O bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, foi esta terça-feira eleito pelos bispos católicos portugueses como novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), sucedendo ao bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, que liderava o organismo desde 2020. O anúncio foi feito pela própria CEP em comunicado enviado às redações, que revela também que o arcebispo de Braga, José Cordeiro, foi eleito como vice-presidente.
O conselho permanente da CEP vai integrar, além do presidente e do vice-presidente, o bispo de Vila Real (António Augusto Azevedo), o bispo de Aveiro (António Moiteiro), o bispo de Angra (Armando Esteves Domingues), o bispo de Santarém (José Traquina) e o patriarca de Lisboa (Rui Valério), que é membro nato deste organismo.
Virgílio Antunes, de 64 anos de idade, foi durante os últimos seis anos vice-presidente da CEP, estando ao lado de José Ornelas na gestão da crise dos abusos sexuais de menores, o tema que mais impactou a Igreja Católica em Portugal na última década.
Natural de São Mamede, no concelho da Batalha, Virgílio Antunes é bispo desde 2011, ano em que foi escolhido pelo Papa Bento XVI para ocupar o cargo de bispo de Coimbra. Antes disso, tinha sido reitor do Santuário de Fátima, após um percurso todo feito na diocese de Leiria-Fátima.
Novo líder dos bispos promete continuidade e Igreja atenta ao mundo contemporâneo
Nas suas primeiras declarações no novo cargo, num pequeno vídeo divulgado pela própria CEP, o bispo Virgílio Antunes destacou que assume este cargo com espírito de “serviço à Igreja” e prometeu dar continuidade ao percurso da Igreja — num vídeo de quatro minutos e meio, usou a palavra “continuidade” quatro vezes.
“Vamos por diante, dando continuidade a um caminho da Igreja em Portugal — que já tem muitos séculos —, nomeadamente, nos últimos tempos, uma direção, uma presidência da Conferência Episcopal que fez um trabalho que considero muito meritório, porque procurou desenvolver esta harmonia dentro dos bispos e dentro da Igreja em Portugal”, afirmou Virgílio Antunes, acrescentando que a direção anterior “procurou desenvolver alguns dos dossiês que foram importantes e que continuam a ser muito importantes no tempo presente e no futuro, com o que diz respeito à evangelização, com o que diz respeito à coesão, à liturgia, à questão dos abusos sexuais na Igreja, da proteção de menores”.
“Há um conjunto de dossiês que são do nosso tempo. As questões fraturantes dentro da sociedade portuguesa, a análise das questões da sociedade atual, como são as guerras, como são os problemas que existem em tantas áreas. E, portanto, nós queremos, com certeza, levar por diante a mesma missão da Igreja, de todos os tempos para este tempo, e dar continuidade àquilo que se tem vindo a fazer na Igreja em Portugal”, reiterou, garantindo que “na Igreja não há dossiês fechados” e que vários temas atuais exigem “continuidade”.
Simultaneamente, Virgílio Antunes assegurou que a Igreja não pode estar “alheia às questões fundamentais que se passam dentro da própria Igreja e dentro da sociedade” e destacou o exemplo do Papa Leão XIV, que nos últimos dias entrou num aceso confronto com Trump acerca da guerra no Irão, que tem dado “testemunho de uma presença, de uma necessidade de declarações, de um conhecimento da realidade e, de algumas vezes, inclusivamente, uma voz carregada da energia que vem do Evangelho”.
Antigo reitor de Fátima é especialista em Bíblia
Ainda na juventude, Virgílio Antunes frequentou o Seminário Menor de Leiria, para depois estudar Filosofia e Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra.
Ordenado padre em 1985, Virgílio Antunes foi pároco nas paróquias de Barreira e Cortes, na diocese de Leiria-Fátima, ao mesmo tempo que ocupava cargos de formação no seminário de Leiria. Na década de 1990, estudou em Roma e em Jerusalém, onde se especializou com ciências bíblicas. Depois disso, voltou a Leiria-Fátima, onde foi reitor do seminário e dirigiu o jornal diocesano — até ser, em 2008, nomeado reitor do Santuário de Fátima.
Como reitor do principal lugar de culto católico do país, promoveu importantes projetos de remodelação do santuário e foi o responsável pelo início das celebrações do centenário das aparições. Nessas funções, recebeu, em 2010, a visita do Papa Bento XVI a Fátima.
Foi ordenado bispo em 2011 e, desde essa altura, ocupa o cargo de bispo de Coimbra. Em 2020, foi escolhido para o cargo de vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, coadjuvando José Ornelas na liderança do organismo colegial que reúne todos os bispos católicos do país.
Bispos escolhem continuidade
Antes desta eleição, alinhavam-se diferentes possibilidades para a sucessão de José Ornelas. Um dos sucessores mais frequentemente apontados era Rui Valério, patriarca de Lisboa desde 2023 — cuja eleição representaria o regresso a uma tradição de associar o patriarca de Lisboa com a liderança da Igreja Católica em Portugal (todos os seus antecessores ocuparam, em algum momento, a presidência da CEP).
