O Governo reconhece que há pessoas com rendimentos abastados a viver em Portugal que têm acesso à tarifa social de eletricidade pelo simples facto de não declararem esses rendimentos às autoridades nacionais. Não é fraude, mas sim o resultado da ausência de dados relativos a rendimentos destes consumidores que em alguns casos até chegam a pedir às comercializadoras para os excluírem da tarifa social.
Para o secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, mais importante do que discutir quem paga a tarifa social — se o Estado se o sistema elétrico — é perceber quantos beneficiários existem e quem são esses beneficiários. “Quando sabemos que temos pessoas que vivem com abastados rendimentos e que só pelo facto de não os declararem em Portugal têm acesso à tarifa social, sabemos que temos um problema”.
A declaração de Jean Barroca foi feita durante a apresentação da avaliação independente realizada pela Agência Internacional de Energia à política energética portuguesa. Um dos temas tratados neste relatório são os custos de política energética que oneram os preços da energia.
Sucesso de Portugal nas energias renováveis ainda não chegou aos transportes e aos edifícios
A tarifa social da eletricidade garante aos beneficiários um desconto de mais de 30% no preço da energia suportado pela generalidade dos clientes. Tem um custo anual de 150 milhões de euros que é distribuído pela cadeia do sistema elétrico, desde os produtores aos comercializadores, acabando por ir parar aos preços finais. Esta tarifa passou a ser atribuída de forma automática aos consumidores que cumprem critérios de rendimento baixo, nomeadamente recebendo prestações sociais como o subsídio de desemprego, abonos familiares, rendimento social de inserção. Mas o modelo que está em vigor atribui a tarifa social também a quem não tem rendimentos declarados em Portugal, uma vez que cabe ao fisco e à segurança social validarem as condições de acesso.
Questionado sobre a dimensão destas atribuições indevidas, Jean Barroca explicou que o conhecimento desta realidade resulta da iniciativa dos próprios beneficiários que escrevem a pedir para não receberem a tarifa social, reconhecendo que é “anedótico”. O secretário de Estado assinala que não está em causa uma situação de fraude, mas sim de desenho do modelo da tarifa social que é atribuída de forma automática e não através de um pedido do próprio. “A pessoa não pode abdicar”.
O secretário de Estado defendeu a necessidade de mudar o modelo de atribuição, o que passa necessariamente por apertar as regras. É preciso mudar as regras do sistema e tomar decisões sobre quem tem acesso, defendeu. “Queremos garantir que damos benefícios a quem precisa deles.” E destaca que o número absoluto de beneficiários em Portugal — cerca de 760 mil famílias — é igual ao de Espanha, um país que tem quatro vezes mais população.
A atribuição automática da tarifa social da eletricidade foi uma medida negociada durante o primeiro Governo de António Costa na fase da geringonça que envolveu negociações com o Bloco de Esquerda e o PCP. Entrou em vigor em 2016, tendo resultado numa explosão do número de beneficiários.
Número de beneficiários da tarifa social na eletricidade sobe para 690.000
O modelo original colocava as produtoras de energia elétrica a pagar os descontos, mas a EDP apresentou uma queixa na Comissão Europeia contestando a obrigação de pagar uma política de apoio social que deveria ser assegurada pelo Estado. Bruxelas veio a dar razão à EDP e Portugal teve de alterar o financiamento, distribuindo os custos por todos os atores do sistema, incluindo os comercializadores que acabam por passar esse custo para todos os outros clientes.
Elétricas podem atirar custo da tarifa social para clientes. ERSE diz que decisão cabe às empresas
Jean Barroca não se comprometeu com um calendário para alterar as regras, sinalizando que as mudanças no regime da tarifa social estão no programa do Governo.
A Agência Internacional de Energia faz uma recomendação para o país eliminar alguns os custos de interesse económico geral que oneram a fatura elétrica. Durante a apresentação do relatório, o secretário de Estado da Energia reconheceu que há muito a fazer nos preços da eletricidade em Portugal, remetendo para um défice tarifário para pagar que, apesar de estar a baixar, ainda pesa mil milhões de euros. Outros custos que pesam na tarifa são os contratos de remuneração garantida a alguns produtores — 600 milhões de euros — a convergência tarifária pela qual o continente subsidia as tarifas nas ilhas, e as rendas pagas aos municípios pela rede de baixa tensão — 315 milhões de euros. “São opções políticas que influenciam os preços, mas fazem parte do sistema que temos”.