Donald Trump anunciou este domingo um ultimato ao Irão: ou reabria o Estreito de Ormuz à passagem de navios até à madrugada desta quarta-feira ou os EUA e Israel atacavam várias das suas infraestruturas civis, como pontes e centrais elétricas.

Desde o início do conflito entre os EUA e Israel com o Irão, várias infraestruturas civis iranianas têm sido visadas no decurso da guerra, de universidades e escolas a aeroportos. O presidente dos EUA, no entanto, prometeu escalar as hostilidades ao ameaçar atacar especificamente as pontes e as centrais elétricas do país se Teerão não ceder quanto ao seu bloqueio do Estreito de Ormuz, dando como prazo as 20 horas desta terça-feira — hora local em Washington DC, 1hoo desta quarta-feira em Lisboa. As duas partes acabaram por acordar num cessar-fogo de duas semanas cerca de uma hora antes do fim do prazo da Casa Branca. Mas que pontes são estas que estiveram, e podem voltar a estar, na mira dos EUA?

As forças armadas norte-americanas já tinham destruído a 2 de abril a recentemente inaugurada B1, ponte em Karaj, provocando a morte de pelo menos oito pessoas. Já esta terça-feira, as Forças de Defesa de Israel anunciaram ter visado oito troços de pontes rodoviárias e ferroviárias em cidades como Teerão, Karaj, Tabriz, Kashan e Qom. “As passagens foram atingidas para impedir que as forças do regime as utilizassem para transportar equipamento e armamento”, justificaram as IDF.

No mesmo comunicado, as forças israelitas afirmam ter sido “tomadas medidas para reduzir a probabilidade de danos a civis, incluindo avisos prévios, o uso de armas de precisão e observações aéreas”. No entanto, de acordo com o vice-governador da província de Isfahan, citado pela Al-Jazeera, pelo menos duas pessoas morreram após o ataque à ponte ferroviária Yahya Abad, na cidade de Kashan.

A mesma emissora árabe apurou junto da agência estatal iraniana responsável pela gestão das pontes do país que o Irão tem cerca de 300.000 pontes, sendo que apenas 185 excedem os 100 metros de comprimento e apenas 42 têm um vão central — a maior distância não suportada entre dois pilares consecutivos — superior a 50 metros.

Tendo em conta estes critérios, a Al-Jazeera identificou cinco pontes particularmente importantes para o Irão em risco de destruição caso os EUA avancem para um ataque. Uma delas é a Shahid Kalantari, que atravessa o lago Urmia, unindo as cidades de Tabriz e Urmia, localizadas respetivamente nas províncias do Azerbaijão Oriental e Ocidental no noroeste do país.

Apesar de ter apenas 1,7 quilómetros de comprimento, esta ponte levou 29 anos a ser construída devido ao leito do Urmia, de cariz lamacento e altamente salino, tendo sido inaugurada em 2008. A sua destruição não só condicionaria a circulação, como poderia resultar num desastre ecológico ao fazer cair toneladas de aço e betão no lago.

Outra ponte cujo colapso teria várias consequências imprevisíveis é a Karun 4, a mais longa ponte em arco do país, com 378 metros de comprimento. Localizada sobre a albufeira da barragem do mesmo nome, edificada no rio Karun, liga as localidades de Shahr-e-Kord e Izeh da província de Chaharmahal e Bakhtiari no sudoeste do Irão. Inaugurada em 2015, o seu bombardeamento pode causar danos secundários na central hidroelétrica nas proximidades e causar inundações nas povoações a jusante.

Mais a sul, em Ahvaz, a ponte Ghadir atravessa o rio Karun e é uma importante estrutura rodoviária desta cidade, considerada o coração dos setores petrolífero e siderúrgico do Irão. Com pouco mais de um quilómetro de comprimento e 22 metros de largura, a queda desta ponte inaugurada em 2012 não só significaria um duro golpe para a indústria iraniana, como também, ao cortar a cidade em duas, impediria a circulação de milhares de cidadãos.

Outra estrutura que serve igual função é a secção suspensa da via rápida de Sadr, que atravessa o bairro de Tajrish, a norte do centro de Teerão. Trata-se da 11.ª ponte mais alta do mundo e a mais longa ponte multinível do Médio Oriente, com 11 quilómetros de comprimento, suportados por 234 pilares. A sua destruição não só teria efeitos catastróficos para a circulação na capital — tem seis faixas de trânsito —, como as tentativas de atacá-la afetariam também as habitações à sua volta, podendo resultar em elevada mortalidade.

Por fim, a Al Jazeera também destaca a ponte do Golfo Pérsico, que ainda está em construção mas que é um dos mais significativos investimentos infraestruturais do regime dos últimos anos — especialmente tendo em conta que a economia iraniana tem estado estrangulada por sanções. Localizada na província de Hormozgan, no sul do país, tem como desígnio ligar a ilha de Qeshm — a maior das ilhas do Irão — a Bandar Abbas, o seu maior porto continental.

Com a edificação iniciada em 2011, ainda só tem as fundações colocadas e os caixotões construídos, mas a sua destruição seria um duro golpe não só simbólico como também financeiro para o Irão: não só isso acabaria com décadas de planeamento, como afetaria as linhas de crédito que a China concedeu para a obra e o plano estratégico em que se sustenta o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul — uma rede multimodal transnacional que pretende ligar ao Irão à Índia, à Rússia e a outros países da Ásia Central.

O Telegraph contabilizou ainda outras pontes também em risco, como a de Lali, em Khuzestan, a de Balotak, perto da zona montanhosa de Dehdez, de Javadiyeh, em Teerão, a Ettehad‑e‑Melli, em Tabriz, e a Imam Reza, em Mashhad.

O jornal britânico sugere ainda que a ponte Tabiat, na capital, também pode ser um alvo, apesar de ser exclusivamente pedonal. Trata-se de um troço de 270 metros desenhado pela arquiteta Leila Araghian e que atravessa uma via rápida para ligar os parques Ab-o Atash e Taleghani. É uma das estruturas mais apreciadas pelos habitantes de Teerão, recebendo mais de 50 mil visitantes por semana.

Texto atualizado às 0h35 com o acordo do cessar-fogo