Outra possibilidade era a de José Cordeiro, o atual arcebispo de Braga, considerado uma figura forte dentro da Igreja Católica em Portugal — e que foi escolhido para vice-presidente. A possibilidade de eleição do cardeal Américo Aguiar, a figura mais mediática da Igreja portuguesa, parecia à partida condenada a não reunir um consenso entre os bispos nacionais, sobretudo devido ao seu estilo.
Em todas as discussões pré-eleitorais, Virgílio Antunes surgiu como a figura da continuidade, que poderia reunir o apoio dos restantes bispos caso não houvesse acordo para a escolha de um caminho diferente para a Conferência Episcopal no futuro.
Os últimos anos para a Igreja Católica em Portugal ficaram inevitavelmente marcados pela crise dos abusos sexuais, particularmente associada à atual liderança da CEP. Foi sob a presidência de José Ornelas (e a vice-presidência de Virgílio Antunes) que os bispos católicos portugueses decidiram, em 2021, convocar uma comissão independente para investigar a história dos abusos de menores na Igreja em Portugal.
A decisão juntou Portugal aos muitos outros países onde a Igreja decidiu investigar o seu próprio passado e abriu no país uma crise que, durante décadas, parecia ter passado ao lado do clero português. Desde a apresentação do relatório final, em 2023, que estimou em 4.815 o número de vítimas de abusos desde a década de 1950 até à atualidade, que a crise dos abusos tem sido o principal tema a impactar a realidade da Igreja no país.
Inicialmente aplaudida pela decisão de investigar o passado de abusos, a Igreja mergulharia depois novamente na polémica. Por um lado, apesar das tentativas de José Ornelas para apresentar uma Igreja unida e a falar a uma só voz sobre a realidade dos abusos, transpareceu sempre que nunca houve unanimidade entre os bispos sobre o caminho a seguir. Dentro do colégio episcopal, não faltavam bispos críticos deste processo, que viram com maus olhos a disponibilidade da Igreja para se deixar investigar por uma comissão independente.
A criação de um mecanismo de atribuição de compensações financeiras às vítimas de abusos veio aprofundar ainda mais a crise.
Numa primeira fase, foram várias as vítimas que vieram a público queixar-se de que estavam a ser interrogadas de forma invasiva. Depois, os atrasos sucessivos no processo de compensações motivaram ainda mais críticas e obrigaram os bispos a vir pedir desculpa publicamente. Por fim, a redução significativa dos valores a atribuir a cada vítima, em relação aos montantes propostos pela comissão de juristas convocada pela própria Igreja, levou a novas críticas contra a liderança da Conferência Episcopal.
A atual presidência da CEP, composta por José Ornelas e Virgílio Antunes, teve várias vezes de dar a cara pelos consensos possíveis dentro do colégio episcopal — onde vários bispos mais conservadores se opuseram à investigação dos abusos, à criação de comissões de proteção de menores e até à atribuição de compensações financeiras a vítimas.
Com o processo de gestão da crise dos abusos ainda claramente em curso — e com fortes probabilidades de ainda atrair novas críticas para a Igreja Católica —, os bispos acabaram por optar por uma escolha de continuidade, elevando a presidente da CEP o bispo que tem sido o número dois de José Ornelas durante os últimos anos.
Proatividade no combate aos abusos
Depois da eclosão global da crise dos abusos em 2018, Virgílio Antunes foi um dos bispos mais proativos em Portugal no que toca à proteção de menores.
Em 2019, ainda antes de o Vaticano tornar obrigatória a criação de uma comissão de proteção de menores em todas as dioceses e institutos religiosos, Virgílio Antunes foi um dos primeiros a criar um destes organismos em Coimbra, de forma voluntária.
Um aspeto particularmente relevante dessa decisão foi o facto de, na altura, ter colocado Marta Neves, uma psicóloga clínica, à frente dessa comissão — contrariando a prática habitual de nomear um padre para o cargo. A decisão foi entendida como uma forma de combater o clericalismo que ainda prolifera dentro da Igreja e que atribui ao clero todos os cargos de poder interno da instituição, incluindo os de supervisão do próprio clero.
Anos antes, quando surgiram denúncias de abusos contra um sacerdote da diocese de Coimbra, foi a própria diocese, sob a liderança de Virgílio Antunes, a recolher informações sobre o caso e a transmiti-las proativamente à Polícia Judiciária.
Na qualidade de vice-presidente da CEP, Virgílio Antunes esteve sempre com José Ornelas em Roma nas reuniões privadas com o Papa Francisco. Além disso, na mesma qualidade, foi um dos dois representantes portugueses no Sínodo sobre a Sinodalidade de 2023-2024.
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