O bloqueio foi anunciado por Donald Trump no domingo, depois de cerca de 20 horas de negociações com o Irão em Islamabad. Os dois lados não chegaram a acordo e o Presidente norte-americano avançou com a medida, que entrou em vigor esta segunda-feira, às 10h em Washington (mais cinco horas em Portugal). Teerão condenou a operação, garantindo que nenhum porto no Golfo Pérsico estará seguro se a navegação aos portos iranianos estiver ameaçada.
Desde o início do bloqueio, dois navios sancionados por Washington terão conseguido atravessar o Estreito de Ormuz. Ainda assim, o Comando Central dos Estados Unidos da América (EUA) garantiu esta terça-feira que nenhuma embarcação transitou no canal marítimo e seis “inverteram a marcha”. Vários especialistas acreditam igualmente que os países aliados estarão a ajudar a operação. Mas como funciona o bloqueio no Estreito de Ormuz?
More than 10,000 U.S. Sailors, Marines, and Airmen along with over a dozen warships and dozens of aircraft are executing the mission to blockade ships entering and departing Iranian ports. During the first 24 hours, no ships made it past the U.S. blockade and 6 merchant vessels… pic.twitter.com/dpWAAknzQp
— U.S. Central Command (@CENTCOM) April 14, 2026
Que navios são alvos do bloqueio?
De acordo com uma notificação enviada pelo Comando Central dos EUA (CENTCOM) à qual a BBC teve acesso, o bloqueio “abrange toda a costa iraniana, incluindo, mas não se limitando a, portos e terminais petrolíferos”, e aplica-se a todo o tráfego de embarcações, independentemente da bandeira. Anteriormente, a entidade tinha informado que as forças militares norte-americanas “não impedirão a liberdade de navegação para embarcações que transitam pelo Estreito de Ormuz de e para portos não iranianos”, destacando que foram concedidas às embarcações “neutras” um período de tempo para que deixassem os portos iranianos antes do bloqueio começar. “Qualquer navio a entrar o sair da área de bloqueio sem a autorização está sujeito a ser intercetado, desviado e capturado”.
— U.S. Central Command (@CENTCOM) April 12, 2026
Desde o início do bloqueio, pelo menos dois petroleiros terão atravessado o Estreito de Ormuz e terão saído do Golfo Pérsico, apesar de estarem sob sanções — informação que foi contestada pelos Estados Unidos. Um deles, de bandeira chinesa, seguia para um porto nos Emirados Árabes Unidos, avançou a Reuters. Outros dois navios são de bandeira do Panamá e outro transportará petróleo russo e iraniano, embora não tenha como destino portos iranianos. De acordo com a BBC, um navio pertencente a uma empresa da Malásia também terá passado pelo estreito de Ormuz esta terça‑feira, apesar de ter sido carregado no porto iraniano de Bushehr.
Há, contudo, uma ressalva: o bloqueio vai continuar a permitir a passagem de navios humanitários, carregados com alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. Porém, serão sujeitos à inspeção dos militares norte-americanos.
Qual é a extensão do bloqueio?
Ao longo dos 1.800 quilómetros da costa sul, o Irão tem oito portos principais, todos localizados dentro da região do Golfo Pérsico. Porém, o bloqueio norte-americano cobre o Golfo Pérsico, o Estreito de Ormuz e o Golfo de Omã, por onde circulam os navios que chegam e saem dos portos iranianos. Um dos pontos mais críticos e responsável pela passagem de um quinto do petróleo mundial, Ormuz tem 39 quilómetros de extensão na sua porção mais estreita, porém, devido à profundidade das águas para a passagem de navios de grande dimensão como os de transporte de petróleo, a navegação fica restrita a duas linhas principais com aproximadamente 3,7 quilómetros de largura.
Como está a funcionar o bloqueio?
