O vírus que provocou a morte a três pessoas esta semana num cruzeiro transatlântico — que tem um português, membro da tripulação a bordo — é transmitido por roedores e tem uma elevada taxa de letalidade, podendo algumas das suas espécies levar à morte de perto de 40% dos infetados, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Em causa está um navio de cruzeiro com bandeira holandesa, que partiu da Argentina há cerca de três semanas com 150 passageiros a bordo, com destino a Cabo Verde. O surto a bordo fez três mortos (dois de nacionalidade holandesa) e deixou pelo menos três doentes (um deles internado nos cuidados intensivos num hospital da África do Sul).

Entre os membros da tripulação está um cidadão português, que se encontra bem de saúde, disse ao Observador fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). A bordo do navio, o MV Hondius, estão 147 pessoas, entre passageiros e tripulação, sendo que nenhum dos passageiros é português. O MNE garante que, até agora, não recebeu qualquer pedido de ajuda.

Este domingo, as autoridades de saúde cabo-verdianas prestaram assistência ao cruzeiro ancorado ao largo da cidade da Praia, enviando equipas de profissionais de saúde com equipamentos de proteção individual a bordo do navio. Foi realizada uma operação de avaliação e assistência médica, mas não haverá desembarque de qualquer pessoa no arquipélago. O navio vai manter contacto permanente com as autoridades das ilhas para qualquer necessidade, mas passageiros e tripulantes vão continuar no mar.

Transmitido por urina, fezes e saliva de roedores. Transmissão entre humanos é “muito rara”

O vírus em causa é um hantavírus, uma família de vírus habitualmente transmitidos por roedores, como ratos e ratazanas. De acordo com o The Guardian, são conhecidas pelo menos 38 espécies diferentes de hantavírus a nível global, das quais 24 podem causar doenças em seres humanos — embora as infeções por hantavírus em humanos sejam significativamente raras.

“Os casos de transmissão humana não são impossíveis mas são muito raros. Os poucos casos descritos são entre cônjuges”, diz ao Observador o infecciologista Jaime Nina, que há anos estuda e dá aulas sobre este tipo de vírus no Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa. O especialista sublinha que se trata de uma “infeção grave, com taxa de letalidade que anda na casa dos 25% a 30% em populações modernas”.

Os hantavírus encontram-se habitualmente em roedores, como ratos e ratazanas, e podem transmitir-se aos seres humanos através do contacto com a urina, as fezes ou a saliva dos roedores. O CDC diz ainda que, em alguns casos mais raros, o vírus pode transmitir-se por mordidas e arranhões de roedores. “O contágio não é fácil, envolve normalmente contacto direto com roedores“, realça Jaime Nina.

Segundo o CDC, os hantavírus podem dividir-se, genericamente, em duas grandes famílias: os que são encontrados no hemisfério ocidental (particularmente no continente americano), que causam habitualmente complicações pulmonares; e os vírus mais frequentemente encontrados na Ásia e na Europa, que provocam habitualmente febre hemorrágica e complicações renais. “A estirpe americana atinge mais o pulmão, as estirpes euroasiáticas atingem mais o rim”, sublinha Jaime Nina.

Três mortos ligados a foco de síndrome respiratória aguda num cruzeiro no Atlântico

O médico e professor explica que a Argentina, país de onde partiu o navio cruzeiro MV Hondius, é considerado um “país endémico do hantavírus”, assim como a maioria dos países da América do Sul, como o Chile ou Uruguai. A infeção por hantavírus é, aliás, uma infeção mais frequente nas zonas temperadas a frias, acrescenta, sendo que, na Europa, o país que regista mais casos é a Finlândia.

Jaime Nina sublinha que a inalação de aerossóis contaminados com urina, fezes ou saliva de roedores é uma das formas mais frequentes de contágio, sendo que, em climas frios, o vírus resiste durante mais tempo, aumentando o risco de transmissão. “Um aerossol com urina, por exemplo, pode manter a capacidade de infeção durante vários dias se o clima for frio”, salienta o professor universitário.

O especialista explica que hantavírus é um “vírus fundamentalmente rural”. “A maioria dos casos são detetados em camponeses, caçadores e turistas que passam tempo em cabanas. Há muitos casos descritos no oeste dos EUA, por exemplo”.

Sintomas em duas fases. Taxa de mortalidade é elevada

De acordo com o CDC, os primeiros sintomas surgem habitualmente entre uma e oito semanas depois do contacto com o roedor infetado. Os primeiros sintomas são semelhantes aos de uma gripe, incluindo fadiga, febre e dores musculares, mas também dores de cabeça, tonturas, arrepios, náuseas, vómitos, diarreia ou dor abdominal.

Quatro a dez dias depois do surgimento dos primeiros sintomas, é habitual surgirem os sintomas tardios da doença, explica o CDC, detalhando que é nesta segunda fase que chegam sintomas como a tosse, a falta de ar e as dores no peito — já que esta segunda fase da doença é caracterizada pela presença de líquido nos pulmões.

No caso dos vírus que causam complicações respiratórias, a taxa de letalidade situa-se em torno dos 38%, diz o CDC.

