A China publicou novas diretrizes para alargar o acesso dos migrantes internos aos serviços públicos básicos no local de residência, flexibilizando um sistema de registo, que condiciona o acesso a prestações sociais fora do local de origem.
O documento, divulgado pelo Conselho de Estado (Executivo) na passada sexta-feira, propõe que a população sem o sistema de apoio, conhecido como “hukou”, local usufrua de serviços públicos em condições mais semelhantes às dos residentes registados, com o objetivo de “melhorar a igualdade” e “libertar o potencial de consumo interno”.
Entre as medidas contam-se o reforço do acesso dos filhos de migrantes a vagas públicas no ensino obrigatório, a inclusão de mais famílias sem registo local em programas de habitação social para arrendamento e a eliminação das restrições do “hukou” para a contribuição para a segurança social no local de trabalho.
O texto prevê também melhorar o acesso ao seguro de saúde no local de residência e a incorporação progressiva da população não registada nos serviços de acolhimento de crianças, cuidados a idosos e assistência social.
As diretrizes insistem em adaptar o planeamento de escolas, hospitais, habitação social e outros serviços ao volume da população residente, e não apenas ao da população com “hukou” local.
O “hukou”, instituído durante o tempo de Mao Tsé-Tung, tem funcionado historicamente como um passaporte interno que vincula o acesso a benefícios públicos ao local de registo familiar.
Na prática, milhões de trabalhadores migrantes viveram e trabalharam durante anos em cidades onde nem sempre tinham acesso à educação pública, aos cuidados de saúde, às pensões ou à habitação social.
De acordo com dados citados pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post (SCMP), a população migrante interna na China ultrapassa os 357 milhões de pessoas.
Para Henry Gao, do Centro de Inovação para a Governação Internacional, a medida pretende “desvincular parcialmente” o acesso ao bem-estar social do estatuto do “hukou”, sem abolir formalmente o sistema.
Gao afirmou na rede social X que a medida pode ser relevante porque altera um dos princípios centrais do sistema chinês: que o acesso aos serviços públicos básicos dependa do local de registo familiar e não do local onde a pessoa vive realmente.
Is China finally starting to change the Hukou system?
Yesterday, China’s State Council issued the 《关于推行常住地提供基本公共服务的实施意见》 (“Implementation Opinions on Providing Basic Public Services Based on Place of Usual Residence”). The title sounds technocratic and… pic.twitter.com/zSAWlWymb7
— Henry Gao (@henrysgao) May 23, 2026
O especialista acrescentou que a reforma tem também uma dimensão “macroeconómica”, uma vez que muitos trabalhadores migrantes mantêm níveis “excessivos” de poupança devido à incerteza sobre se os seus filhos poderão frequentar a escola, se terão acesso a cuidados de saúde locais ou se poderão reformar-se na cidade onde trabalham.
Recentemente, o fomento da procura interna tem figurado como uma das prioridades das autoridades chinesas.
Gao alertou, no entanto, para a circunstância de a reforma poder chegar “demasiado tarde” e ser “insuficiente”, caso os governos locais, pressionados pela crise imobiliária e pelo endividamento, não recebam financiamento para assumir a expansão dos serviços.
A China já tinha flexibilizado, nos últimos anos, algumas restrições relacionadas com o “hukou”, especialmente em cidades pequenas e médias e em áreas como o registo de casamentos, segurança social ou compra de habitação, embora as grandes cidades continuem a manter barreiras mais elevadas.