De acordo com o Wall Stret Journal, os EUA estarão a intercetar os navios ainda antes destes chegarem no Estreito de Ormuz, dos dois lados da passagem, para assim evitar que entrem ou deixem os portos iranianos. Se o navio não aceitar o pedido de embarque, os militares com treino especial, como os SEALS, iniciam uma operação de embarque forçado — o que inclui a possibilidade de um militar norte-americano passar a ser o capitão do navio, para o deslocar a um porto de detenção.
???????????????? TWO CHINESE TANKERS REVERSE COURSE AND HEAD BACK AFTER U.S BLOCKADE pic.twitter.com/8GYVLMbFDX
— Sulaiman Ahmed (@ShaykhSulaiman) April 13, 2026
Desde os primeiros bombardeamentos israelo‑americanos a 28 de fevereiro, o Irão já tinha praticamente fechado o estreito de Ormuz, tendo-o reaberto apenas por algumas horas após o anúncio do cessar-fogo acordado entre Teerão e Washington (voltaram a fechá-lo depois dos ataques de Israel ao Líbano). Os navios que tentavam atravessar o canal marítimo sem autorização prévia de Teerão corriam o risco de ser atacados pela Marinha iraniana.
Além de Teerão e a partir de bases e meios navais no Golfo Pérsico — incluindo no Bahrein, nos Emirados Árabes Unidos e no Qatar —, a Marinha norte‑americana passou também a controlar Estreito de Ormuz, ao bloquear navios que entrem ou saiam de portos iranianos. Washington assumiu, por isso, um papel central na vigilância do tráfego que atravessa aquela passagem estratégica.
Teerão tem agora muito menos margem de manobra para enfrentar o domínio naval norte‑americano no Estreito de Ormuz e, na prática, vê‑se forçado a adaptar‑se às regras impostas pelo bloqueio dos EUA. Donald Trump diz que a marinha iraniana foi “dizimada” com os ataques israelo-americanos desde 28 de fevereiro.
Qual é a estrutura militar destacada para a operação?
Segundo avançou o Comando Central norte-americano, dez mil marinheiros, fuzileiros e pilotos, juntamente com mais de uma dúzia de navios de guerra e centenas de aeronaves, estão a executar esta missão.
De acordo com o antigo capitão da marinha norte-americana e analista de segurança da CNN Carl Schuster, dos seis lançadores de mísseis que estão dentro do Golfo, dois seriam usados para o embarque enquanto os outros quatro serão direcionados a interromper ações de retaliação iranianas. O especialista assinala ainda que a marinha norte-americana treina equipas com entre 10 a 14 elementos para assumir o controlo de navios comerciais, que inclui um oficial de convés que age como o capitão e “guia a embarcação para a ancoragem ou o porto de detenção”. A ação de dois navios de guerra norte-americanos seria capaz de intercetar seis navios por dia.
Outros países também estão a participar no bloqueio?
Não há confirmação oficial de outros estados estejam a participar nesta operação, apesar de Donald Trump ter dito que “outros países participarão deste bloqueio”. De acordo com especialistas ouvidos por órgãos de comunicação social norte-americanos, devido à complexidade da operação, os EUA podem precisar da ajuda dos aliados. É o que assinala o almirante reformado James Stavridis, também em declarações à CNN. O especialista considera que o Pentágono pode precisar das equipas de dois porta-aviões e outros 12 navios do lado de fora do Golfo Pérsico para fazer a patrulha da entrada no Estreito de Ormuz, enquanto que dentro do Golfo, pelo menos seis lançadores de mísseis serão necessários, com a ajuda das marinhas de países aliados, como os Emirados Árabes Unidos ou a Arábia Saudita.
Já o almirante reformado Kevin Donegan, que já liderou operações da marinha norte-americana no Médio Oriente, em declarações ao Wall Street Journal, explica que os EUA podem rastrear a movimentação de navios comerciais através de equipamento que os monitoriza, dados com fonte aberta e ativos militares, além de eventualmente receber o auxílio das plataformas de vigilância e drones de países do Golfo.