Outras variantes do vírus, responsáveis por causar febre hemorrágica com complicações renais, são menos letais. Nesse caso, os sintomas incluem dores de cabeça, dores abdominais e de costas, febre e arrepios, náuseas, visão turva, hemorragias internas, vermelhidão no rosto e nos olhos e falhas renais. Algumas destas variantes têm uma taxa de letalidade entre os 5% e os 15%, enquanto outras ficam abaixo de 1%.

No caso do alegado surto de hantavírus a bordo a cruzeiro MV Hondious, a “OMS não identificou ainda a estirpe” e portanto, ainda não é conhecida a forma de transmissão, sublinha a médica de Saúde Pública Joana Moreno. “Não sabemos se as pessoas apanharam a infeção de fezes ou urina de ratos ou se trata da estirpe que permite a transmissão de pessoa para pessoa”, sublinha a especialista.

O infeciologista Jaime Nina explica que a taxa de mortalidade está muito associada à condição socioeconómica dos doentes e à capacidade de acederem a cuidados de saúde. “Se for um pobre agricultor chinês, a taxa de mortalidade é alta. Se for um norte-americano que vai logo para unidade de cuidados intensivos, a taxa baixa para os 15/20%”, adianta o especialista.

Não há tratamento específico. Diagnóstico é pouco frequente

Ainda de acordo com o CDC, não há um tratamento específico para a infeção pelo hantavírus. Aos doentes mais ligeiros é recomendado o repouso e a hidratação — e podem ser tomadas algumas medidas para tratar os sintomas. Nos casos mais graves, os pacientes podem ter de ser entubados e ventilados. Nos casos em que o vírus afeta os rins, pode também ser necessário recorrer à diálise.

“Na maior parte dos casos, o tratamento passa por deixar a imunidade funcionar”, explica o infecciologista Jaime Nina, acrescentando que, nos casos (raros) em que a infeção é detetada numa fase precoce, há uma opção terapêutica antivírica: a ribavirina. No entanto, sublinha, como se trata de uma infeção rara e muitas vezes com sintomas inespecíficos, os profissionais de saúde geralmente “não pensam nisto”, o que torna o diagnóstico (que tem de ser feito com teste PCR) pouco frequente, impedindo uma intervenção terapêutica atempada.

Considerando a elevada taxa de letalidade do vírus, as autoridades de saúde recomendam essencialmente a prevenção: deve reduzir-se ao mínimo a exposição a roedores e apostar na limpeza intensiva de locais onde podem estar ou circular ratos, ratazanas e outros roedores. As autoridades norte-americanas recomendam ainda especial atenção a pessoas que tenham roedores como animais de estimação, como hamsters ou porquinhos-da-índia.

Segundo Jaime Nina, existe uma vacina de fabrico chinês usada para prevenir a infeção, de cariz profilático, e que é administrada aos militares chineses e exportada para alguns países asiáticos.

Quantos casos são detetados? O vírus circula em Portugal?

Em todo o mundo, são detetados todos os anos “alguns milhares de casos” de infeção por hantavírus em humanos, sendo que sendo de dois terços das novas infeções são registadas na China, diz o infecciologista. Em Portugal, ainda não foi detetado nenhum caso em humanos, nem sequer identificado qualquer roedor infetado, salienta o especialista.

“O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge tem capacidade diagnóstica e faz testes regulares para saber se há ratos ou ratazanas infetados. Ainda não foi encontrado em Portugal, e em Espanha também não”, garante Jaime Nina, salientando que este vírus não encontra condições propícios para resistir em países com clima tropical ou semitropical.

Vem aí outra pandemia?

Tudo indica que não há risco de este surto dar origem a uma epidemia ou pandemia comparável à da Covid-19. “Não haverá nenhuma pandemia de hantavírus”, atira o professor universitário. Uma vez que a transmissão entre humanos é relativamente rara, as populações em maior risco são aquelas que podem ter maior contacto com roedores, como agricultores ou até funcionários de empresas de controlo de pestes.

Como atua a Saúde Pública em casos como este?

Em casos como o navio cruzeiro onde foram detetados vários casos de hantavírus, o objetivo da Saúde Pública deve ser “tentar perceber qual a fonte da infeção, falar com pessoas, tentar perceber que atividades fizeram juntas (neste caso, na Argentina)”, explica a médica Joana Moreno. “Imaginemos que algumas destas pessoas não saíram do navio na Argentina, aí poderia justificar-se uma transmissão pessoa a pessoa”, exemplifica a médica.

A especialista considera improvável que a transmissão tenha ocorrido no interior do navio e admite que os alimentos a bordo, contaminados em terra, estejam na origem do contágio. “Pode acontecer que as mercadorias tenham sido contaminadas com urina de rato, ou seja, os alimentos estão guardados em armazéns e esses armazéns podem ter ratos”, realça Joana Moreno, considerando acertada a opção das autoridades cabo-verdianas de não permitirem ao navio atracar. “Faz sentido, até haver possibilidade de ter havido transmissão pessoa a pessoa. Até haver resultados laboratoriais, faz sentido manter o navio em quarentena”, vinca.

A especialista alerta para a importância da prevenção e da realização de consulta do viajante, principalmente no caso de turistas que se desloquem para locais mais remotos.

*com Hugo Fortunato Oliveira

[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Texto atualizado às 15h15 com as declarações do infecciologista e professor universitário Jaime Nina e da médica de Saúde Pública Joana Moreno