenos mais premiados, o primeiro a qualificar a seleção romena para um Campeonato da Europa, em 1984“. “Gerações de romenos cresceram com a sua imagem nos corações, como um símbolo nacional. Que Deus o tenha na sua glória “, refere ainda o hospital.
A situação clínica de Lucescu começou com episódios de arritmia, que se agravaram progressivamente e exigiram repetidas intervenções médicas. Os médicos chegaram a implantar um desfibrilhador cardíaco — medida que inicialmente trouxe alguma esperança de estabilização. Segundo o jornal Fanatik, depois de apresentar sinais de recuperação, pediu ao filho — o treinador do PAOK, Răzvan — expressou o desejo de assistir à final da Taça da Grécia no final do mês, pedindo a Răzvan que lhe arranjasse dois bilhetes.
A FRF manifestou a sua tristeza pela perda do “treinador que definiu uma era”, considerando-o “não só um brilhante estratega, mas também um mentor, um visionário e um símbolo nacional que levou a bandeira tricolor aos mais altos patamares do sucesso mundial”. Segundo a FRF, Lucescu deixou “um legado colossal, difícil de igualar na história do futebol” e decretou um minuto de silêncio em sua memória antes dos jogos da próxima ronda da Superliga, Liga 2, Liga 3 e Superliga feminina romena.
Além da carreira internacional e da seleção romena, Lucescu manteve uma relação próxima com o FC Porto, embora nunca tenha chegado a treinar o clube. Numa entrevista ao Observador, Pinto da Costa contou que tentou contratá-lo, mas que questões com o Dínamo de Bucareste e uma proposta italiana impediram que o negócio se concretizasse. “Ele ficou escondido em casa de uma irmã do falecido Reinaldo Teles durante dois dias. A irmã levava-lhe comida e conseguimos fechar acordo, mas o Dínamo não o deixou sair sem exigir uma quantia enorme. Depois veio o Pisa, que pagou, e ele foi”, recordou Pinto da Costa.
Ainda assim, a amizade entre Lucescu e o presidente do FC Porto manteve-se sólida ao longo das décadas. Pinto da Costa recorda que o treinador chegou a usar um emblema do clube que lhe tinha oferecido, e que sempre demonstrou admiração pelo FC Porto. Lucescu também comentou a ligação ao clube português: “Conheço tudo sobre o FC Porto, aliás, conheço Pinto da Costa há mais de 30 anos. Podia ter sido treinador em 1990 e 1991”, referiu durante uma conferência de imprensa citada pelo Record.
Nascido em Bucareste a 29 de julho de 1945, Lucescu iniciou a sua carreira futebolística em 1961, ingressando numa escola desportiva na capital romena. Dois anos depois, ingressou no Dínamo Bucareste, iniciando uma carreira de sucesso como avançado.
Além de duas passagens pelo Stiinta Bucareste e pelo Corvinul Hunedoara, realizou 64 jogos pela seleção romena, da qual foi capitão no Mundial de 1970, no México.
O seu último jogo como avançado foi na época 1989/90, quando, como treinador do Dínamo Bucareste e aos 44 anos, entrou em campo em 19 de maio de 1990, num jogo contra o Sportul Studentes.
No total, marcou 81 golos em 377 jogos, conquistando sete títulos do campeonato romeno e três Taças da Roménia. Com o clube local Corvinul Hunedoara, assinou o seu primeiro contrato como treinador e, posteriormente, dirigiu clubes romenos como o Dinamo Bucareste e o Rapid Bucareste, com quem venceu a Taça da Roménia em 1998.
Depois de assumir o comando da seleção romena pela primeira vez em 1981, conquistou a primeira qualificação da equipa para um Campeonato Europeu, em 1984, em França.
Teve ainda uma carreira internacional em Itália, Turquia, Ucrânia e Rússia, treinando equipas como o Cremonese, Brescia, Inter de Milão, Galatasaray, Besiktas, Shakhtar Donetsk, Dínamo Kiev e Zenit São Petersburgo.
O seu período de maior sucesso internacional foi no Shakhtar Donetsk, onde treinou durante 12 temporadas, conquistando o campeonato oito vezes, a Taça seis e a Supertaça sete, para além da Taça UEFA em 2009.
Em maio de 2016, assinou com o Zenit São Petersburgo, conquistando a Supertaça da Rússia, embora tenha sido despedido em maio de 2017, depois de terminar em terceiro lugar no campeonato. Nesse mesmo ano, foi nomeado selecionador da seleção turca, cargo que ocupou até fevereiro de 2019.
Em agosto de 2024, regressou ao banco da seleção romena, 38 anos depois da sua primeira passagem, com o objetivo de a qualificar para o Mundial de 2026. Durante essa segunda passagem, obteve 11 vitórias, um empate e sofreu seis derrotas, mas a Roménia não conseguiu qualificar-se para o Mundial depois de perder com a Turquia na repescagem em 26 de março, uma derrota que, segundo a imprensa romena, lhe causou “grande deceção”.
Poucos dias depois, foi hospitalizado em Bucareste e submetido a uma intervenção cirúrgica após ter sofrido problemas cardíacos. A 2 de abril, apresentou finalmente a sua demissão.