O arquiteto Filipe Lopes, antigo diretor municipal de Reabilitação Urbana de Lisboa, morreu esta segunda-feira, aos 93 nos, na capital portuguesa, disse à agência Lusa fonte da família.

Filipe Mário Lopes, nasceu na cidade francesa de Armentières, em 1933, cresceu em Lisboa e formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Escola de Belas Artes de Paris e pelo Instituto do Urbanismo de Paris, da Sorbonne, em 1962.

No regresso a Portugal, ainda na década de 1960, trabalhou no Gabinete do Plano da Região de Lisboa, na Direção-Geral de Urbanização, onde dinamizou um grupo de estudo de Planeamento, e na Câmara de Lisboa, cidade à qual dedicou grande parte da sua vida, como indica a biografia publicada nas páginas da Ordem dos Arquitetos.

Na sua ação, entre muitas outras, destaca-se a reabilitação de cerca de oito mil habitações nos bairros históricos, o esforço para o controlo da prática especulativa da venda de terrenos, a sua associação ao SAAL — Serviço de Apoio Ambulatório Local, que respondeu a necessidades habitacionais urgentes, no pós-25 de Abril, e a criação de faixas de rodagem exclusivas para os transportes públicos de Lisboa, em 1975.

Filipe Lopes foi diretor municipal de Reabilitação Urbana, de 1990 a 2000, responsável pela recuperação e reconversão dos bairros históricos (Alfama, Mouraria, Madragoa, Bairro Alto, Bica, Paço do Lumiar, Ameixoeira, Olivais Velho, Carnide, Pátios e Vilas), destacando-se entre os derradeiros projetos a que esteve ligado, a recuperação do Convento das Bernardas, para habitação e serviços, no bairro da Madragoa.

Segundo a biografia da Ordem dos Arquitetos, “foi, sucessivamente, chefe da repartição do PDM [Plano Diretor Municipal], conseguindo a sua aprovação em 1974; diretor do departamento de Urbanismo da EPUL [Empresa Pública de Urbanização de Lisboa], criada por sugestão sua para contornar a prática especulativa sobre terrenos rurais da Câmara e poder construir habitação acessível; vice-presidente na comissão administrativa que orientou a gestão da cidade, responsável pelos pelouros de Habitação, Urbanismo, Espaços Verdes, Transportes e Saneamento; nos últimos dez anos de atividade, foi diretor municipal da Reabilitação Urbana, que organizou e dirigiu tecendo as linhas inovadoras de uma gestão descentralizada e integrada”.

Em entrevista à agência Lusa, em junho do ano passado, a propósito do projeto do Convento das Bernardas, Filipe Lopes recordou que o trabalho nos bairros históricos de Lisboa foi “uma luta, uma luta, uma luta”, mas os objetivos iniciais foram todos cumpridos graças à “legislação extremamente potente” que se mantinha, um quadro legislativo com raízes no regime estabelecido por Nuno Portas (secretário de Estado da Habitação e Urbanismo nos três primeiros governos provisórios, 1974-1975), no seu modo de pensar a cidade e na “força revolucionária” que ainda existia.

“As pessoas são pessoas quando têm relação com outros, de outra maneira são indivíduos. Uma ideia política qualquer desenvolve-se num grupo, não numa pessoa isolada. E isso é a tendência atual do mundo moderno, tornar-nos em indivíduos, não pessoas, cortar tudo o que é relação entre as pessoas”, afirmou então.

No passado dia 7, Filipe Lopes cedeu o seu acervo à Biblioteca Keil do Amaral, da Ordem dos Arquitetos.