A cidade de Nova Iorque vai ter uma rede pública de supermercados cuja primeira loja, em East Harlem, irá custar 30 milhões de dólares (25 milhões de euros) e só abrir em 2029 – mas irá trazer “preços mais baixos” em bens alimentares essenciais, garantiu o novo mayor da cidade, Zohran Mamdani.
O responsável apresentou na terça-feira os principais contornos de um plano ambicioso para criar uma rede de supermercados propriedade da cidade, sublinhando que não se tratará de um modelo puramente estatal com funcionários públicos. Em vez disso, a estratégia será fazer uma parceria público-privada onde a autarquia mantém a propriedade dos terrenos e absorve os principais custos fixos, como construção e manutenção, permitindo que um operador privado venda bens essenciais a preços subsidiados.
O primeiro local escolhido para este projeto é um terreno baldio em East Harlem, perto de La Marqueta, onde se espera que a nova loja sirva cerca de 65 mil residentes que atualmente enfrentam, em muitos casos, uma grave crise de acessibilidade alimentar. O plano, como um todo, prevê a abertura de mais lojas e o orçamento total, nesta fase, é de 70 milhões de dólares (quase 60 milhões de euros).
Este novo modelo surge como uma resposta direta ao que a edilidade classifica como uma falha de política pública, argumentando que os incentivos fiscais lançados anteriormente não foram eficazes no objetivo de baixar o custo de vida para as famílias mais pobres. Mamdani garantiu que o operador privado será contratualmente obrigado a manter preços reduzidos em produtos básicos como pão e ovos, embora ainda não tenha detalhado a fórmula exata para esse desconto.
No entanto, como avançam jornais norte-americanos como o The New York Post, a viabilidade do projeto enfrenta obstáculos consideráveis, desde o défice orçamental de 5,4 mil milhões de dólares que a cidade acumula até à resistência de pequenos comerciantes locais, que temem não conseguir competir com um rival que beneficia de subsídios públicos e isenção de rendas.
No plano político, o anúncio foi recebido com cautela pela presidente do conselho municipal, Julie Menin, cuja aprovação é necessária para libertar os 70 milhões de dólares previstos para o programa. A relação entre Menin e Mamdani tem sido descrita como cada vez mais problemática, com trocas de acusações sobre cortes orçamentais e estratégias de comunicação.
Além disso, as questões laborais permanecem por resolver, uma vez que o mayor se recusou a prometer que os novos postos de trabalho seriam obrigatoriamente sindicalizados, limitando-se a falar em “padrões salariais de nível sindical“.
A ideia de mercearias públicas geridas pela cidade, com preços acessíveis e função de serviço público, praticamente não existe nos EUA, daí o projeto do Mamdani ser apresentado como um projeto-piloto emblemático – que já tinha sido, até certo ponto, prometido por Mamdani durante a campanha eleitoral.
Nos EUA, existem algumas iniciativas comunitárias ou filantrópicas: bancos alimentares, despensas comunitárias, lojas de “pay what you can” (em que os clientes pagam à medida que podem) e, mais recentemente, a mercearia gratuita pop‑up da Polymarket, que oferece mantimentos grátis por poucos dias, financiada por doações – mas não existem redes públicas organizadas nem um serviço municipal nesta área.
Portugal tem uma rede formal de “mercearias sociais” associadas a IPSS, autarquias e retalhistas (como a Auchan, por exemplo), agora organizada na Rede Integrada de Mercearias Sociais (RIMES), que são apresentados como uma resposta social que garante acesso mais digno a alimentos a preços simbólicos ou com pontos/crédito social.
Outros países europeus têm formatos próximos, embora com outros nomes. Em França há as Épiceries Solidaires” (mercearias solidárias), apoiadas por autarquias e associações, onde famílias com baixos rendimentos compram produtos a preços fortemente reduzidos em vez de filas de cabaz. Em Itália e Espanha também há “supermercados solidários” e bancos alimentares que evoluíram para lojas‑mercado, onde o beneficiário escolhe o que leva, usando cartões de pontos ou preços reduzidos, em vez do modelo clássico de cabaz.
Em países como a Alemanha, a Áustria e a Suíça há redes de Sozialmärkte, que vendem excedentes e produtos doados a preços muito baixos a pessoas com comprovativo de carência económica, com a mesma lógica de dignidade e autonomia na escolha.